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O menino que pede órgãos aos políticos

David Cameron já escreveu a Luís Gonçalves, uma criança nascida em Almada que pretende ajudar quem necessita de transplantes.
30 de Junho de 2013 às 15:00
Luís e Eduardo, reunidos após o menino ter recebido um rim do pai
Luís e Eduardo, reunidos após o menino ter recebido um rim do pai FOTO: D.R.

Cristiano Ronaldo é o alvo preferencial de clubes como o Mónaco ou o Manchester United, mas também está na lista de Luís Mitchell-Gonçalves, um menino de nove anos empenhado em convencer os políticos britânicos de que devem registar-se como dadores de órgãos. Até porque nem todos os necessitados de transplantes têm a sorte que, por entre muitos azares, teve o rapaz nascido em Almada.

Depois de lhe ser diagnosticada uma insuficiência renal, Luís salvou-se graças ao rim que recebeu do pai, Eduardo Gonçalves, um filho de emigrantes portugueses nascido em Londres e que tem dedicado grande parte dos 45 anos de vida às questões ambientais. Agora, enquanto termina a recuperação da cirurgia a que foi submetido a 19 de março, ajuda-o a enviar e-mails a todos os membros da Casa dos Comuns, a câmara baixa do Parlamento.

No site criado para a campanha (www.luislist.co.uk) tem lugar de destaque o primeiro-ministro britânico, David Cameron, um dos primeiros a responder. "Quero que haja tantos órgãos disponíveis para as pessoas que deles precisam quanto for possível. Este governo tem apoiado várias iniciativas para encorajar as pessoas a darem o nome para o registo de dadores", lê-se na carta enviada do número 10 de Downing Street, na qual o governante garantiu a Luís que, "como tu próprio dizes, tens muita sorte por ter um pai tão bondoso".

Eduardo Gonçalves, que na segunda-feira regressa ao trabalho de diretor de comunicação da organização ambientalista The Climate Group, após meses de luta contra o problema de saúde de um dos seus filhos gémeos – José é o nome do outro –, já recebeu um elogio ainda maior. "Agora vais fazer sempre parte de mim", disse-lhe Luís.

OPERADO ANTES DE NASCER 

Para Eduardo e Siobhan, uma ex-repórter fotográfica do diário ‘The Guardian’ que conheceu em Londres, esta foi mais uma batalha. Quando ela ficou grávida de Luís e José foi aconselhada a fazer um duplo aborto no Hospital Garcia de Orta, em Almada, para onde tinham sido enviados do hospital de Beja, numa altura em que viviam no Alentejo. Os gémeos sofriam de síndroma de transfusão feto-fetal, problema em que um dos fetos ‘açambarca’ o sangue que deveria estar a ser dividido entre os dois, o que pode resultar na morte de ambos.

"Felizmente estava lá um médico excelente que trabalhara em Londres com uma equipa que foi a primeira a fazer operações dentro da barriga da mãe", recorda Eduardo. A cirurgia decorreu na capital do Reino Unido, na 23ª semana de gravidez, e foi dito aos pais que havia 70 por cento de probabilidade de pelo menos um dos filhos não sobreviver, pelo que ambos tiveram de assinar termos de responsabilidade. "Foram meses de muita angústia e ansiedade", reforça o ambientalista, que renunciou à dupla nacionalidade aos 18 anos, pois o seu pai tinha medo que o chamassem para a tropa, mas garante sentir-se "100 por cento português".


Apesar do sucesso da intervenção cirúrgica, que permitiria o nascimento dos meninos na maternidade do Garcia de Orta, o síndrome de transfusão feto-fetal não foi isento de sequelas. José revelou alguns problemas de desenvolvimento e os médicos acreditam que também foi essa a causa da insuficiência renal de Luís.

Os problemas que originaram um ano de diálise, e só foram resolvidos graças ao transplante, apareceram sem aviso. "Nestes casos há sempre vómitos, cansaço e falta de energia. E ele não tinha nada disso. Jogava futebol, fazia ginástica, e às vezes quando chegava a casa encontrava-o vestido de chef a cozinhar para mim", diz Eduardo.

HOSPITAIS DIFERENTES

A família estava no emirado do Abu Dhabi, onde o pai trabalhava na agência ambiental, quando foi revelado que os rins da criança tinham problemas, no que começou por ser considerado um problema de bexiga. Disseram ao casal que a insuficiência renal poderia ficar controlada durante um ou dois anos, mas o estado de saúde de Luís agravou-se depressa, seguindo-se um total de dez operações ao longo de tantos meses.

Sendo ambos compatíveis, os pais tiveram de decidir qual deles se inscreveria no programa de transplantes. "Pareceu-nos melhor que fosse a Siobhan a tomar conta de nós", explica Eduardo, que trocou Gosport, uma cidade costeira no Sul de Inglaterra, perto da qual se pode ver sobreiros, pela Londres natal, que encarava apenas como local de trabalho, fazendo todos os dias três horas de viagens de comboio.

Pai e filhos foram operados no mesmo dia, mas em hospitais diferentes. Na manhã de 19 de março o rim de Eduardo foi colhido no Guy’s Hospital, perto da torre de Londres, e colocado pela mesma equipa em Luís à hora de almoço no hospital pediátrico de referência Great Ormond Street. "Os resultados foram animadores e a Siobhan telefonou a dizer-me que o rim estava a funcionar", lembra o dador, que ao longo dos meses anteriores ficara a conhecer vários casos de rejeição de órgãos quando tudo parecia estar bem encaminhado.

Não terminaram então os sustos, pois o menino foi submetido a uma nova cirurgia, destinada a desobstruir duas veias do coração (devido ao efeito da diálise), não escapando também a uma infeção hospitalar. Teve Eduardo ao lado – dois dias após perder um rim, o pai teve alta e foi levado de ambulância para o hospital pediátrico.


 

Toda a família pôde ficar reunida num apartamento nas instalações hospitalares, o que não foi fácil para José, que viu o irmão entubado e debilitado, mas apurou os instintos protetores da criança. "Ficou a tomar conta de mim, assegurando-se de que eu não pegava em coisas pesadas", diz Eduardo, que ainda enfrentaria mais uma provação. O casal a quem arrendaram a casa enquanto estavam em Londres recusou-se a sair, apesar de só ter pago uma vez, pelo que se viram forçados a viver num parque de caravanas. Só agora chegou a ordem de tribunal que permitirá aos Mitchell--Gonçalves regressarem ao lar.

EXEMPLO DOS POLÍTICOS

Antes disso arrancou a ‘Luís List’ (‘Lista do Luís’), uma campanha destinada a aumentar o número de registados como dadores de órgãos no serviço nacional de saúde do Reino Unido. Foi o resultado de terem conhecido muitas crianças em situações semelhantes, algumas sem familiares compatíveis ou suficientemente saudáveis para fazer um transplante – além de alguns adotados sem contacto com as famílias biológicas –, que chegam a passar cinco anos à espera de um órgão. "Ele ficou com muita pena deles e quis fazer algo. É um menino com as suas próprias ideias e opiniões, e interessa-se pelo meu trabalho", diz o pai, que já foi assessor do Partido Liberal-Democrata na Câmara dos Comuns, tendo trabalhado para a WWF International. E que, no seu presente trabalho, lida com o ex-primeiro-ministro Tony Blair.

"Vamos começar pelos políticos, que devem dar um bom exemplo", disse a criança, desde então ajudada pelo pai a enviar mensagens para todos os deputados da Câmara dos Comuns, nas quais salienta que passar anos a fazer diálise "não é divertido" e em que compara a doação de órgãos à reciclagem.

A 10 de julho o menino nascido em Almada, apesar de não ter dupla nacionalidade, irá discursar na Câmara dos Comuns, perante o secretário da Saúde. Poderá lembrar que todos os dias morrem três britânicos que estavam em lista de espera para receber um órgão compatível. E até lá é provável que também escreva à rainha de Inglaterra e a Cristiano Ronaldo, ídolo que partilha com o seu irmão gémeo e de quem gosta de ver marcar golos por Portugal.

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