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Correio da Manhã

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O misterioso mascarilha alentejano

Em Sines, um desconhecido mascara o rosto e anda pela rua à noite a apalpar senhoras. O Carnaval é só em Fevereiro, mas chegou mais cedo para o ‘Mascarilha’ que ora assusta ora faz rir os populares há mais de dois meses .
21 de Janeiro de 2007 às 00:00
São 50 anos de folia. Em Sines, o prenúncio do Entrudo – um dos bilhetes postais da terra de Vasco da Gama – lê-se nos cartazes que já galgaram terreno nos postes à beira da estrada. Diz quem não perde o corso que a disputada Floribella é presença certa num dos dias de folia de Fevereiro e com sorte a verão desfilar o ‘nada e o quase tudo que tem’ de braço dado com o rebento prodígio de Carreira, o jovem Mickael. “Este ano não sei o que vai ser, mas aqui sai sempre um carnavalinho jeitoso!”, confia Maria Silvéria Vilhena.
Da cinquentenária conterrânea ficou o bom humor, quase dois meses depois de ter sido alvo das investidas fora de época do misterioso ‘Mascarilha’, um indivíduo de rosto camuflado que se faz às ruas da cidade quando o sol se deita e apalpa senhoras em plena via pública.
Ficou a prudência reforçada de Silvéria, um alvo entre outros, em número total desconhecido, que tão cedo não esquece o artifício de bruxa envergado pelo anónimo, o nariz proeminente do disfarce, e a agilidade de gazela na hora da fuga que deixaram em alerta os bairros 1.º de Maio e Soeiro Pereira Gomes quando a brincadeira de mau gosto se pôs em bicos de pés.
“Já foi há mais de um mês. Ia daqui do Espaço Sénior para a minha casa no Pereira Gomes e vejo um indivíduo mascarado, mas ainda não tinha ouvido falar dele. Como era época de Natal, achei que fosse uma brincadeira. Ele dirigiu-se a mim e fiquei abismada, apalpou-me os seios e tentou meter-me as mãos debaixo da saia. Gritei pelo meu marido e ele ao correr a fugir, fez--me cair. Nesse dia telefonei à GNR e no dia seguinte fiz queixa.”
É a única participação formalizada de que há registo, mas os casos repetem--se desde que a mal parecida caraça saiu da gaveta em Novembro, resvés – nem de propósito – com o Dia das Bruxas. Continua a fazer das suas na cidade alentejana e abriu um duelo de titãs entre o medo de sair à rua fora de horas e a galhofa de quem dava tudo para conhecer a identidade do insólito disfarçado e até quem arremessa, com despudorado mau gosto, que há quem goste e não é pouco.
“Quando ia a correr tirou a máscara, uma máscara de bruxa, toda enfiada na cabeça. Tinha calças escuras, ténis e um casaco canelado com listas. É uma pessoa de cor escura, pelas mãos, e penso que é novo, porque corre como uma gazela. Ele disse umas palavras para o lado perverso, mas nem liguei e não me lembro do quê”, conta Silvéria, que não tivesse sido de modas e boa fé em demasia, de bom grado teria feito cara ainda mais feia ao agressor.
“É magrinho e se calhar até o tinha derrubado, mas como eu não tinha maldade e nem sabia do caso... Há várias pessoas que foram atacadas, mas não sei quem. Não tenho um medo apavorado, mas agora venho à rua acompanhada. Isto desequilibrou a vida das pessoas”, desabafa, fazendo votos que a poeira baixe de vez e que os demais casos sejam reportados a quem de direito. Para que a culpa não feneça tão solteira.
FEZ NOTÍCIA E A TERRA ENTROU NO MAPA
Por enquanto não se avistam pesos para repor a ordem na balança do dia--a-dia. O jornal ainda nem aquecera as bancas e a tinta já escaldava nas mãos dos populares quando o ‘Mascarilha’ fez notícia e a terra entrou no mapa do falatório pelos piores motivos. O perfil indefinido e a identidade anónima enfeitiçaram tudo e todos e inflacionaram o burburinho que continua quente por estas bandas.
Não se sabe ao certo quantas senhoras o ‘Mascarilha’ importunou. ‘Várias’, ‘bastantes’, rezam as línguas, expeditas a alimentar a conversa. Tão-pouco se sabe porque o faz. Sabe-se apenas que o enigma não dá de si enquanto não lhe cair a máscara em flagrante delito. De resto, a especulação encarrega-se de lubrificar as gargantas, que aqui e ali arriscam colorido novo para juntar ao retrato do homem mistério que despreza padrões.
É certo que actua sozinho em locais pouco iluminados. Sempre entre as sete e as oito da noite. Resguarda o rosto com uma máscara de borracha com cabelos compridos. Tem preferido vítimas na casa dos 50 anos – para gáudio da miudagem afoita que faz pouco do caso quando o assunto é ‘Mascarilha’. Surpreende-as sem recurso a armas e a sua intenção – até ver – é ‘apenas’ apalpar as mulheres.
Magro, com cerca de um 1,70 m, e mestiço, segundo denunciam as mãos a descoberto. Corrida veloz, quando deita os pés à retirada. “Deve ser jovem”, afiançam, tal a genica imprimida. E com residência provável na cidade, mas morada relativamente arredada dos bairros até à data eleitos para assustar. De resto, e até prova em contrário, não faltariam candidatos a tão espaçoso perfil.
“O único perfil concreto que temos é a hora em que actua, entre as sete e as oito da noite. Não é violento, dizem que é moreno, o que é relativo, e que é ligeiro. Isto é um meio pequeno e, mais dia menos dia, pode ser que se distraia. Há algumas pessoas da terra que se enquadram. Acreditamos que pode ter alguma perturbação”, esclarece o sargento-comandante António Mendes, do posto da GNR de Sines, ciente do alarido que o ‘Mascarilha’ tem despoletado. “Tenho conhecimento de três situações.
Há uma queixa do dia 7 de Dezembro, mais o caso de uma senhora que não chegou a ser apalpada, e de uma ucraniana que esteve cá mas não apresentou queixa. Tivemos que fazer um esforço para enquadrar a queixa formal na coação, porque nem sequer é coação. Foi remetida para a Judiciária, que ou fará algo ou reenviará o inquérito de novo para nós”, adianta o responsável, posicionando-se face à safra de ataques. “Não há um padrão, nem um ponto de violência que justifique mais do que o patrulhamento”.
Com distúrbio ou não, ‘Mascarilha’ mascarou as rotinas de sempre e trocou as voltas a muito boa gente. Por enquanto, distracções e passos em falso não são com ele. Há quem o veja em casa, desfolhando as parangonas e os telejornais com olhos de quem ri a bom rir de quem dele tanto fala.
O pacato 1.º de Maio está reduzido às obrigações laborais que mantêm as portas dos estabelecimentos abertas de par em par quando há luz natural. De dia, tranquilo, aparelhado pela vida corrente da peixaria, do café, da padaria ou do espaço de lazer onde a terceira idade embala as tardes ao som das revistas ou do dominó.
À noite, casas fechadas, trancas na porta e ruas quase desertas. O marasmo demora-se e o silêncio varre o labiríntico bairro, com os seus túneis superiores sedentos de iluminação artificial. Predilecção para miúdos, oásis feito de encomenda para quem espreita fintas à lei.
“Espere mais um bocado para ver o maralhal que se junta. Não é só o mascarado... Isto era um bairro movimentado e agora não se vê aí ninguém. O único carro que se vê na rua depois das 22 horas é o meu, quando saio daqui”, lamenta Maria Luísa Silva, do Snack Bar Petisco, íman de escassa meia dúzia de clientes em pleno horário de jantar.
“Não tenho medo, porque nunca fui atacada”, diz dona Luísa, mais temerosa pelo negócio e pela costumeira má vizinhança nocturna que da nova ave rara que ao que tudo indica não deu sinal de vida nos últimos dias. “Se calhar até já cá esteve, não sei...” Quem sabe se já lhe terão servido café? Ou se é fiel à padaria do bairro, como bom alentejano que não dispensa o tradicional sustento do buxo à mesa?
SOL RAIADO, MEDO AFUGENTADO
Sol raiado, medo afugentado. No depósito do pão, como nos outros lugares, o tema ‘Mascarilha’ sai como as carcaças quentes e atrapalha a diligência do serviço, não tivesse corrido o rumor de que o célebre mascarado se enfiara lá um dia pela fresca com outra vítima fisgada.
O tiro de nova peripécia para contar saiu pela culatra. “Este caso da padaria não teve nada a ver. Já foi um moço identificado”, desmistifica a empregada Rosa, fazendo figas para não dar de caras com o dito cujo. “Eu não o vi e espero não ver! Às seis da tarde já é noite e ele anda por aí, espalhado pela zona. Há quem diga que é brasileiro porque acho que perguntou a uma senhora se ela queria ‘transar’ com ele”, acrescenta à grande bola de neve de informações.
Por mais que sejam cruzadas, o mistério adensa-se. Uns dizem que assedia verbalmente, outros que não chega a isso. Resta seguir o exemplo de quem com ele já se cruzou e até tenha corrido no encalço para tentar tirar a história a limpo.
NÃO FOI A PRIMEIRA, MAS ANDOU LÁ PERTO
Francisca Nunes, 45 anos, não foi a primeira vítima do ‘Mascarilha’, mas anda lá perto. Mais longe ficou o indivíduo quando deu corda às solas depois de a tentar assustar no final de mais um dia de trabalho. “Aconteceu em Novembro, perto de minha casa, no bairro 1.º de Maio, num pinhal pouco iluminado com uma correnteza de casas. Eram quase oito da noite. Quando ele me abordou por trás pensei que me fosse assaltar.
Ia a virar para minha casa quando apareceu uma senhora com um cão, e foi isso que o assustou. Não me chegou a fazer nada. Eu corri atrás dele para ver quem era, porque vi que tinha uma máscara, mas ele desapareceu. Quando cheguei ao supermercado disseram-me que era um homem que andava por aí a apalpar as mulheres”.
Quem a vê, sem pinga de medo, mesmo depois do sobressalto num caminho ermo, percebe que acaso o tornasse a ver não deixaria os créditos por mãos alheias. E o agressor que se preparasse para ficar com a cara a nu! A não ser que a malha da autoridade lhe aperte o cerco antes, coisa em que ninguém faz grande fé, não fosse o sujeito esquivo que nem raios. O pior, já se faz ouvir, é se a moda pega de estaca e a corrida às mascarilhas ganha fôlego ainda em Janeiro.
“Há poucos agentes por aqui. Agora pode ser qualquer pessoa, sabe-se lá. Quando chegar o Carnaval disfarçam-se todos! O caso não é para brincadeiras, mas já se brinca que vem aí uma excursão de mulheres do Norte para serem apalpadas!”, graceja Francisca, sem dar grande crédito ao diz que disse. “Isto já se ouviu tanta coisa... que uma rapariga tinha sido violada, que um dos maridos tinha dado umas porradas ao mascarado, que tem várias máscaras... eu só vi um grande nariz, não vi mais nada.” E que o nariz se meteu sem ser chamado na tranquilidade da terra, ninguém desmente.
Terra de praia, de mar, de portugueses maiores, de tesouros mil, e de outras personagens e pérolas. Como qualquer outra. “Dizem que é alto, magrinho e misto. Vi um moço com uma perturbação qualquer, de cara descoberta, na Igreja de Nossa Senhora das Salas, e pela descrição acho que é ele.
Tem para aí uns vinte anos. A polícia disse-me que não é dos piores”, afirma Benvinda Cardoso, zeladora do tesouro da histórica capela. “Achei estranha a atitude dele de se esconder lá dentro e não querer sair. Fez isso três vezes, na semana do Natal. Pela descrição das pessoas atacadas podia ser ele. E agora que vai chegar o Carnaval, cada vez vai haver para aí mais mascarados. Só estou para ver se se metem em coisas piores, como ajustes de contas!”
Benvinda reconhece a dificuldade em jogar-lhe a unha. Do mesmo modo que as rotinas saíram dos eixos, um ou outro reajuste ajudam a repor a ordem e a reciclar a segurança nocturna. “É difícil apanhar uma pessoa se não for mesmo em flagrante. Aqui no bairro já foram umas três ou quatro pessoas atacadas. Sou sincera, nunca mais fui despejar o lixo à noite”, confessa Benvinda metendo-se com a vizinha Dulce que arrisca arredar pé do alpendre de casa para uma passeata fora de horas. “Vejam lá se ele está ali na esquina! Amanhã se quiseres empresto-te o cão!”, lança a amiga, levando para a brincadeira.
Quando e onde o ‘Mascarilha’ volta a atacar – se voltar – só ele sabe. Por enquanto, a sua agenda é ficheiro secreto com direito a folhetim. Resta esperar pelo Carnaval, quando (quase) nada se leva a mal.
CONTACTO FÍSICO PODE NÃO IMPLICAR OFENSA CORPORAL. DEPENDE DA INTENSIDADE, DIZ O CÓDIGO PENAL PORTUGUÊS
CRIME DE INJÚRIA ATÉ TRÊS MESES DE CADEIA, SUBSTITUÍDO POR MULTA
O homem que nos últimos tempos se dedica a semear impunemente o medo pelas ruas de Sines, ao atacar mulheres sozinhas e desprevenidas, não incorre, afinal, em mais do que um ‘simples’ crime de injúria – punível pelo Código Penal português com pena de prisão até três meses, mas que invariavelmente “é substituído por multa até 120 dias”, esclarece à Domingo o advogado António Marinho.
E tudo porque o crime de assédio, de moldura penal mais alargada, “destina-se a casos em que é exercida autoridade sobre a vítima, de forma verbal, com solicitações” – frequente em “situações de trabalho”, na relação entre patrões e empregados. No caso em concreto, o crime de injúria “pode ser praticado por escrito, de forma verbal, através de gestos, imagens ou por outro meio de expressão”.
E o contacto físico, neste caso, pode representar falta de respeito, “sem que isso implique ofensa corporal – depende sempre da intensidade” com que é praticado. “Uma bofetada que não cause dor, por exemplo, é uma ofensa à honra da pessoa, mas não uma agressão”. O facto de não ser um, mas sucessivos casos nos últimos tempos, “pode ser sempre uma agravante”, mas, para tal, é necessário que Silvéria Vilhena não seja a única vítima a formalizar queixa (ver foto ao lado) na GNR de Sines.
NUNO NODIN, PSICÓLOGO
"UMA INVASÃO DA PRIVACIDADE COM EFEITO PERTURBADOR"
À luz da conduta do agressor, o psicólogo Nuno Nodin considera “difícil interpretar a situação como brincadeira”, tratando-se de uma “situação de abuso, de assédio sexual, que vai para além do piropo e sugestão e há contacto físico”. Sobre o atacante, o desconhecimento da sua identidade dificulta a análise. “É impossível caracterizar a pessoa em si, mas é alguém que tem dificuldade em perceber o que é adequado e desadequado.
Não tem em conta o bem-estar do outro, a sua dignidade”. E o facto de não chegar a ‘vias de facto’ não constitui atenuante. “Não há uma violação, com todas as consequências que isso implica, mas há invasão de privacidade, transgressão da distância face a terceiros que julgamos adequada”. Quanto à reacção das vítimas “depende da pessoa, para alguns pode ser francamente perturbador, levando-a até a pensar no que terá feito para motivar isto.”
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