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O naufrágio mais fatal do que qualquer combate

Desastre do batelão que fazia a travessia de tropas no rio Zambeze, em Moçambique, matou 101 militares e cinco tripulantes.
Fernando Madaíl 16 de Junho de 2019 às 06:00

"Ainda hoje não sei nadar", conta José Vieira, um dos sobreviventes do desastre no caudaloso rio Zambeze, 50 anos depois daquele que foi o maior acidente em toda a Guerra Colonial, quando o batelão que fazia a travessia entre Chupanga e Mopeia, carregado com 150 homens e 30 viaturas, começou a meter água e se virou num minuto.

Nem na mítica batalha de Nambuangongo, no início do conflito em Angola, no ano 1961, nem na complexa Operação Nó Górdio, em Moçambique, em 1970, se registaram tantas baixas como neste naufrágio do dia 21 de junho de 1969, em que perderam a vida 101 militares e cinco tripulantes.

Naquele sábado, quando os relógios marcavam 17h30, a barcaça afundou-se tão rapidamente que O Braga, como era conhecido José Vieira no Batalhão de Caçadores 2853, um eletricista da construção civil que era sapador de minas e armadilhas na companhia estacionada em Cantina Dias, seguiu as instruções do sargento que lhe gritou: "Oh, Braga! Agarra-te ao jerricã e não o largues!" Enfrentando as duas traiçoeiras correntes contrárias do rio, "cheio de crocodilos", após ter andado algum tempo a flutuar, agarrou-se aos ramos de uns salgueiros e ali esperou, com outros camaradas, "mais de quatro horas" pelo helicóptero que os haveria de retirar da água.

"Disseram-me para atar o cabo à cintura e deixar o jerricã com óleo, mas não o larguei, com medo – e, mais tarde, na ilha dos irmãos Campira, um deles disse-me para espalhar aquele óleo pelo corpo e, a partir daí, deixei de sentir frio."

Heróis Campira

Os quatro nativos irmãos Campira (Vasco, Zeca, Manuel e Armando) foram os heróis dessa noite porque, além de resgatarem, nas suas duas pirogas, 19 pessoas das 54 que se salvaram, desde os vultos que boiavam no rio até aos seis que se mantinham pendurados na ponta da embarcação que ficara fora de água, para aquecer os náufragos na ilhota onde viviam – destruíram mesmo algumas das suas estruturas humildes, como a pocilga onde guardavam dois suínos, para garantirem lenha nas fogueiras – pois os soldados, encharcados de água, sentiam o ‘cacimbo’ noturno.

No livro do ex-furriel miliciano Manuel Pedro Dias, ‘Aquartelamentos de Moçambique – Distritos do Niassa e da Zambézia 1964/1974’, o autor explica bem o que significou, na altura, este comportamento daquelas pessoas modestas: "A atitude dos pescadores originou em Moçambique uma onda de solidariedade tal que lhes valeu, por iniciativa do jornal ‘Diário’, de Lourenço Marques [desde a independência, Maputo], a oferta de uma casa pré-fabricada, bem como um louvor decretado pelo governador-geral, Dr. Baltazar Rebelo de Sousa [pai de Marcelo Rebelo de Sousa]. Foi com base neste louvor que lhes foi concedida a Medalha de Prata de serviços distintos".

Soldado em lágrimas

Em Lourenço Marques, formara-se uma coluna composta por condutores de companhias vindos propositadamente do norte para levarem até às suas unidades as viaturas Unimog que tinham chegado à capital do Índico.

Mas também se juntaram àquele contingente – comandado por um oficial de baixa patente, o alferes miliciano Óscar Rosário, e constituído por um segundo sargento, um furriel, dez cabos milicianos e 137 praças – desde os que ali se demoraram a treinar a circulação nas estradas pela esquerda ("à inglesa", pois Moçambique teve sempre grandes influências da África do Sul), até aos que iriam inaugurar dois Pelotões de Reconhecimento Daimler em Vila Cabral (hoje, Lichinga) e fizeram um curso rápido para aprender a manobrar as autometralhadoras Panhard AML.

No dia 15 de junho, aquela centena e meia de homens chegaram a Chupanga, a localidade da margem sul onde se fazia a travessia fluvial do rio Zambeze, assegurada por dois batelões, que estavam a ser reparados. E, para lá da coluna que ali aguardou uma semana, também camionistas civis, que iam abastecer a região norte, se foram acumulando. Perante a hipótese de os militares, que tinham sempre prioridade, efetuarem duas viagens na barcaça maior, que já funcionava, os motoristas dos camiões foram perguntar ao alferes se não conseguiriam carregar tudo de uma vez e, assim, antecipar a sua partida.

O "graduado" questionou o dono daquela grande barca, Amâncio Pedreira, se se conseguiria. Perante as garantias do proprietário da plataforma flutuante, após se encostarem os Unimog uns aos outros, enquanto foi possível conduzi-los, e, a seguir, as restantes viaturas a serem colocadas por cima das estacionadas à força de braços, a barcaça desatracou por volta das 16h00.

Então com 22 anos, o primeiro cabo atirador Mapril Pereira, do Pelotão de Reconhecimento Daimler 2111 – que faria o seu percurso profissional numa companhia de navegação, "mas em terra", no escritório de contabilidade –, gravou a imagem de um dos soldados na memória. Se alguns não queriam embarcar, aquele "estava tão assustado que chorava, como se tivesse uma premonição do que viria a acontecer" – seria um dos que encontraram a morte no Zambeze, onde até ficou o proprietário da embarcação.

Vinte segundos decisivos

José Vieira (O Braga), que se tinha oferecido como voluntário para ir fazer a escolta àquela coluna, continua convencido de que se tratou de "um ato de sabotagem" e que Amâncio Pedreira "era amigo dos terroristas [como eram designados os guerrilheiros inimigos da Frelimo]". Alega que o morto identificado como o dono da barca não era a pessoa certa, "porque não tinha, no braço, a tatuagem ‘Amor de Mãe’", em que ele e os seus camaradas tinham reparado nos dias anteriores.

Mas outros sobreviventes, como Mapril Pereira e António Banza Rodrigues, ambos com destino à nova unidade de carros de combate em Vila Cabral, coincidem na versão de que a brisa que se sentira no início da tarde soprava com mais intensidade e aumentou a ondulação no rio, o que provocou a inundação das caixas que serviam de flutuadores – e tornou-se um esforço inútil a tarefa de alguns soldados, que ainda tentaram retirar dali a água apenas com recurso a baldes.

Mapril já não consegue precisar se lia um jornal ou uma revista de histórias aos quadradinhos quando um companheiro lhe disse para vir para fora. Ainda hesitou, apesar do alarido, mas saiu pela janela da cabina do Unimog – as viaturas estavam de tal forma encostadas que não se conseguia abrir as portas. Ouviu, então, a voz do alferes Rosário a gritar: "Calma! Calma! Ninguém vai morrer!" Logo a seguir, a embarcação virou e caíram carros e militares – "20 segundos mais ter-
-me-ia sido fatal."

Apesar de não saber nadar, conseguiu agarrar-se a uma tábua grossa – com uns quatro metros de comprimento. Sem qualquer preparação para enfrentar um acidente deste género, sentindo-se arrastado pela forte corrente e recordando o que tinha ouvido sobre os enormes crocodilos que ali viviam, pensou que "tinha chegado o seu momento" – o que o impediria, agora, de se orgulhar dos dois filhos e dos quatro netos. Mas bateu num banco de areia e apercebeu-se que podia caminhar até à ilhota dos Campira – a quem não poupa nos elogios.

Salvo pela guitarra

Banza Rodrigues, atual eletricista no MAAT (Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia), quando o batelão se inclinava, descalçou as botas, mergulhou e começou "a nadar de costas, para poupar forças, mas as ondas enchiam a boca de água". Pouco depois, ao ver passar um saco de viagem, agarrou-se àquela improvisada ‘tábua de salvação’, enquanto outros lançavam mão a troncos de árvore e a malas de viagem.

Ao ver aproximar-se um náufrago com a intenção de se segurar ao mesmo saco, percebendo que a boia não seria suficiente para ambos (e temendo que o pânico do outro arrastasse os dois para o fundo), lançou-lhe o objeto e continuou a nadar. Até que deparou com um grande bidão vazio de 200 litros, onde já se apoiavam mais três homens, "e pediu [-lhes] boleia". A cerca de 50 metros da margem, em desespero, tentaram todos nadar para terra, mas o esforço era tremendo. Exausto, quando Banza sentiu que as pernas já não lhe obedeciam, voltando à posição vertical, percebeu que a água só lhe dava pela cintura.

Mas a versão mais bizarra entre os 54 sobreviventes é a do que narrou ter sido salvo pela guitarra que levara da Metrópole – a designação de Portugal europeu, numa época em que havia colónias em África e na Ásia –, usando o instrumento, em que talvez tocasse fados da Amália ou canções de Bob Dylan, como flutuador.

Cemitério com garrafas

A Companhia de Cavalaria 1798, sediada em Morrumbala (o seu Batalhão de Cavalaria 1923 era em Marrupa), tinha um destacamento de dois pelotões (num total de 30 homens) em Mopeia, cujo objetivo, além da vigilância dos "terroristas" que tentavam atravessar o Zambeze, era proteger as grandes companhias industriais de cana de açúcar e de chá.

Aquele posto avançado de Os Galgos (como eram conhecidos os elementos do batalhão), que regressaria a casa em dezembro, acabaria por ficar na História da Guerra Colonial pela sua atuação neste acidente. O comandante do destacamento era, então, o alferes miliciano António Moura, que seria professor do Ensino Secundário e presidente da Câmara Municipal de Montalegre durante quatro mandatos (de 1976 a 1990, eleito pelo PSD).

Nas semanas seguintes ao acidente, andou "preocupado e absorvido" na desagradável missão de encontrar sobreviventes, de resgatar corpos (durante 20 dias, por cada viatura que o guindaste do navio ‘Mezingo’ içava, "vinham à tona dois ou três soldados") e de os tentar identificar. De todos os que viu, "apenas num caso as orelhas tinham sido comidas por crocodilos ou jacarés". Mas os que nunca se encontraram podem ter sido devorados.

No talhão improvisado para sepultar as vítimas, colocaram uma garrafa vazia da popular cerveja Laurentina em cada campa, onde inseriam um papel que registava "os documentos encontrados nos bolsos, os dados fornecidos por alguém que os reconheceu ou a relação de bens pessoais [fios de prata ou relógios] que pudessem levar a uma posterior identificação". Desta forma, esclarece o antigo militar, "poderiam vir a ser levantados os corpos".

Nos dois meses que os sobreviventes ali estiveram, receberam as visitas de Baltazar Rebelo de Sousa e do comandante da Região Militar de Moçambique, que ainda era o general António Augusto dos Santos. Mas, como remata Banza Rodrigues, desembarcado a 30 de abril em Lourenço Marques, que ainda não conhecera as agruras do "mato", onde ficaria até 1972, na altura, Mopeia tinha "mais mortos do que vivos".

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