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Ó mulher, eles é que insistiram

“É perfeitamente legítimo andar de cócoras a fazer corridas de carros desde que se saiba colocar o ar de “hei, eu cá até preferia estar a lavar a loiça (...)””
28 de Novembro de 2010 às 00:00
Ó mulher, eles é que insistiram
Ó mulher, eles é que insistiram FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Uma das grandes vantagens de ter filhos pequenos é fazermos coisas para o nosso próprio divertimento e podermos fingir que só as estamos a fazer para divertimento deles. É perfeitamente legítimo andar de cócoras a fazer corridas de carros desde que se saiba colocar o ar de "hei, eu cá até preferia estar a lavar a loiça, mas o miúdo pediu-me tanto…" quando a mulher aparece a espreitar da cozinha com o avental posto.

Tendo aperfeiçoado ao longo dos anos a técnica do prazer contrariado, eu consigo hoje em dia passar tardes a jogar computador porque a Carolina se fartou de insistir comigo; ir para a rua jogar à bola porque o Tomás não se calava; andar aos pulos em cima do sofá porque o Gui teimou que simulássemos a emboscada do Touro Sentado ao General Custer; e mais uma série de actividades que eu desempenho de forma supercontrariada em frente da minha mulher e de modo superentusiasmado à frente dos meus filhos.

O segredo está em saber disfarçar bem. Se a nossa mulher descobre que nos estamos a divertir demasiado, o mais certo é acabarmos a tarde de domingo com o aspirador nas mãos. Mas se, por outro lado, a conseguirmos convencer de que só estamos a desempenhar, com grande sacrifício pessoal e abdicando dos nossos mais profundos desejos, a nossa função de pai companheiro dos seus filhos, aí estamos safos. Não só nos podemos divertir à brava como ainda ficamos impecavelmente na fotografia.

Metade do meu património genético nunca chegou a entrar na idade adulta, e portanto sempre tive tendência para fazer coisas um bocado parvas para o meu tamanho. Mas basta colocar uma criancinha no campo de visão dos outros para o milagre subitamente acontecer: se aos 37 anos me puser a descer num escorrega as pessoas acham que eu sou atrasado mental; se me puser a descer num escorrega com 37 anos e um filho as pessoas acham que eu sou um pai bestial.

E é assim que me tenho safado ao longo dos últimos seis anos. Mesmo a infindável lista de defeitos que a minha mulher me aponta fica aligeirada por ela estar convencida de que eu tenho um certo jeito para brincar com os miúdos. Mas na verdade não é jeito: eu é que gosto tanto de brincadeiras como eles. A Carolina, o Tomás e o Gui são três óptimas desculpas para poder voltar a ter dez anos de idade – e ainda ser elogiado por causa disso.

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