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O Óscar nunca gostou muito de nós

Mas há um português com dois. Chama-se Carlos De Mattos e vive em Los Angeles.
Fernanda Cachão 24 de Fevereiro de 2019 às 09:00
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É um dos eleitores da Academia de Ciência e Artes Cinematográficas, distinção comum a todos aqueles já premiados e por isso, terá tido algo a dizer sobre os filmes da edição dos Óscares deste ano. Carlos De Mattos, 66 anos, está radicado na Califórnia (EUA)desde os 18 - a ele pertence o ‘título’ de ser o único português galardoado com o troféu mais cobiçado do mundo do cinema - e em duas ocasiões.

A primeira, em 1983, na categoria de Avanço Técnico, pelo desenvolvimento da Tulip Crane, a primeira grua para operar câmaras, utilizada por Steven Spielberg no inesquecível ‘ET’, e depois, em 1986, com um ‘Scientific and Engineering Award’, em parceria com Ernest F. Nettman e Ed Phillips, pela criação de uma câmara de controle remoto utilizada em ‘África Minha’, de Sydney Pollack, e ‘Cotton Club’, de   Francis Ford Coppola- e ainda hoje utilizada.

Depois de deixar Lisboa para estudar Economia na Universidade Estatal da Califórnia, De Mattos - nascido em Luanda - fundou em 1970 uma das maiores empresas de produção de equipamento para cinema, televisão e fotografia, Matthews Studio Equipment, Inc. - e em 1980 esteve também na criação da Hollywood Rentals, Inc., para fornecer uma larga gama de serviços à indústria (iluminação, transporte, etc.).

Através das duas empresas esteve envolvido noutra obra de Spielberg, ‘Jurassic Park’, e ainda em filmes de James Cameron (‘Exterminador Implacável’, ‘A Verdade da Mentira’, ‘Titanic’); de Quentin Tarantino (‘Jackie Brown’); de Antonio Banderas (‘A Máscara do Zorro’); ou de Tom Hanks (‘Forrest Gump’), entre outros.

E se o rol já é impressionante, acrescentem-se ainda as colaborações das empresas do português nos eventos Super Bowl ou com os Rolling Stones. Apesar do sucesso em terras de ‘Uncle Sam’, de ser amigo de Akira Kurosawa e de ter privado com senador já desaparecido Ted Kennedy, De Mattos ainda mantém intacta a memória da língua portuguesa.

Uma sucessão de nadas

O consolo do feito de Carlos De Mattos não apaga o triste recorde de sermos o país que mais vezes propôs títulos à categoria de Melhor Filme Estrangeiro sem ter conseguido uma nomeação (35 vezes desde 1980).

Regina Pessoa, na categoria das curtas-metragens de animação, foi quem esteve mais perto de ter que comprar um bilhete de avião para Los Angeles - em 2006 com ‘História Trágica com Final Feliz’ chegou à ‘short-list’ de 10 filmes nomeáveis, e por lá ficou.

Em 2015, ‘Feral’ foi mais longe ao ser efetivamente nomeado na categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação, mas o filme de Daniel Sousa - um português de origem caboverdiana que viveu em Portugal até aos 16, antes de se radicar nos Estados Unidos - tinha produção norte-americana.

Em 2018, lusodescendentes estivaram perto. A viver no Canadá, Luís Sequeira, filho de aveirenses, fez o guarda-roupa de ‘A Forma da Água’, e Nelson Ferreira, cujos pais são da Mealhada, partilhou com Nathan Robitaille a nomeação para Melhor Montagem de Som, também no filme de Guillermo del Toro.

Resta o consolo de, em 1960, termos tido um Óscar por um filme falado em português, ‘Orfeu Negro’, realizado no Brasil pelo francês Marcel Camus; por ‘Belle Époque’ (1994) ter sido rodado em Portugal e Trueba nos ter agradecido durante o discurso na gala da academia; ou por a história do nosso Eça de Queiroz ‘O Crime do Padre Amaro’ ter ganhado o Óscar de Melhor Filme de Língua Não Inglesa em 2003, mas pelo México.

A realização foi de Carlos Carrera. Temos, é claro, Christopher Hampton. O britânico nasceu na ilha do Faial, nos Açores, vive desde criança no Reino Unido, fez carreira e notabilizou-se na dramaturgia - pelo seu trabalho de adaptação do argumento de ‘Ligações Perigosas’, de Stephen Frears, ganhou o Óscar em 1989 e foi nomeado para o mesmo troféu por ‘Expiação’, de Joe Wright, em 2008.

Este ano está candidato a um Óscar na categoria de documentário, a obra da National Geographic ‘Free Solo’, que acompanha o alpinista norte-americano Alex Honnold numa escalada de 900 metros, sem cordas ou proteções, na parede de granito El Capitan, no Parque de Yosemite, EUA. Trabalharam na equipa de som os portugueses Nuno Bento (foley artist) e Joana Niza Braga (foley mixer). A ver vamos.

A estatueta escapou duas vezes

A fotografia não é tudo

‘Padre Padrone’, dos irmãos Tavianni, "é uma obra prima com uma fotografia horrorosa", disse à ‘Domingo’, em 2004, Eduardo Serra, antigo aluno do Instituto Superior Técnico, por ocasião da cerimónia em que foi nomeado pelo seu trabalho no belíssimo ‘A Rapariga do Brinco de Pérola’, de Peter Weber.

Um dos mais conceituados diretores de fotografia da atualidade, Serra já tinha sido nomeado em 1997 por ‘As Asas do Amor’, de Iain Softley.

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