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O juiz que enfrenta a Coroa

José Castro fica na história por chamar a depor um familiar direto do rei de Espanha
21 de Abril de 2013 às 15:00
José Castro vive em Maiorca e mantém as rotinas diárias
José Castro vive em Maiorca e mantém as rotinas diárias FOTO: Enrique Calvo/ Reuters

Em Maiorca, na casa com vista sobre o Mediterrâneo, é comum ver a luz acesa pela madrugada dentro. O juiz José Castro, que vai ficar para a história por ter sido o primeiro a chamar à Justiça um membro da família real espanhola, é também conhecido pelas insónias que o assaltam há mais de duas décadas. É pela calada da noite que este homem de 67 anos, divorciado, pai de três filhos, costuma despachar processos e terá sido numa dessas noitadas que tomou a decisão de incluir o nome de Cristina Frederica de Borbón e Grécia, filha mais nova do rei Juan Carlos, no processo do Instituto Nóos. 

A infanta deveria prestar declarações em tribunal no dia 27 de abril, mas o recurso apresentado pelo procurador Pedro Horach levou à suspensão da audição. Para já, fica o pronunciamento de Cristina de Borbón, constituída arguida por suspeita de envolvimento na rede de enriquecimento ilícito, que implica o seu marido Iñaki Urdangarín e o ex-sócio Diego Torres.

Justiça para todos

O caso Nóos há muito que ocupa as manchetes dos jornais em Espanha. Mas só no início deste mês tocou diretamente a família real, quando os indícios e forte pressão popular levaram o juiz a constituir a infanta como arguida.  No auto, em que, tal como todos os que assina, usa linguagem simples e eloquente, Castro explica a decisão: “Deixar que a incógnita se perpetue seria um passo em falso para o descrédito da máxima de que a Justiça é igual para todos.”

José Castro tropeçou no caso,  que o próprio classificou como o mais labiríntico da sua carreira, quando investigava o custo excessivo do velódromo de Palma. Instituição sem fins lucrativos, o Instituto Nóos iniciou atividade em 2003, para promover turismo, cultura e desporto. Com Urdangarín  na presidência, beneficiou de contratos milionários com os governos das ilhas Baleares e a Comunidade Valenciana. As suspeitas surgiram quando parte dos cerca de seis milhões de euros captados aos cofres públicos foram depositados em contas bancárias de empresas detidas por Urdangarín e Torres. Uma série de mensagens eletrónicas envolve também Cristina de Borbón, que integrava os órgãos dirigentes do Nóos.  Em março de 2012 foram consideradas “inconsistentes”. Em abril de 2013 valeram conclusão contrária.

Discreto e vaidoso

Sem mudar um passo na rotina diária que mantém desde que em 1985 aterrou na cidade de Palma de Maiorca, o juiz Castro já alterou o rumo da monarquia. A chamada da infanta Cristina a um processo judicial cai como pedra num charco, no momento em que a popularidade do rei Juan Carlos é pela primeira vez negativa e em que as manifestações a favor da República se sucedem nas várias regiões de Espanha. Segundo a imprensa espanhola, o juiz terá hesitado bastante antes de chamar Urdangarín e mais ainda com a infanta Cristina. No entanto, não queria reformar-se com esse peso no colo.

Apesar da grandiosidade do caso, Castro continua a usar autocarro para chegar ao tribunal, onde mantém um gabinete de 15 metros quadrados. Na pacata cidade, mais dedicada ao veraneio, é elogiado por nunca se ter deixado subjugar aos ricos e poderosos.

Quando, em 1991, Sebastián Ginart, dono de uma editora que o juiz acusara num caso de faturas falsas,  ficou em liberdade graças a um volte-face do processo, Castro teve uma reação explosiva e deu a mesma liberdade a todos os que cumpriam penas por crimes semelhantes. Nessa altura, os guarda-costas dos visados não o atemorizaram, tal como hoje as indicações do Palácio da Zarzuela não o limitam. Para os  seus detratores, a faceta de justiceiro mais não é do que um ato teatral, criado para fazer brilhar o homem cuja maior ambição foi sempre vestir a toga de juiz e deixar no epitáfio a marca de que foi capaz de lutar contra a corrupção.

O bom e o vilão

Discreto, solitário, vaidoso e conquistador, José Castro mistura em si facetas de bom e de vilão. Dotado de enorme capacidade de trabalho, que o leva a marcar julgamentos aos sábados – como aconteceu com Iñaki Urdangarín e deveria ocorrer com a infanta Cristina, se fosse depor dia 27 como inicialmente previsto –, a assinar despachos pela madrugada e a fazer exercício às 06h00, é descrito como “incansável”. Ao ‘El Mundo’, o filho mais velho, Daniel, advogado de 37 anos,  classifica-o como alguém “capaz de trabalhar 14 horas, sair de bicicleta para fazer compras num supermercado e voltar a trabalhar”.

Nascido em Córdova, no seio de uma família de agricultores, que acabou falida, José Castro Arágon destacou-se nos bancos da escola pela eloquência. Iniciou carreira como funcionário das prisões e percorreu o país (Barcelona, Sevilha, Lanzarote) até chegar a Palma de Maiorca.  Obsessivo na profissão e na vida pessoal, não frequenta a elitista sociedade local e nunca perde um jogo do Real Madrid. Divorciado há 20 anos, vive sozinho, apesar de ter companheira, e gosta de elogiar as colegas de trabalho. Usa casacos de cabedal, de corte clássico, que favorecem a imagem de apoiante da ‘esquerda moderada’ e não ostenta riqueza. Vive do salário de quatro mil euros, em moradia num bairro discreto, possui uma motorizada V-Max 1200 e um BMW Z3 descapotável, comprado em segunda mão.

 

O genro que manchou o prestígio baço da Casa Real

 

Inicialmente, era apenas o nome de Iñaki Urdangarín, 45 anos, casado com a infanta Cristina, que manchava a realeza espanhola. Histórias de infidelidades e favorecimentos sempre andaram ao lado do rei Juan Carlos, mas não bastavam para que os espanhóis questionassem o seu monarca. Foi quando Urdangarín, antigo jogador olímpico de andebol, se tornou suspeito de ter desviado milhões de euros de fundos públicos através do Instituto Nóos (sociedade de patrocínios à qual presidiu entre 2004 e 2006), que começaram as pressões. Diego Torres, ex-sócio, implicou Cristina de Borbón nos negócios do Nóos, ao entregar em tribunal correio eletrónico e documentos que, alegadamente, referem o rei. Urdangarín negou o envolvimento da Casa Real. Esta reagiu ‘com surpresa’ ao pronunciamento da infanta.

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