Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
5

O MEU HOMEM DE BEM

“Tenho de fazer um esforço para não parar no meio da rua e distribuir a roupa suja pelos pedintes, as calças e as camisas e as cuecas sujas distribuídas por aqueles pedintes todos, uma peça para cada um, como quem espalha as cinzas de uma memória no ventre estéril de uma cidade”
18 de Outubro de 2002 às 17:11
Às vezes tenho vergonha da guarda dos dentes negros, daquela sombra magra que se posta atrás do meu ombro e me parece pedir brevidade, mas quando o Júlio baixa o rosto aos mosaicos da cela, quando ele segura as barras a ambas as mãos e sussurra: “Desculpa, meu amor”, há um momento em que quase voltamos a ser o Júlio e a Cândida – e nesse curto momento nem as grades nem a cela nem a guarda podem intrometer-se no olhar de uma mulher que olha o seu homem, no olhar de uma mulher que ama o seu homem e ao mesmo tempo o odeia, violada de surpresa na sua condição de esposa e mulher de um homem de bem.

Claro que, depois, volta tudo ao princípio – tudo volta num instante ao princípio: ponho-me a rever as angústias dos últimos meses, as muitas angústias e desgraças em que desaguou a minha vida desde que soube do vício de Júlio, e tudo volta num instante ao princípio. “Desculpa, meu amor”, convenhamos, não são palavras que cheguem – nem essas nem outras são palavras que cheguem –, e quando eu saio do edifício com o tupperware e o saco da roupa suja na mão é como se saísse de um cemitério com um cântaro de água vazio, como se tivesse ido ao cemitério ver o meu marido morto e houvesse regado as suas flores com zelo e houvesse chorado sobre a sua campa e, apesar de tudo, soubesse com certeza que já nada restava a fazer por nós senão conservar a memória do Júlio quando ele era apenas Júlio e eu a Cândida dele.

A sério: tenho de fazer um esforço para não parar no meio da rua e distribuir a roupa suja pelos pedintes, as calças e as camisas e as cuecas sujas distribuídas por aqueles pedintes todos da rua, uma peça para cada um, como quem espalha em definitivo as cinzas de uma memória no ventre estéril de uma cidade. “Desculpa, meu amor”, sei-o eu quando deixo o edifício e regresso para casa, não são palavras que cheguem.

De noite ligo a televisão, passo os canais com indiferença, o corpo esticado no sofá e o rosto disperso pela sala – e então à mente não me volta mais do que aquela guarda enorme e magra respirando sobre o meu ombro, aquela guarda que se põe comigo a olhar para o Júlio e a sentir pena do Júlio e a esquecer devagarinho o Júlio no meio do seu porte humilhado e das suas palavras vazias que pedem desculpa por não terem como pedir outra coisa. A guarda não viu o que eu vi, claro, é apenas uma mulher enorme e com rosto de alcoólica que aos domingos olha comigo para o Júlio – mas também ela sabe que aquelas palavras não chegam, também ela sabe que nenhumas palavras chegam quando um homem agarra no que há de mais precioso e desfaz tudo num gesto, quando um homem aperta um gatilho ou prime uma tecla de computador ou desaperta o botão das calças e destrói de um só gesto o que se levou anos a construir – nada mais do que um poema de amor ou toda uma vida em comum, uma longa epopeia em verso ou apenas o sorriso de uma criança.

Sim, se aquela mulher tem uma criança também ela sai do edifício com o saco da roupa suja na mão e é como se saísse de um cemitério com um cântaro de água vazio, como se tivesse ido ao cemitério ver o seu marido morto e houvesse regado as suas flores com zelo e houvesse chorado sobre a sua campa e, apesar de tudo, soubesse com certeza que já nada restava a fazer por eles senão conservar a memória do seu homem quando ele era apenas o seu homem e ela a guarda magra e alcoólica dele – e então também ela tem de fazer um esforço para não parar no meio da rua e distribuir a roupa suja pelos pedintes, as calças e as camisas e as cuecas sujas distribuídas por aqueles pedintes todos da rua, uma peça para cada um, como quem espalha em definitivo as cinzas de uma memória no ventre estéril de uma cidade. “Desculpa, meu amor”, sabe-o ela quando deixa o edifício e regressa a casa, não são palavras que cheguem – nem essas nem outras são palavras que cheguem.

À nossa criança e à nossa vida em comum desfê-las o próprio Júlio, na sua voragem de vício, naquela sede de doçura que não o largava e de que apenas suspeitei tarde de mais. Todas as manhãs ligo para a casa de saúde, ponho-me ao telefone com a minha criança, fico ali a ouvir os seus desvarios de menina louca e depois pergunto: “Sabes quem fala, Soninha?” – e quando o faço vem uma mulher ao telefone, uma mulher que imagino magra e com cara de alcoólica, e diz: “Pronto, já chega. Um passo de cada vez...” Às vezes insisto, quero voltar a falar com a Sónia, quero apanhar o comboio e ir lá arrancá-la às mãos daquele monstro que a prende e não a deixa falar com a mãe, mas então a mulher repete com mais força: “Um passo de cada vez, já sabe!” e desliga num ápice – e quando o faz é como se fosse eu própria a desligar, como se fosse eu própria a abrir a tampa à urna e a espalhar as cinzas da minha memória pelo ventre estéril da cidade.

Depois passa por cá o meu cunhado, pergunta se está tudo bem, se eu não preciso de nada, e quando à hora do almoço eu me ergo na cama e olho para o seu corpo nu deitado a meu lado não é o corpo nu do meu cunhado que vejo sobre a cama, é o corpo de Júlio repousando os vapores do seu pecado, é Júlio recuperando dos esforços no ventre da minha criança – e nesse instante quero telefonar outra vez, telefonar de novo e novamente, e do outro lado não quero escutar a voz de um polícia sem nome, quero ouvir apenas o respirar descompassado daquela guarda magra e de dentes negros que aos domingos se põe a olhar o Júlio comigo e a sentir pena do Júlio comigo e a esquecer devagarinho o Júlio comigo, mirando com pena e com ódio o seu porte humilhado e as suas palavras vazias que pedem desculpa por não terem como pedir outra coisa. Então ergo-me na cama e digo: “Ricardo, não devíamos fazer isto”, mas o meu cunhado olha para mim sem remorsos, limpa a garganta no seu pigarrear sujo e responde: “Somos ambos sozinhos, Cândida”, e a certa altura é como se Júlio não existisse, como se nem ele nem o irmão mais velho nem a minha criança existissem – é como se só eu e Ricardo existíssemos e mais nada fosse possível apenas porque ambos sabemos o que é o amor e o lastro de ódio que ele sempre deixa à sua passagem.

O Júlio, o meu homem de bem, está preso por causa do seu pecado e da sua sujidade. Revolveu as entranhas da minha criança, e se eu pudesse voltava a denunciá-lo, denunciava-o todos os dias, embora hoje não sinta nem culpa nem conforto por uma vez o ter feito, apenas o remorso de ter percebido tão tarde o seu vício. O Ricardo vem cá a casa todas as manhãs, e quando a Sónia regressar do hospital ele há-de continuar a voltar todos os dias, como se a casa fosse dele, como se eu não tivesse vontade minha e também à sua memória tivesse de guardar nesta maldita urna de recordações cujas cinzas não consigo espalhar pelo ventre estéril desta cidade. Aos domingos continuarei a ir à prisão escutar aquelas mesmas palavras vazias do Júlio: “Desculpa, meu amor”, e enquanto ele as disser eu e a guarda magra estaremos ambas a olhar para ele e a sentir pena dele e a esquecê-lo devagarinho, até que nada reste senão a memória de duas mulheres que regressam de um cemitério de cântaro vazio na mão. O resto, só o tempo o fará.
Ver comentários