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O LUGAR DAS BRUXAS E DOS CURANDEIROS

É uma aldeia perdida para ‘trás do sol posto’ que, em todos os primeiros fins-de-semana de Setembro, ganha novo alento à custa de bruxedos e mezinhas. Terra de gente sabedora de mistérios, onde nem as vacas ficam loucas.
7 de Setembro de 2003 às 17:54
São os dias mais longos, mais mediáticos, de uma recôndita aldeia do Barroso. Vilar de Perdizes, pacata aldeia do concelho de Montalegre, salta para a ribalta de tudo quanto é jornal, rádio e televisão. À custa da medicina popular; das ervas, dos chás e das infusões. Das crendices, dos curandeiros e dos endireitas. Das mulheres de virtudes e das mezinhas. Mesmo dos charlatões e das bruxas. Pois, as bruxas e os bruxedos. E ainda os espíritos. ‘Abrenúncio’, ‘t’arrenego Satanás’, ‘vade retro’. Padre Fontes – o sacerdote polémico – não acredita em espíritos. “É tudo ‘magicação’ de cada um”, diz. E lança uma frase estafada: “Vilar de Perdizes não é terra de bruxas”. Mas logo utiliza uma expressão emprestada ao outro lado da fronteira e não menos batida: “pero que las hay, las hay”…
O Congresso de Medicina Popular tira Vilar de Perdizes do anonimato do mapa. Milhares de pessoas alteram a face pacata de uma aldeia do Barroso que, no resto do ano, é igual a milhares de outras do interior do país. Ali chegam médicos e homeopatas, osteopatas e curandeiros, endireitas e ‘magnetistas’, curiosos e estudiosos académicos. Chega-se para discutir, para mostrar remédios novos, para relatar curas milagrosas, a que a boca do povo não se cansa de chamar de sobrenatural. Mesmo que sejam à base de conhecimentos de antanho, como o uso da urina de criança para curar a icterícia, do sangue da menstruação para sarar a gota e a epilepsia, do ovo estrelado sobre a barriga da parturiente para ajudar à saída da placenta, da bosta de boi para as queimaduras ou da saliva do cão para as feridas.
A DOUTORA DA ERVAS
Ti’Ana Pitinha, uma simpática anciã que, desde há muito, se tornou uma espécie de ‘ex-libris’ da aldeia percebe como ninguém de ervas, chás e remédios naturais. Uma autêntica ‘doutora das ervas’, Ti’Ana não é de muitas falas. Nos dias do congresso mistura-se com o povo, lenço na cabeça, xaile preto pelos ombros, que o frio de Setembro já aperta no Barroso. Ti’Ana Pitinha conta o que sabe; um saber de empirismo feito, de observação das plantas e das ervas, sem esquecer o que aprendeu com os antepassados e à custa do pai, quando estava doente. Conta que, quando tinha sete anos, o pai já estava muito mal, os médicos rareavam, não havia dinheiro que chegasse, Ti’Ana Pitinha tratou de bater à porta dos vizinhos, à procura das ervas indicadas para curar o mal. “E olhem que o senhor meu pai só morreu com 97 anos”, diz-nos.
Ti’Ana recorda, por exemplo, que um dia andou para os lados de Chaves, à procura de determinada erva. De repente uma senhora reconheceu-a, pediu-lhe ajuda, pois sofria muito dos rins. A ‘doutora’ lembrou-se do hipericão bravo e foram ambas até casa da tal senhora: “e não é que dei de caras com o hipericão lá no quintal?”. Aurora Silva confirmou-nos a cura. “Ela era a minha única esperança. Santa hora em que a encontrei”, diz-nos.
Pede-se a Ti’Ana Pitinha que abra então o livro da sua sapiência empírica. Começa a desfiar o rol dos seus conhecimentos, feitos à custa de tantos anos entre as ervas milagrosas de Vilar de Perdizes e dos arredores. Fala da urzeira trigueirinha, boa para a próstata, da queiroga-brava, que tal como o hipericão-bravo alivia os rins, do tojo, que se usa contra a infecção do fígado e que, também, ajuda à potência nos homens. E, já agora, para aliviar as dores menstruais, nada mais do que a erva-das-azeitonas, que também é boa para as artroses e as dores dos ossos. E as doenças da cabeça, tão em voga? O lúpulo, enquanto as constipações se curam com o eirogo e os problemas das vias urinárias têm como antídoto o anis. É um nunca mais acabar de receitas, de remédios, de chás, de infusões.
OS LACRAUS DE BENEDITO
Em Vilar de Perdizes não se fala só de plantas medicinais. Há de tudo um pouco. Benedito Borges há muitos anos que não falha um congresso. Conta as suas experiências, agora que já entrou nos setenta anos. Desce da sua ensolarada aldeia de Vale de Salgueiro, já depois de Chaves e a caminho de Vinhais. No bolso, não se esquece nunca das caixas de fósforos onde guarda os seus lacraus, “vivinhos da silva”, como diz. Isso mesmo, o lacrau, bicho que com picada que pode levar à morte. Pega neles como uma criança brinca com ‘legos’. “Tinha uns sete ou oito anos, nunca mais me hei-de esquecer, quando comecei a ter sonhos”, diz. E num destes sonhos viu que curava cancros com picadas do lacrau; convenceu-se de que “veneno mata veneno”. Explica a metodologia: A “pica” – como chama à picada do bicho – tem de ser feita de oito em oito dias na zona do corpo onde o paciente se queixa. A pessoa começa por ter umas oito a dez horas de dores. Com a segunda “pica”, as dores aumentam em número de horas. O curandeiro conclui que, quando o doente tiver 24 horas seguidas de dores, então está completamente curado.
Fala de um médico de Lisboa que lhe mandou doentes “já desenganados”. Hoje, nove deles estão completamente curados. Uma carta que mostra a quem duvidar mas sem revelar o nome do clínico; diz que é “por motivos óbvios”.
A ‘CURA-CANCROS’ DA AVELEDA
Em Aveleda, entre as altas montanhas, com Espanha do outro lado, Luísa Assunção, é a “mezinheira da Aveleda”, a “cura-cancros”. Nem ela sabe bem porquê. O segredo do seu remédio não revela. Diz que “foi um médico espanhol fugido da guerra civil do Franco” que deixou a “receita” à sua mãe. Como agradecimento por ter sido acolhido e bem tratado naquelas terras onde não chegaram as tropas franquistas.
Luísa Assunção recebeu o “segredo” da mãe e chega-lhe gente de tudo quanto é sítio, “até do estrangeiro”. A curandeira não tem dúvidas, “quando vejo que não há remédio aviso logo, não vale a pena perder tempo”. Para uns casos, aplica um unguento e para outros uma pomada. Depende do tipo de mal, varia conforme a zona do corpo. Diz que “não bota sentido” a pobre ou rico, atende toda a gente que lhe chega à aldeia a pedir ajuda. Não quer nada em troca, “só a santa paz do Senhor” mas, ainda assim, vai recordando, com um sorriso numa boca já desdentada, que são muitos os que regressam a Aveleda para lhe mostrar que estão sarados e para deixar “umas lembranças”.
À custa deste bem-fazer, Luísa Assunção já foi chamada à polícia e chegou mesmo a ser detida. Levada a tribunal, acabou condenada. Cumpriu a pena e quando saiu, sem qualquer temor, lá continuou na sua actividade de curandeira.
ONDE NEM AS VACAS FICAM LOUCAS
Para quem duvide a capacidade curativa de algo tão prosaico como as ervas que crescem naqueles campos, a população de Vilar diz que a prova está no mistério de para aquelas bandas nunca ter havido uma ‘vaca louca’. “Os animais são inteligentes” e, segundo garante o povo, capaz de “conhecimento” de separar o trigo do joio durante a actividade do pasto.
“’Vacas loucas’ em Barroso? É claro que não”, diz o Padre António Fontes. E, num largo sorriso, explica que “os animais sabem muito bem que ervas hão-de procurar quando se sentem doentes disto ou daquilo”.
Não há que duvidar, “os bichos são como nós quando nos sentimos mal”, acrescenta o padre, aconselhando, pelo sim pelo não, o naco do selectivo gado do Barroso.
A MEIA CENTENA DE ALMAS DA ALDEIA
“Há um bom par de anos era o cabo dos trabalhos para se tomar um café, estava sempre cheio, e agora é o que se vê, meia dúzia de homens a dar duas de treta ou a jogar às cartas e pouco mais”. António Marques, secretário da junta de freguesia local, não é propriamente um velho (andará nos quarentas) mas nem por isso deixa de lamentar, com a prosápia típica aos idosos, o estado de coisas na aldeia que o viu nascer. “Pode muito bem escrever que isto que se passa aqui em Vilar de Perdizes passa-se por todo o concelho de Montalegre e, até mesmo, por todo o Barroso”, diz-nos sem qualquer dúvida. “Se formos dar uma volta por aí o que mais se vê é gente que vive da reforma, que passa o tempo de casa para o café e do café para casa, mas que aos domingos não se esquece de ir à missa”, diz meio a sorrir.
A maior parte da “malta nova” não está para “aguentar esta vida” e então “vai para Braga ou para Lisboa à cata de melhor sorte”. “Para já não falar dos que um dia, há muito já, partiram para a França, a Suíça, a Alemanha e o Luxemburgo, até mesmo para os Estados Unidos e o Canadá.” E esses filhos da terra que emigraram voltam uma vez por ano. “Quando as saudades doem vêm de visita mas, a esmagadora maioria deles, já não faz tenções de voltar aqui para a aldeia.”
E nas noites de Inverno, “que são como breu quando a lua não vai cheia”, não há praticamente vivalma pelas ruas de Vilar de Perdizes. “Durante a semana a gente mete-se em casa para comer o caldo e daí a pouco toca a dormir, ainda por cima com o frio que faz.” Os poucos que se aventuram a tomar um café no ‘Cabaço’ ou no ‘Paço’ são já caras costumeiras, daqueles que já não dispensam o “bichinho”, faça chuva, frio ou neve. São os que podemos encontrar a dar dois dedos de conversa ou a mandar vaticínios sobre o ás de copas que devia ter sido jogado logo na primeira vaza ou a manilha de paus que o parceiro pensava que estava noutro lado.
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