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“O inimigo causou-nos 44 feridos numa noite”

Atribulada. Logo no início da comissão caímos numa emboscada. Seguiram-se outros ataques, mas só fui atingido uma vez por um estilhaço.
17 de Janeiro de 2010 às 00:00
A arma foi usada na brincadeira só para tirar a foto. Júlio aponta a Alfredo Oliveira. O perigo é que ela estava carregada e nenhum dos dois sabia...
A arma foi usada na brincadeira só para tirar a foto. Júlio aponta a Alfredo Oliveira. O perigo é que ela estava carregada e nenhum dos dois sabia... FOTO: Direitos reservados

Logo a começar, entre Julho e Agosto de 1967, tive uma experiência que me marcou para sempre. Quando íamos levar géneros alimentares a uma outra companhia caímos numa emboscada. Resultado: três feridos graves, que acabaram por morrer mais tarde em Teixeira Pinto. As vítimas não eram da minha companhia mas sim da 2ª. Ainda houve um camarada que desapareceu. Andou perdido durante o dia e a noite, até que adormeceu. Foi encontrado no dia seguinte, a 50 metros do quartel. Mal ele sabia que estava tão perto.

Eu não sofri qualquer ferimento mas fiquei muito assustado e acabei por ir para Bissau, para a consulta externa. E desde aí consegui ficar sempre no quartel, mas isso não me impediu de viver outras experiências traumatizantes. A minha companhia foi destacada para Cacheu a 26 de Janeiro de 1968, e aí é que começou o perigo. Um dia, quando estava a regressar de Bachile, foi atacada durante a noite e teve de recuar. Houve cinco mortos e 14 feridos. Desde essa data, estivemos pouco mais de 20 homens em Cacheu a tomar conta do quartel até ao dia 1 de Fevereiro, quando chegou um reforço feito pelo pelotão que veio de S. Domingos.

Naquela noite, a partir das 22h00, atacaram-nos de novo, causando 44 feridos. Um deles foi um enfermeiro a quem eu tinha pedido um medicamento para o estômago porque já estava com ‘o grau’. Quando ele ia a entrar na enfermaria foi de tal forma ferido que ficou todo crivado. Eu só apanhei com um estilhaço nas costas. Este ataque ocorreu numa noite em que estávamos todos descontraídos. Andávamos a beber uns copos.

Pouco antes de sermos flagelados, eu e o camarada Coelho até andámos na rua, onde bebemos umas cervejas, mas regressámos entretanto ao quartel porque notámos qualquer coisa estranha. Pouco depois começou o tiroteio. O Simões, um camarada da nossa companhia, estava sentado na minha cama a beber com outros militares quando tudo começou. O curioso é que, antes de se refugiar, a sua preocupação foi esconder o garrafão de jeropiga. Só depois se foi abrigar. Somente a partir desta altura começámos a abrir valas para nos escondermos.

Eu era radiotelegrafista. Em Bachile, a minha casa era um buraco. Desde aquela data, tudo voltou à normalidade, até ao dia 28 de Maio de 1968. Quando chegou a altura de render o pelotão, o capitão Silva decidiu que, não sendo eu um operacional, podia ficar mais tempo. Então estive mais seis meses, três dias e 20 minutos. Ou seja, entrei a 30 de Maio às 10h10 e só saí a 3 de Dezembro às 10h30. Daí seguimos para Bissau, onde passámos o resto da comissão. Apesar de ter sido mais calmo, ainda sofremos um ataque.

Éramos meia-dúzia de homens com poucas munições e um dia, durante um patrulhamento no rio, fomos flagelados. Íamos todos em tronco nu. Nunca nos passou pela cabeça que o inimigo estivesse ali. Não era uma emboscada, estavam apenas reunidos. Nós fugimos. O perigo esteve sempre bem presente durante a comissão e na minha companhia morreram seis homens. Além destas situações mais perigosas, a que felizmente escapei, também houve experiências que me marcaram pelo insólito.

Um dia, um furriel com os copos agarrou numa granada de mão e atirou-a para a parada. Logo apareceu o capitão, que lhe deu um grande murro. Recordo-me também dos petiscos que fazíamos. Chegámos a apanhar uma gazela e um abutre e a comê-los. Quer um, quer o outro, eram bons. O abutre era um pouco rijo mas saboroso. Nessa altura não o fazíamos por necessidade. Se bem que houve um tempo, em Agosto de 1968, em que passámos 14 dias a comer feijão-frade com arroz.

Ao almoço era feijão com arroz, ao jantar era arroz com feijão. Não havia mais nada. Lembro-me de um camarada, que gostava muito de voltar a encontrar, o Francisco Limpo Capa, que estava sempre pronto para estas coisas dos petiscos. Era de Lisboa e cantava bem o fado. Eu e ele vimos o alferes cortar-nos o crédito na cantina mas nós depressa resolvemos o problema. Continuámos a consumir usando o nome de outros militares.

Estes foram alguns dos episódios que vivi desde que fui mobilizado para a Guiné, a 1 de Maio de 1967. Embarquei no cargueiro ‘Alfredo da Silva’ a 11 de Junho e cheguei ao destino no dia 20. A viagem correu normalmente, apesar de nos termos assustado entre Cabo Verde e a Guiné. Mas nada aconteceu. Ficámos em Bissau até Julho e depois fomos para a zona operacional, em Teixeira Pinto.

VIDA PASSADA NA TIPOGRAFIA

Alfredo Gervásio Silva Oliveira é natural de Anadia, onde ainda hoje reside. Antes de ir para a Guiné já era tipógrafo numa gráfica do concelho. Durante a sua comissão exerceu as funções de radiotelegrafista. Deixou a Guiné em 16 de Maio de 1969, tendo feito a viagem no navio ‘Niassa’.

Ao regressar à sua terra, a 21 de Maio, retomou a actividade de tipógrafo na mesma gráfica onde trabalhava antes de embarcar e ainda hoje exerce funções. É casado e tem uma filha com 36 anos. Não falha um convívio com os antigos camaradas, sempre na companhia da mulher.

PERFIL

Nome: Alfredo Oliveira

Comissão: Guiné (1967/1969)

Força: Batalhão de Caçadores 1911

Actualidade: Hoje, aos 64 anos, em Anadia

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