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Correio da Manhã

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O miúdo

Ele, cabelos brancos, está sentado ao piano e toca uma canção triste, lenta, nostálgica. A poucos metros, atrás de si, sentada numa cadeira de baloiço, imponente, está a sua mulher. Têm cinquenta anos ou mais.
5 de Outubro de 2008 às 00:00
O miúdo
O miúdo

No canto da sala uma criança, talvez o neto, faz tentativas para cortar dois pares de chinelos com uma tesoura. O casal não lhe presta o mínimo de atenção. Os dois estão em pensamentos que os afastam dali.

Ele gosta de tocar horas seguidas aquelas melodias tristes. Ela gosta de ouvir (ou talvez não ouça), mas pelo menos fica ali, ao seu lado, a balançar a cadeira para a frente e para trás, em silêncio.

Subitamente entra na sala um homem. Encontra-se nu e os olhos assustam: são obsessivos, simultaneamente muito fixos e muito inconstantes. O casal quase não se mexe. O som do piano prossegue sem alteração e só na esposa é visível um aumento de tensão. A criança que procurava rasgar os chinelos com a tesoura levanta os olhos do seu canto e sorri, mas de modo triste, com aquela tristeza de desamparo das crianças, como se caísse e não houvesse chão por baixo.

Entretanto, o homem olha de um modo desconcertante (impossível definir) para toda a sala, e diz:

– Enlouqueci, mãe, sabias?

A mãe olha fixamente para ele. Por instantes os olhos dela percorrem, a medo, aquele corpo. Porém, ela permanece calada. Silêncio absoluto. Ela parece fazer esforço para nem sequer respirar. É medo e ansiedade: o seu filho está louco.

O homem aproxima-se da criança e faz-lhe uma pequena festa na cabeça. É o filho dele. Naquela sala estão três gerações.

A criança está tensa. Já largou a tesoura e os chinelos e o seu corpo como que entrou na posição de se preparar para agir. O corpo da criança é agora um corpo suspenso. Observa atentamente cada gesto do pai, mas não reage. Não há a mínima resposta de agrado às festas que o pai lhe faz na cabeça.

Por fim, o homem atravessa de novo a sala, caminhando de um modo estranho; (ou então é apenas a nudez do corpo no meio das mobílias clássicas e nobres que dá a estranheza à situação). Passa pela mãe e olha. É um olhar que parece não ter visto nada. Só se pode chamar olhar porque os olhos não estavam fechados.

Ele saiu já da sala e trancou-se de novo no quarto. O seu pai, de cabelos brancos, o ar cansado, parou de tocar. Virou-se depois para a mulher e para o centro da sala.

– Porque paraste de tocar? – pergunta ela, sem revelar qualquer exaltação; a balançar ainda lentamente a cadeira, neutra, amorfa.

– O miúdo é capaz de se magoar – disse ele. – Está a brincar com uma tesoura.

– Sim – respondeu ela –, o miúdo é capaz de se magoar.

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