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Correio da Manhã

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O olhar visionário da utopia

Um mergulho na Londres industrial e nos subterfúgios
Adolfo Luxúria Canibal 22 de Março de 2020 às 10:00
H. G. Wells
H. G. Wells FOTO: Getty Images

Orson Welles, antes de ser o aclamado cineasta que todos conhecemos, com filmes como ‘Citizen Kane’, ‘O Quarto Mandamento’, ‘A Dama de Xangai’ ou ‘A Sede do Mal’, tornou-se famoso nos Estados Unidos pela dramaturgia e narração de um episódio da série de teatro-radiofónico ‘The Mercury Theatre on the Air’, que causou o pânico e o caos em várias cidades americanas.

Esse episódio, difundido pela estação de rádio CBS no domingo de Halloween de 1938, era uma adaptação do romance de ficção científica ‘A Guerra dos Mundos’ (1898), de H. G. Wells, em que a Terra é invadida por marcianos, que matam sem possibilidade de resistência todos os humanos que encontram pela frente até serem derrotados por uma bactéria para a qual não tinham imunidade.

Escritor inglês com vários romances de ficção científica, chamados então "romances científicos", H. G. Wells expôs neles diversas soluções tecnológicas, como o veículo que permitia fazer viagens no tempo em ‘A Máquina do Tempo’ (1895) ou o engenho que permitia alterar o índice de refração de um corpo para o tornar invisível em ‘O Homem Invisível’ (1897), mas também mundos utópicos que serviam para criticar a organização social capitalista, como os gases libertados por um cometa que induziam racionalidade ao comportamento humano em ‘Os Dias do Cometa’ (1906) ou a transmutação de animais em homens em ‘A Ilha do Dr. Moreau’ (1896), sempre com uma acuidade tão visionária que o fazia aflorar assuntos que só no futuro se iriam concretizar, como o nuclear, a mundialização ou o maltrato animal.

É precisamente a esta última linhagem que pertence ‘Tono-Bungay’ (1909), previdente sátira social passada na Londres da era industrial, considerada por muitos a sua obra-prima, e onde as memórias de George Ponderevo sobre a meteórica ascensão do negócio de um elixir milagroso funcionam como pano de fundo para uma análise arrasadora da sociedade de classes e do logro publicitário e demais deslumbramentos do capitalismo, criando o exacto ponto de fusão da ficção científica com o romance social.

ANTIGA ORTOGRAFIA

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Fugir de…Coronavírus
É mesmo de fugir que se trata, literalmente, e que leva quase toda a gente a adoptar comportamentos contrários ao natural gregarismo da espécie humana, renunciando à socialização comunitária mais elementar, que passa pelo toque e a proximidade física, para a substituir pelo relacionamento mais mediático
e distanciado do isolamento preventivo ou mesmo pela ausência e o vazio da inexistência pública, como se de repente nos encontrássemos no interior de uma distopia catastrofista de um mau filme de série b. Não se pode mudar de canal?

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