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O nascimento de um mito

Há 50 anos, António de Spínola partiu para Angola. Provou coragem e bravura debaixo de fogo num dos mais difíceis palcos da guerra
20 de Novembro de 2011 às 00:00
Para espanto dos seus homens, Spínola participava nas operações
Para espanto dos seus homens, Spínola participava nas operações FOTO: Direitos reservados

Na tarde de 21 de Agosto de 1961, o furriel miliciano Luiz Mello Corrêa entregou uma mensagem ao comandante do Regimento de Cavalaria 3, em Estremoz. O tenente-coronel Valadas estava montado no cavalo. Abriu a mensagem sem desmontar. "Virou-se para mim e disse, com um sorriso sarcástico: ‘Estão fod***! Vejam lá quem é que vai comandar o batalhão’". Mello Corrêa ficou perturbado quando ouviu o nome do homem que o ia levar para a guerra. O tenente-coronel António Sebastião Ribeiro de Spínola tinha sido nomeado comandante do Grupo de Cavalaria 345.

O oficial, que se distinguia por usar sempre o monóculo no olho direito, luvas de pelica e um pingalim, tinha fama de duro e duro foi o treino. Seguiram-se semanas de exercícios extenuantes. "Spínola sabia que a guerra em Angola ia ser dura e puxou por nós. Lembro-me de uma frase que ele nos dirigiu nos primeiros tempos: ‘Vocês vão ter armas e vão combater, não vão atirar pedras ao inimigo’", conta Mello Corrêa.

Em Estremoz, terra natal de Spínola, oficiais e milicianos preparavam-se para o combate. A guerra rebentara em Angola, no mês de Março, com os massacres de colonos brancos e centenas de negros que trabalhavam para eles no norte da colónia. Os guerrilheiros espalhavam o terror e o regime de Salazar queria, a todo o custo, travar as aspirações independentistas. A guerra de guerrilha e subversiva era um conceito novo para soldados até então treinados para a guerra convencional, em campo aberto.

MILITAR E ADMINISTRADOR

O início da Guerra Colonial em Angola apanhou António de Spínola a meio caminho entre a vida militar e uma carreira como gestor. Desde 1955 que era director de pessoal da Siderurgia Nacional, onde mantinha uma relação de desconfiança mútua com o magnata da indústria António Champalimaud. Spínola movera influências – o pai fora chefe de gabinete de Salazar no Ministério das Finanças – para ser nomeado para a Siderurgia em representação do Instituto das Conservas de Peixe, accionista da empresa. Champalimaud via com maus olhos aquele ‘intruso’ de feitio obstinado. O emprego dava a Spínola um ordenado bem mais apetecível do que o soldo militar.

Em 1961, o tenente-coronel Spínola tinha 51 anos. O posto e a idade punham-no a salvo da mobilização para África. Mas o homem que apoiara, como voluntário, as tropas de Franco na Guerra Civil de Espanha e que visitara a Escola de Carros de Combate de Berlim e as divisões Panzer de Hitler em manobras na Rússia sentiu que tinha chegado a sua hora. Ofereceu-se para combater em África, à frente de uma unidade da sua arma – Cavalaria. Não tinha dúvidas, Angola era a continuação da pátria e subscrevia sem reservas o mote de Salazar: "Para Angola e em força".

A atitude valeu-lhe o reconhecimento público. A 16 de Novembro, um jantar de homenagem no Castelo de São Jorge, em Lisboa, reuniu as mais gratas figuras do regime e da hierarquia militar, que lhe aplaudiram a coragem.

INFERNO NO NORTE

Os 639 homens do Batalhão de Cavalaria 345 (Spínola preferia chamar-lhe Grupo, conforme o costume da Cavalaria) partiram de Lisboa para Luanda no navio ‘Angola’ a 24 de Novembro de 1951. Os militares estavam divididos em quatro companhias - Comando e Serviço, Cavalaria 253, Cavalaria 295 e Cavalaria 296. África era um mundo desconhecido para quase todos os militares, incluindo o comandante.

A chegada a Luanda, a 4 de Dezembro, foi saudada efusivamente pela população local. A vinda de uma força numerosa, acompanhada de dezenas de viaturas blindadas (reforçadas a pedido de Spínola com chapas de aço fabricadas na Siderurgia Nacional), dava a esperança da vitória sobre os ‘terroristas’ que tinham deixado a colónia a ferro e fogo desde Março.

O comandante militar de Angola sugeriu a Spínola que o batalhão assumisse funções de policiamento na zona de Luanda. Mas o tenente-coronel recusou de imediato. Estava em Angola para combater, não para ficar fechado num quartel da capital da província. Depois de algumas semanas no campo militar do Grafanil, onde os militares completaram a formação, ficou decidido o destino – a região de Bessa Monteiro, no norte de Angola, uma das zonas onde os guerrilheiros da UPA (União dos Povos de Angola, força independentista comandada por Holden Roberto) espalhavam o terror entre a população branca e os nativos que a serviam. Os massacres ocorridos na área deixaram as povoações e fazendas desertas de gente. Brancos e negros tinham fugido para Ambrizete, junto à costa, aterrorizados com a violência dos guerrilheiros.

O general na reforma Rui Monteiro Pereira era então comandante da Companhia de Cavalaria 295. Tinha 28 anos e era capitão. Lembra a tensão que se viveu na viagem de Luanda para o Norte, em Janeiro de 1962. "Estávamos muito bem treinados, mas nenhum de nós tinha experiência de combate. A caminho de Bessa Monteiro a coluna sofreu uma emboscada na estrada. Reagimos com nervosismo – os soldados dispararam contra tudo o que mexia. O incidente não teve consequências, mas acabou por funcionar como uma descarga de adrenalina. Era a primeira vez que disparávamos em cenário de guerra".

COMANDANTE EXIGENTE

Em Bessa Monteiro, a missão revelava-se espinhosa. Praticamente toda a população tinha fugido. A companhia que o Batalhão vinha render limitava-se a acções de defesa e patrulhamento próximo, numa área em que os guerrilheiros faziam acampamentos, abrigados na mata e no capim.

Com Spínola, a táctica mudou. As suas tropas saíram para o terreno, em sucessivas operações que levaram o inimigo a recuar. Em Março, os habitantes de Bessa Monteiro começaram a regressar a casa. O comandante sobrevoava regularmente a região de avião. Procurava localizar os acampamentos do inimigo, que eram bombardeados. Mas a acção só ficaria completa com a intervenção de tropas no terreno, o que nem sempre era viável. Exigente com os soldados e, sobretudo, com os oficiais, Spínola impacientava-se quando as operações não atingiam os resultados que pretendia.

"Havia uma certa fricção, porque, no início, tínhamos muita dificuldade em progredir no terreno, permitindo que o inimigo escapasse", lembra Monteiro Pereira. O comandante do Batalhão queria que os seus planos fossem cumpridos à risca, mas nem sempre isso era possível. O capitão Clara Pinto, comandante da Companhia 253, foi a primeira vítima da intransigência de Spínola, que lhe retirou o comando. "Houve muita injustiça nessa decisão. Clara Pinto respondia à letra às críticas de Spínola e foi punido. Chegou a estar detido por 10 dias", lembra o furriel miliciano Mello Corrêa.

António de Spínola escolheu o capitão Xavier de Brito, como ele antigo aluno da Academia Militar e formado em cavalaria, para substituir Clara Pinto no comando da Companhia 253. Uma decisão que haveria de se revelar trágica.

MASSACRE EM QUIDILO

O dia 25 de Abril de 1962 ficou marcado a sangue na história do Batalhão. Durante a travessia de um rio na zona de Quidilo, um pelotão operacional da 253 é atacado por dezenas de guerrilheiros fortemente armados. O ataque resulta na morte de nove militares e 21 feridos, o maior desaire que o Batalhão conhecera até ao momento. Xavier de Brito fica gravemente ferido e é evacuado para Luanda.

Spínola ficou sentido com o ataque, mas reage com toda a energia. No dia seguinte, vai com as tropas ao local do combate, ver com os seus próprios olhos o que tinha acontecido. Decide que, daí para a frente, estará ao lado dos seus homens quando estes saírem para o combate. Mas nem em combate dispensava o monóculo ou o pingalim que o distinguiam.

No início do Verão, o Batalhão muda-se para São Salvador do Congo, junto à fronteira com o Congo. Os guerrilheiros usavam a zona como corredor de abastecimento, trazendo armas e mantimentos das suas bases na antiga colónia belga. Rui Machado da Cruz, então alferes miliciano da companhia 295, lembra que foi aí que Spínola começou a sair com as tropas em missões operacionais: "Passou a acompanhar as missões dos grupos de combate. Estava connosco no mato, comia as mesmas rações de combate, dormia connosco onde calhava. Essa atitude reforçou a admiração e respeito que todos tínhamos por ele".

BALA RASPA NO CAPACETE

O soldado António Cáceres Veiga foi uma das ‘vítimas’ do comportamento destemido do tenente-coronel. Motorista do comandante (função em que se revezava com o camarada de armas ‘Alenquer’), acompanhava-o para todo o lado.

"Fizemos uma missão junto à fronteira com o Congo em 1962. A dada altura, após várias horas de marcha, encontrámos uma bifurcação e escolhemos um dos caminhos. Com o cair da noite, dispusemo-nos em círculo para dormirmos. Nessa altura fomos atacados. Choviam morteiros à nossa volta. Estava deitado no chão e vi que Spínola não tinha o capacete. Consegui recuperá-lo e enfiá-lo na cabeça do comandante. Minutos depois ele foi atingido por uma bala que raspou no capacete e se desviou". António de Spínola não esqueceu o gesto do soldado que lhe salvou a vida. Quando o Batalhão 345 regressou a casa, ofereceu-lhe emprego em Lisboa e viria a ser padrinho de casamento de António Veiga.

O soldado recorda a tenacidade com que o tenente-coronel se entregava ao combate. "Passava dias seguidos na mata. Chegou a a haver vezes em que eu era rendido e ele ficava no terreno. Quando eu regressava para cumprir o segundo turno ele ainda lá estava", lembra Veiga. Spínola exigia melhores condições para os seus homens. "Reclamava se só havia arroz para comer durante três dias. Passámos a ser reabastecidos por via aérea. Ele escolhia sempre as rações de combate feitas com frango".

AO LADO DAS POPULAÇÕES

Além do efeito moral que a presença do comandante no terreno tinha nas tropas, o facto de Spínola viver na pele as dificuldades dos combatentes fê-lo perceber melhor os limites das operações no terreno. "A partir do momento em que Spínola começou a sair para o terreno, passámos todos a falar a mesma linguagem. Deixou de haver atritos em relação aos resultados que ele esperava dos comandantes das companhias operacionais. Continuou a ser um comandante duro e exigente, mas percebeu o que é que poderia esperar das nossas operações", lembra Monteiro Pereira, comandante da 295.

A par da acção militar, Spínola rapidamente percebeu que a guerra só podia ser ganha com a adesão da população civil. Nas povoações sob a influência do Batalhão impôs regas de equidade e justiça. Os nativos que trabalhavam para a tropa eram pagos e os conflitos que surgiam entre os moradores eram resolvidos sem olhar à cor da pele dos intervenientes. Sabia que este modo de agir desarmava os argumentos dos guerrilheiros em prole da independência.

O volume dactilografado com a História da Unidade do Batalhão 345 descreve todas as vivências em Angola. Um episódio aí narrado mostra a forma como Spínola encarava a "acção psicossocial". Em São Salvador, região onde a população era notoriamente hostil à presença das tropas portuguesas, o comandante libertou do cativeiro um nativo que tinha sido detido no mato com uma espingarda Mauser e que era responsável por vários assaltos armados. O ‘terrorista’ foi transformado em "guia, pisteiro, ou carregador", acompanhando as operações das tropas. O seu exemplo foi usado para demonstrar que as Forças Armadas eram capazes de "perdoar o passado, protegendo e tratando bem todos os nativos" que com elas colaborassem.

Mas actos de rebelião ou de desrespeito eram severamente punidos. "No Natal, Spínola entregava prendas aos sobas [líderes tradicionais]. Numa ocasião, um dos sobas deitou ao chão a prenda que Spínola lhe entregara. O comandante irritou-se e agrediu-o com um golpe de pingalim na cara. Tivemos de apontar as armas para serenar os ânimos", conta Mello Corrêa

Em Maio de 1963, a companhia foi deslocada para o Sul de Angola, onde a guerra ainda não tinha começado. António de Spínola recebe em Luanda a Medalha de Prata de Valor Militar com Palma, entregue pelo do Presidente da República, Américo Tomás. Em Outubro é promovido a coronel. Mantém-se no comando do Grupo de Cavalaria 345 até ao fim da comissão, apesar de se aborrecer com a calmaria que se vive no Sul. Sai de Angola com o Batalhão a 22 de Fevereiro de 1964, a bordo do navio ‘Vera Cruz’. Lisboa recebeu os militares com pompa e circunstância a 2 de Março. Nasceu o mito de Spínola, reforçado de 1968 a 1973 como comandante-chefe na Guiné.

O CABO DE GUERRA A QUEM CHAMAVAM 'O VELHO'

Ninguém ousava tratar Spínola pelas alcunhas que os soldados lhe deram. ‘Tio’ e ‘Velho’ sublinhavam a diferença de idades: aos 51 anos, comandava militares na casa dos 20. A terceira alcunha era ‘Caco’, devido ao monóculo no olho direito. Em 1963, Mello Corrêa veio de férias a Portugal. Spínola pediu que lhe levasse uma caixa: "Eram 12 monóculos. Pedi a um oculista que os examinasse e só seis deles tinham uma graduação mínima. Os outros eram de vidro".

Depois de Angola, António de Spínola foi chefe militar e civil na Guiné, de 1968 a 1973. Foi o primeiro Presidente da República após a revolução de 25 de Abril de 1974, executada por militares que o tinham servido. Foi promovido a marechal em 1981. Morreu em 1996, com 86 anos.

NOTAS

1910

Spínola nasceu a 11 de Abril, em Estremoz. O pai, director de Finanças, foi chefe de gabinete de Salazar.

CASAMENTO

Aos 21 anos desposou Maria Helena Monteiro de Barros, filha de um general. Não tiveram filhos.

CAVALARIA

Aluno da Academia Militar, fez o tirocínio em Cavalaria. Competiu em provas de hipismo até ser mobilizado para Angola.

PREC

Liderou a tentativa de golpe em 10 de Março de 1975. Esteve exilado no Brasil e, em 1976, regressou para ser detido. Foi reabilitado e promovido.

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