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O Outono não pertence a nenhum lugar

“Há quem atribua ao Outono uma grande percentagem de razões para ‘começar a cismar’, como se nos desfolhássemos com os plátanos e as videiras da colina.”
António Sousa Homem 27 de Novembro de 2011 às 00:00
O Alto Minho em fotografias antigas
O Alto Minho em fotografias antigas

Periodicamente, como um pêndulo irregular (porque o temperamento dos humanos não tem a precisão da vulgaridade), Dona Elaine preocupa-se. O problema, diz a governanta do eremitério de Moledo, é o Outono, com a sua indecisão meteorológica, os caprichos do clima, as primeiras tempestades que fustigam a Ínsua e escondem Santa Tecla, as cordas de água que fazem da foz do Minho um retrato sombrio de Turner.

Dona Elaine não conhece Turner e sobre a "indecisão meteorológica" limita-se a condensar a sabedoria de uma minhota dos arredores de Cerveira. Mas é o suficiente para se iniciar na carreira de psicóloga, observando que – diz ela – começo "a cismar". A relação entre a crueza do tempo e os baixos níveis de entusiasmo parece-lhe um dogma assente em decénios de experiência.

Há quem atribua ao Outono uma grande percentagem de razões para "começar a cismar", como se nos desfolhássemos com os plátanos e as videiras das colinas. Pessoalmente, limito-me a agasalhar-me, atitude que me tem protegido bastante dos resfriados e da ameaça do reumatismo sazonal. Esta indiferença há-de parecer relativamente arrogante.

A minha sobrinha Maria Luísa perguntou--me se eu penso na morte. "Não costumo cismar", respondi na altura. Penso apenas em gente como eu, na curva dos noventa, caminhando pelo paredão diante do mar, dobrando as articulações e usando chapéu e gabardina para se proteger do ar de Novembro; e penso que a idade de cismar passou numa das várias adolescências a que nos entregámos de alma e coração, no meio de uma paixão ou na falta dela.

Os poetas de antanho supunham essa relação entre o Outono e a melancolia, ignorando que um bom agasalho seria suficiente para morigerar ou a baixa de tensão arterial ou a vontade de ficar em casa. Por mim, a melancolia é um artifício dos finais de tarde de Verão, com a sua ameaça de felicidade interrompida, que lembra o maravilhamento de outros tempos.

Os sábados de Moledo são muito dados ao temperamento peripatético; há uma certa frieza dos pinhais que o Outono agrava e amplia. As discussões sobre o temperamento não ultrapassam esse limite para não ferir a paisagem ou enegrecer o crepúsculo – à excepção de Dona Elaine. Ela insiste e teima em que a meteorologia nos condiciona em definitivo e faz comparações com a ameaça de felicidade que despontará daí a alguns meses, com a floração dos hibiscos ou os primeiros botões de roseiras de Santa Teresinha.

Os hibiscos são de Moledo; as roseiras, em trepadeira, pertencem à minha memória de Ponte de Lima. Dona Elaine julga que já não pertenço a nenhum dos lugares...

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