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"O meu pai foi salvo por um africano"

Perigo. Vivi duas guerras: como sapador de Infantaria e depois, finda a minha comissão, durante os confrontos por altura da Independência.
10 de Maio de 2009 às 00:00
'O meu pai foi salvo por um africano'
'O meu pai foi salvo por um africano' FOTO: d.r.

Não posso dizer que fui mobilizado para Moçambique, pois já lá vivia desde os cinco anos, intercalando com seis anos de estudo na Metrópole, onde fui ‘às sortes’. Em Moçambique, passei pela Escola de Aplicação Militar, em Boane, onde frequentei o primeiro curso de Oficiais Milicianos que teve lugar naquela ‘Província’. Como aspirante, e depois como alferes miliciano, percorri quase todo o território.

A minha passagem obrigatória por aquela guerra absurda pautou-se por uma sorte incrível, apesar de ter tido a ‘simpática’ especialidade de Sapador de Infantaria. Tive a meu cuidado a recuperação e construção de pontes, edifícios e demais obras de interesse, grande parte danificadas pelo inimigo. Felizmente para mim, somente em Nancatar, perto de Mueda, senti a atmosfera pesada da guerra ao ser para ali destacado, para reparação de pontes danificadas por ataques semanas antes da minha chegada. Escutei ali os sons próximos da guerra em Mueda e os rebentamentos das minas colocadas em redor da povoação, accionadas pelos animais selvagens em noites de sobressalto.

Terminei a minha comissão em Março de 1970, depois de ter entrado na Escola de Aplicação Militar, em Boane, nos finais de Julho de 1966.

A partir dali, uma nova vida começou. Já casado e com uma filha, acabei o curso de Engenharia que fora obrigado a interromper, ao mesmo tempo que trabalhava.

Depois do 25 de Abril, aconteceu então o que considero a minha segunda guerra.

Pela História é sabido que, pouco antes da independência, a 7 de Setembro de 1974 e nos dias que se seguiram, Lourenço Marques (Maputo) ficou a ferro e fogo, com tentativas bélicas de tomada de poder. Num desses dias, sem saber como, encontrei-me no meio de um tiroteio cerrado entre soldados da FRELIMO e polícia, no recinto exterior duma empresa. Naquela altura as secretárias e caixotes de papéis serviram lindamente como trincheiras. Nenhum de nós se feriu mas, passada que foi a contenda, alguns corpos de civis eram vistos caídos nas ruas envolventes. Havia que regressar a casa quanto antes, mas em segurança. Eu vivia numa povoação – Machava, que ficava a 12 km da cidade – e tinha melhor acesso através de uma estrada que apelidávamos de via rápida. Como referência, à saída ficava o aquartelamento que pertencera à nossa Polícia Montada e era ladeada por residências modestas de africanos e algumas empresas e lojas (cantinas). Após a calmaria que se seguiu ao tiroteio, e como a situação tendesse a piorar, tentei contactar o meu pai, pedreiro de profissão, no seu local de trabalho, mas não consegui, por mais voltas que desse a seguir. Regressei a casa, sem problemas, embora já se sentisse no ar que algo grave iria acontecer nesse percurso.

Ódio, pavor, morte, irracionalidade, foi o que ali se passou. A descrição foi feita pelo meu pai, que lá passou meia hora mais tarde. De referir que naquelas instalações da polícia estavam soldados portugueses com a missão de vigilância e segurança. A vista para a via rápida era total e o meu pai quando chegou, vendo ao longe multidões ameaçadoras de africanos, dirigiu-se aos soldados que lhe disseram que podia passar, pois nada lhe aconteceria. Bem… para o meu pai começou ali o inferno de onde o próprio diabo teria fugido. Foram dezenas de paragens forçadas pelo gentio bramindo catanas, ferros, machados, desferindo golpes aqui e ali, massacrando, esquartejando e queimando vivos dezenas de brancos dentro das viaturas. Tal como ele, todos tinham acreditado na palavra dos nossos militares. O meu pai teve a vida por um fio, mas foi salvo por um africano que o protegeu, na altura em que uma catana caía sobre ele. Ao chegar, quase em estado de choque, vimos que a chave de ignição do carro estava a quebrar, de tanto ser usada.

Presto a minha homenagem de gratidão aos Fuzileiros Navais portugueses que, na madrugada seguinte, nos foram resgatar na nossa casa onde, entre adultos e crianças, estavam 32 almas e nos levaram para a sua base, onde ficamos três dias. Quis fazer daquela terra a minha terra e não me deixaram. Houve um trabalho mal feito na 'descolonização exemplar', pois deixou que o caos prevalecesse. Recordo muitas vezes o antigo soldado africano do meu pelotão de Nancatar que, já no aeroporto, fardado de polícia, me abraçou a chorar, pedindo para não deixar Moçambique.

ENSINA EM COLÉGIO DE LEIRIA

José Fernando Rodrigues Vieira reside no Vidigal, concelho de Leiria, e é professor de Educação Tecnológica no Colégio Conciliar Maria Imaculada. Tem 65 anos, é casado e tem dois filhos, de 36 e 38 anos, e um neto de quatro anos que dentro de dias vai ter uma irmã. Viveu em Moçambique, na cidade de Machava, entre 1949 e 1976. Licenciado em Engenharia, manteve-se em Moçambique após a guerra, só regressando a Portugal por naquele país não existirem condições médicas e assistenciais para cuidar de uma filha que sofria de uma doença crónica. n

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