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Correio da Manhã

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O MEU FADO

Descubro no fado a noção trágica da vastidão do universo e o reconhecimento bem-humorado da relatividade dos seres e das coisas.
8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
Significando destino, identifica os que o cantam como fadistas, sem apagar as naturais diferenças entre cada um. Por isso existem muitos e variados tipos de fado, tornando ilegítima a pretensão de qualificar quem o canta como fadista de raça ou arraçado: todos os fados estão certos, porque todos os caminhos se cruzam, com encontros e desencontros, partidas e regressos, tristezas e alegrias, tragédias e glórias.
No fado, tal como na vida, a pergunta mais frequente – ainda sem resposta cabal – é a que se prende com a trilogia: Donde vim? O que sou? Para onde vou? Costumo dizer, por mero instinto, que o fado é uma canção antiquíssima, muito rara, que remonta à era dos descobrimentos. Quando as naus partiram, os navegadores Portugueses procuraram os novos limites da matéria, para provarem à Terra que o Mar não era fronteira abismo ou cerco, mas sim, rua larga e estrada azul. E cantavam, como quem reza pela protecção divina do espírito.
Faz todo o sentido que tenha sido já o fado a música que então os acompanhou. E esta canção dorida, que força a intimidade com o destino, é uma canção temida, porque reconhece na adversidade o anúncio da grandeza.
Há quem lhe atribua contornos misteriosos, sem conseguir explicar porquê. Desafiando o destino, canta o êxtase e a mágoa dos momentos supremos da existência: a paixão e a morte. Por isso vai certeiro ao coração e à alma de tanta gente. Tem o mistério que o destino tem. E a saudade. A mesma que nos versos de Pessoa está na origem do sal do mar – aquele de que são feitas as lágrimas dos Portugueses.
O fado ao meu gosto não tem a ver com a tristeza – o seu território é o da emoção.
Quando canto os seus poemas, as suas músicas, sinto que estou a celebrar a própria vida, e não me anima aprofundar as suas origens, a sua evolução, a sua mestiçagem. Deixo-me levar pela indescritível sensação de arrepio quando o fado se instala entre o cantor, o guitarrista e o público – é tão bom vibrar com a resposta das guitarras à nossa própria voz. É nessas alturas que o fado fica mais português e, assim, cada vez mais universal.
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