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“O inimigo mandou-me ao ar duas vezes”

Na segunda parte da comissão em Moçambique, fomos colocados em Tenente Valadim. O maior perigo eram as minas anticarro
4 de Agosto de 2013 às 15:00
António Óscar Pinto combateu em Moçambique
António Óscar Pinto combateu em Moçambique FOTO: Vítor Mota

Assentei praça a 24 de outubro de 1967, no Regimento Infantaria Nº 14, em Viseu, onde tirei a recruta. Rumei depois para Abrantes, onde tirei a especialidade de Armas Pesadas, finda a qual fiquei a saber que estava mobilizado para Moçambique. Formei Batalhão no Regimento de Artilharia Pesada Nº 2, em Vila Nova de Gaia, ficando integrado no Batalhão
Nº 2847 e na Companhia de Artilharia Nº 2372.

Padeiro involuntário

Embarquei para Moçambique no dia 24 de abril de 1968 no paquete ‘Vera Cruz', tendo como destino Nacala. Daí rumámos até ao Catur ,de comboio, pois a linha ainda não chegava a Vila Cabral. Seguimos depois nas viaturas do Exército até Tenente Valadim, no distrito do Niassa. A minha companhia ficou sempre agregada à sede do Batalhão. Havia dois destacamentos ao cargo da nossa companhia que eram Luatize e Milépa, onde os quatro pelotões iam rodando.

Coube ao meu pelotão ficar logo no início em Luatize, que não era mais que um aglomerado de pequenas casas feitas de madeira, capim e barro que nos serviam de habitação. Como não levámos padeiro, e havendo ali um pequeno forno rudimentar, eu ofereci-me para tentar da melhor forma cozer o pão, prática que não tinha. Mas com o tempo, foi-se aperfeiçoando, e o casqueiro, como era designado, foi ficando saboroso.

Foi em Luatize que, no dia 5 de junho 1968, tivemos o primeiro batismo de fogo. Os nossos amigos da Frelimo foram logo ver como nos saíamos na guerra. Felizmente, não houve feridos da nossa parte, mas, como os guerrilheiros não ficaram satisfeitos com a nossa reação, voltaram a atacar em 25 de novembro do mesmo ano. Mais uma vez, não levaram a melhor. A 23 de junho de 1969 foram novamente tentar a sorte, desta vez com armas pesadas e lança-granadas. Nesse dia, houve uma baixa da nossa parte, um colega de uma Companhia de intervenção.

Fomos então para Tenente Valadim, onde não havia grande atividade do inimigo. O grande perigo eram as famosas minas anticarro, colocadas na picada. Volta na volta, lá ia uma viatura ao ar, abrindo autênticas crateras e causando alguns feridos, entre os quais eu me incluí. Outros camaradas ficaram magoados, e o nosso Alferes Ferrer, comandante do pelotão, teve mesmo de ser levado para a Metrópole. O inimigo mandou-
-me ao ar duas vezes, ficando na última um bocado mal tratado. Tive de ser transportado para o Hospital de Nampula (HM 125), mas felizmente não fiquei com qualquer deficiência, como aconteceu a muitos dos nossos camaradas.

Ao fim de 20 meses, rumámos até Mocuba, no distrito da Zambézia, mais propriamente para Mabo-Tacuane. Só havia plantações de chá e ali ficámos até junho de 1970.

Quando já tínhamos tudo preparado para regressarmos à Metrópole, veio uma mensagem a dizer que a nossa companhia ia ficar mais tempo em território moçambicano, e no nosso lugar ia outra companhia. Foi como se nos tivessem tirado a terra debaixo dos pés. Não posso esquecer todos os meus camaradas que, numa ida à cidade da Beira buscar viaturas, tiveram um acidente horrível. Ao atravessar o rio Zambeze num batelão, este virou-se, matando dezenas de militares. Alguns deles eram do ‘meu' Batalhão 10 e muitos mais de outras companhias.

Regressámos a Lisboa a 15 de julho de 1970 no navio ‘Niassa', mas eu só passei à disponibilidade em fevereiro de 1971, em virtude dos ferimentos que sofri aquando dos rebentamentos das minas anticarro.

 

Comissão
Moçambique, 1968-1970

Força
Companhia de Artilharia 2372

Atualidade
Reformado dos CTT, vive em
Manique do Intendente (Azambuja). Aos 67 anos, é casado, tem uma filha e uma neta

A Minha Guerra António Óscar Pinto Moçambique
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