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O nascimento da Rita

Rita nasceu na madrugada de 30 de Agosto, numa noite de transição de luas que encheu a maternidade do Hospital de Santa Maria de grávidas e recém-nascidos. No meio deste mini-baby boom que deixou médicos e enfermeiros de cabeça em água, lá estava a minha espectacular filha Rita, dois quilos e novecentos de chicha, osso tenro e uma quantidade apreciável de cabelo.

9 de Setembro de 2012 às 15:00

Ao fim de quatro filhos uma pessoa já está batida nisto, não é? Por acaso, não, não é. Eu próprio pensava que por esta altura do campeonato tinha para exibir uma licenciatura em obstetrícia, seguida de uma pós-graduação em neonatologia e um mestrado em pediatria, mas passados quatro anos e meio desde o nascimento do Gui descobri com surpresa que já estava altamente esquecido do que era ter nas mãos uma pessoa que pesa menos do que duas garrafas de litro e meio de água do Luso.

Como é que se pega naquilo? E porque é que a cabeça tem tantos problemas de relacionamento com a lei da gravidade? É suposto o cocó de uma bebé de dois dias ser igualzinho ao chocolate derretido que acompanha o quente e frio? E porque é que a Rita decidiu fazer uma plantação de borbulhinhas brancas na ponta do nariz? Alguém se lembra como é que o cinto do carro passa por baixo do ovinho para em caso de travagem ela não ir visitar o cockpit do automóvel da frente? Tudo isto eu já soube. Tudo isto eu já não sei.

Por alguma razão, o arquivo "recém-nascidos" desapareceu da minha memória da mesma forma que os documentos sobre os submarinos desapareceram do Ministério da Defesa - há por ali informação sensível, que é melhor permanecer na sombra. Por isso se diz que o esquecimento é uma bênção: o ctrl+alt+del que foi feito no meu disco rígido permite--me esquecer os momentos tétricos que vivi nos primeiros meses de vida dos meus filhos, dos quais apenas hoje guardo uma vaga nebulosa de sofrimento parental.

Francamente, começar tudo de novo com a Rita parecendo que é a primeira vez dá-me imenso jeito. O meu papel de pai antes do primeiro ano de cada um dos meus filhos foi absolutamente lastimável (se bem me lembro), e gostava muito de fazer melhor. Para já, a velinha que todas as noites acendo a todos os heterónimos de Nossa Senhora que visitaram o planeta Terra está a resultar: a Rita tem-nos dado umas noites santas. Com sorte, talvez isto seja o princípio de uma bela amizade.

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