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Correio da Manhã

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O LADO NEGRO DA REDE

“Não sou eu.” Fernanda Serrano desmentia assim aquilo em que todos queriam acreditar: que a porno-star da ‘net’ era, de facto, a actriz. Mais do que um meio para boatos, o ciberespaço é hoje uma arma para crimes. De toda a espécie.
25 de Maio de 2003 às 00:00
O caso Fernanda Serrano foi desmentido na mesma televisão que o divulgou: afinal, a actriz era outra e especializada em filmes pornográficos. O episódio lembra outro ocorrido recentemente com a portuguesa eleita Miss Playboy, Carla Matadinho. Fotografias caseiras rodaram no espaço cibernético, as cenas eram quentes e, desta vez, de proveniência ‘honesta’: os protagonistas eram Matadinho e o namorado. Qualquer dos casos foram, num curto espaço de tempo, verdadeiros ‘blockbusters’ cibernéticos.
Não espanta. Não é necessário grande competência para aceder a 'sites' de pornografia. Nem é necessário grande esforço para consultar verdadeiros guias de turismo sexual, ver imagens de exploração de menores, ‘sites’ de venda de armas e de droga, fotografias macabras ou de sadomasoquismo e de todas as taras que a imaginação humana consiga engendrar. Muitos desses sítios apresentam-se rendidos ao ‘marketing’ com anúncios como ‘não pague um tostão pelo seu pior porno’ ou ‘o melhor do ‘gore’, estranho, sexo, violência e puros sites doentios’.
Basta alguma paciência, em maior ou menor grau consoante os casos. Introduzam-se palavras-chave (de preferência em inglês) como armamento, drogas, sexo com adolescentes e outras, para ter, por exemplo, à sua frente a oferta de substâncias proibidas (para conceber uma bomba caseira, por exemplo) ou imagens de bebés mortos, corpos calcinados, pessoas estropiadas, crianças em actos sexuais.
CANIBAIS E TERRORISTAS
‘Procura-se homem jovem e bem constituído, entre os 18 e os 30 anos, para matança’. Este pequeno ‘classificado’ na ‘net’ daria origem a um crime que, em 2002, abalou a cidade alemã de Rotenburg e correu o mundo. Colocado por Armin, um homem de 41 anos, o apelo atraiu as atenções de Bernd, um engenheiro de Informática de 42. O encontro cedeu lugar a um festim, em que o engenheiro foi a ementa. O primeiro prato servido a ambos foi o órgão sexual de Bernd que acabou assassinado e armazenado no congelador. Certo... Mas um mesmo anúncio poderia ter surgido na Imprensa, dando origem ao mesmo desenlace.
A questão coloca-se hoje a um nível superior. "Num grau cada vez maior, grupos terroristas, incluindo Hezbollah, Hamas e al-Qaeda estão a utilizar ficheiros de computador, e-mail e mensagens criptadas para suportar as suas operações”, escreveu George Tenet, director da CIA ao comité para as relações internacionais do senado norte-americano em Março de 2000. Um ano mais tarde, fontes da segurança norte-americana eram bem mais explícitas: “Osama Bin Laden e outros estão a colocar mapas e fotografias de potenciais alvos e respectivas instruções para actividades terroristas usando como suporte ‘chat rooms’, sítios de pornografia e outros ‘web sites’.” A 11 de Setembro, a América ficava de luto.
RAPTOS E PEDOFILIA
Ainda hoje, as autoridades e a mãe de Tiago João, desaparecido em 1988, na Serra da Arrábida, não descartam a hipótese da criança, entretanto já adolescente, poder estar entre os milhares de retratados em 'sites' de pedofilia. A Interpol estima que existam actualmente 150 mil imagens individuais e não duplicadas transmitidas na Internet relacionadas com abuso sexual de menores. Há um ano, eram 100 mil. Na sua base de dados estão arquivadas 20 mil imagens individuais de crianças, o dobro de há dois anos. Na 71a Assembleia-Geral da Interpol, o comissário Giuliano Zaccardelli confessou que “as autoridades não têm ainda o nível necessário à verdadeira Polícia do século XXI”. Porquê? “Estamos a fazer frente a ameaças como o terrorismo internacional, crime organizado e tráfico de droga”. Graças à Internet – sublinha – “um pequeno traficante de droga pode ter contactos com um terrorista no outro lado do mundo”.
Face à clarificação e sofisticação da Internet – como aliás de todas as tecnologias –, as novas formas de comunicação beneficiam e “são susceptíveis de serem utilizadas por santos e pecadores”, diz José Magalhães, deputado e percursor da 'net'. Hoje, a ‘luta’ trava-se “nas estratégias de protecção de redes contra ataques violentos de vírus ou de outras formas de invasão”. Em Portugal, o Plano Nacional de Segurança Digital está em ‘banho--maria’ há demasiado tempo, enquanto a União Europeia adopta medidas de resposta rápida inclusas na sua estratégia de Defesa e que visam a prevenção do terrorismo e de outras formas de intrusão nos sistemas de informação. Segundo José Magalhães, nesta área, a tarefa legislativa lusa está incompleta. O normativo existente data da primeira metade da década de 90, o que, nestas coisas da 'net', significa pré-história. “Legalmente não estão previstos os ataques a redes com provocação e bombardeamento maciço para a neutralização dos meios. Estão por resolver alguns problemas relacionados com a pedofilia e crimes contra menores.” Falta ainda – defende – "maior preparação e sobretudo concessão às autoridades (PJ) de meios processuais que possibilitem acesso mais eficaz aos dados de tráfico das operadoras.”
A questão não é apenas a incapacidade técnica das Polícias mas o próprio carácter da ‘net’ que possibilita um emaranhado de relações cibernéticas com muitos milhares de quilómetros de distância. Exemplo da teia de relações perigosas é a chamada Operação Landslide, iniciada em 1999 quando a Inspecção dos Serviços Postais norte-americanos identificou 350 mil subscritores que pagavam 29 dólares por mês para aceder a imagens de exploração sexual de menores. Em cinco meses, a empresa tinha ganho 5,5 milhões de dólares (sensivelmente o mesmo em euros). Nessa altura foram identificados 70 mil indivíduos subscritores que viviam em mais de 60 países (excluindo os EUA e o Canadá). Em 12 países foram feitas, entretanto, cinco mil detenções e buscas relacionados com este caso. N
VÍTIMAS DA INTERNET
O filme de 15 segundos da actriz Fernanda Serrano não é caso único na Internet. Muitas outras mulheres foram alvos preferenciais de ‘sabotagem’, muitas são também portuguesas. Recentemente Sofia Alves viu fotos suas, em poses muito sugestivas, em 'sites' pornográficos, numa fotomontagem que aproveitava cenas com Virgílio Castelo na telenovela ‘A Grande Aposta’. A actriz apresentou queixa na Judiciária. Margarida Pinto Correia também recorreu às autoridades por conta de fotos forjadas, tendo ganhado o processo judicial. Helen Svedin, casada com Luís Figo, viu igualmente ‘on-line’ uma série de imagens de uma mulher nua serem-lhe imputadas.
A outra lusa recentemente exposta no ciberespaço anda de braço dado com Pamela Anderson. Tal como a actriz norte-americana, cujos vídeos de sexo com Tommy Lee rodavam nos ecrãs dos computadores sem autorização dos protagonistas, Carla Matadinho viu também fotos de um ‘encontro amoroso’ expostas olhares alheios. Mas neste caso, a actriz era mesmo ela.
FRAUDE NAS COMPRAS
Um número crescente de queixas por fraude na ‘net’, envolvendo compras, aumentou a desconfiança dos eventuais compradores ‘on-line’. De um total de queixas por irregularidades recebidas por um organismo americano, a Internet Fraud Compaint Center (IFCC), 64 por cento relacionavam-se com situações fraudulentas, sobretudo em ‘sites’ de artigos de bebé, jogos, consolas de vídeo e cassetes, computadores de bolso, câmaras de vídeo e fotográficas, computadores de secretária e jóias. No entanto, a IFCC refere que todos os dias se realizam 1.300 milhões de transacções comerciais ‘on-line’ e apenas um por cento são fraudulentas.
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