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O Oeste está de volta

O filme dos irmãos Coen é um regresso ao filme de 1969 ‘A Velha Raposa’, onde John Wayne assumia o papel principal, agora com Jeff Bridges
João Pereira Coutinho 6 de Março de 2011 às 00:00
O Oeste está de volta
O Oeste está de volta

Em 1969, Henry Hathaway, um subestimado realizador norte-americano, filmava ‘True Grit – A Velha Raposa’. O filme, uma história de vingança a soldo, tinha John Wayne no papel principal e assumia-se, Hathaway nunca o escondeu, como um veículo de prestígio e consagração para o próprio Wayne: seria possível que a lenda dos westerns tivesse chegado aos 62 anos sem nunca vencer um Óscar? Possível, sempre foi: Cary Grant morreu de mãos a abanar; Peter O’Toole pro-mete ir pelo mesmo caminho.

John Wayne foi salvo desse destino ingrato: ‘A Velha Raposa’ ofereceu a Wayne a estatueta dourada, apesar de ser um papel menor no contexto maior da sua obra.

JEFF EM VEZ DE JOHN

Quatro décadas depois, os irmãos Coen retomaram o filme de Hathaway, substituindo John Wayne por Jeff Bridges. O resultado é ‘Indomável’. E se é certo que o filme saiu da última cerimónia dos Óscares com 10 nomeações e zero estatuetas, nem por isso deixa de ser um dos melhores filmes do ano. O segredo do sucesso?

Joel e Ethan Coen souberam conservar a essência do original – o papel decadente do decadente marshall ‘Rooster Cogburn’; a natureza pungente da história – mas reforçaram o papel da "jovem raposa", ‘Mattie Ross’, que contrata ‘Cogburn’ para capturar o assassino do pai. Nada disto seria possível sem uma actriz como Hailee Steinfeld, a revelação do filme, que empresta a ‘Mattie’ uma determinação e um sentido de justiça que não estavam suficientemente explorados no filme de 1969.

A juntar a este elenco notável, onde até Matt Damon não destoa, os Coen acrescentaram duas inconfundíveis marcas de família.

Para começar, o humor paródico, feito com a linguagem macarrónica do Velho Oeste (que já tinha dado excelentes frutos na série televisiva ‘Deadwood’) e uma violência extravagante, quase circense, que só em Quentin Tarantino atinge patamares mais refinados.

Por último, os Coen trouxeram um sentido onírico e melodramático na relação de ‘Mattie’ com ‘Cogburn’. Essa dimensão está sobretudo presente na sequência ‘equina’ final, quando ‘Cogburn’, cumprida a vingança, tem ainda um último trabalho – salvar a vida da própria ‘Mattie’. É o grande momento dramático de Jeff Bridges em todo o filme; e é também o pretexto para o epílogo elegíaco, que remete claramente para ‘Imperdoável’, a obra-prima que Clint Eastwood filmou em 1992.

Aliás, se fosse necessário resumir ‘Indomável’ numa única frase, e descontando o tom paródico dos Coen, poderíamos dizer que este é o filme que Clint Eastwood não realizou este ano. Ou, pensando melhor, nos últimos anos. Será preciso dizer mais? 

RESUMO

Depois do homicídio do pai, ‘Mattie Ross’ contrata um velho marshall para capturar o assassino. Um remake do filme ‘A Velha Raposa’ (1969) de Henry Hathaway.

Título original: ‘True Grit’

Realização: Joel e Ethan Coen

Faixa etária m/ 12 (em exibição nos cinemas)

LIVRO: ‘SALAZAR – BIOGRAFIA POLÍTICA"

Foi preciso esperar longos anos para que houvesse uma interpretação rigorosa e desapaixonada de Salazar. Filipe Ribeiro de Meneses conseguiu-o. São primorosas as páginas sobre a forma como Salazar foi urdindo a sua chegada ao poder absoluto – uma mistura de frio calculismo e falsa modéstia, que o acompanhou até à queda da cadeira.

Autor: Filipe Ribeiro de Meneses

Editora: Dom Quixote (832 páginas)

LIVRO: 'HISTÓRIA DA GUERRA NO PELOPONESO'

Finalmente, uma tradução de Tucídides para a lusa língua. Não há maior prazer intelectual do que reler a oração fúnebre de Péricles e a sua apologia da democracia ateniense como exemplo supremo de uma civilização humanista e livre.

Resumo: A guerra entre Atenas e Esparta, por um dos fundadores da narrativa histórica.

Tradução: Raul R. Fernandes e M. Gabriela Granwehr

Editora: Fundação Calouste Gulbenkian (821 páginas)

FILME: ‘SÓ TU E EU’

John Cassavetes fazia melhor, é certo, mas ‘Só Tu e Eu’ cumpre os serviços mínimos ao retratar, com desapiedado realismo, a desagregação de um casamento e, mais do que isso, a forma como os sentimentos passados se convertem numa exibição cruel de amargura e desprezo pelo objecto do nosso (des)afecto.

Resumo: História de amor e de desamor de Dean (Ryan Gosling) e Cindy (Michelle Williams).

Título original: ‘Blue Valentine’

Realização: Derek Cianfrance (em exibição nos cinemas)

FUGIR DE...

‘COMER, ORAR, AMAR’

Todos os clichés do sentimentalismo encontram-se neste filme: a ideia de que a felicidade depende de um acto individual; a exortação da filosofia zen como remédio para as doenças da alma; e, claro, as caricaturas antropológicas sobre os hedonistas italianos e os espirituais asiáticos, tudo num insuportável tom United Colors of Benetton. Julia Roberts já foi uma actriz. Hoje é uma sombra parda. E parva.

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