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Correio da Manhã

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O outro lado

‘Macedo. Uma biografia da infâmia’ narra a história de vida do Padre José Agostinho de Macedo, um notável infame da história portuguesa
Francisco José Viegas 27 de Novembro de 2011 às 00:00
Contra o tempo
Contra o tempo

Desta biografia do padre José Agostinho de Macedo fixe-se este maravilhoso essencial: "Macedo dá corpo à figura abstracta do ‘infame’ tal como o zurziu Voltaire: uma mistura sulfurosa de preconceito, injustiça, fanatismo e malevolência, em radical oposição a tudo o que revela no Homem a sua soberania e o seu livre-arbítrio".

António Mega Ferreira transporta-nos, em cerca de 350 páginas, não apenas a um dos períodos mais complexos e detestados (no sentido em que não é escolhido para o habitual louvor das virtudes da pátria) da nossa história – mas a um dos intérpretes da maldição que atravessa a literatura e a pobre e malsã produção ideológica da "direita portuguesa". Tão simples, assim? Não. Seria injusto para um livro tão importante e, convenhamos, para uma figura como a do padre José Agostinho de Macedo. Dele, a ‘doutrina escolar’ sabe o essencial: miguelista, fanfarrão, arruaceiro, vingativo, vaidoso, reaccioná- rio e, salvo erro, pecador contumaz.

O século XIX estabeleceu-lhe o ferrete; o século XX prolongou-lhe a fama, mais do que o estudo do seu enorme legado – textos que surpreendem o leitor habituado a conviver com o lado mais luminoso do período pós-revolucionário do vintismo, e com os ditirambos à literatura que atravessará o constitucionalismo. Leia-se ‘Os Fidalgos da Casa Mourisca’, de Júlio Dinis, o mais "ideológico" dos romances do século XIX, onde um Frei Januário gordo, maledicente e ocioso, ressentido e ignorante (e reaccionário) faz as delícias de qualquer hagiografia do regime.

PÁGINA NEGRA

José Agostinho de Macedo é um dos que não tem salvação. O rol de indignidades, de violências, de crueldade, de maldades escritas e cometidas faz dele um personagem sem pudor nem honra, uma espécie de página negra da nossa língua e, sobretudo, da bonomia portuguesa que teme ficar, alguma vez, do lado dos derrotados. António Mega Ferreira evoca o seu interesse por Macedo, primeiro em nome de uma rebeldia adolescente, depois pela curiosidade em redor do infame.

A história da literatura portuguesa, em geral, reduz o papel de Macedo ao de um agressor contumaz, companheiro de prostitutas; ao traço de um frade entre os frades boçais, grosseiros e movidos pelo ódio à liberdade e à Carta, descrevendo a sua produção literária como um serviço ultramontano ao cacete e à perdição – o livro de Mega não o iliba; acentua o tom, estuda o infame, revela a uma luz mais nítida e crua, justamente para construir um personagem único e explosivo. O retrato é brilhante, servido pelo talento de um narrador inteligente e felino, generoso, tolerante, compreensivo diante da amoralidade, da ambição e da cólera do frade.

Ler ‘Macedo. Uma Biografia da Infâmia’ é participar de uma narrativa monumental: a que nos devolve um talento raro e tão sinuoso quanto inaceitável à luz dos preconceitos dos modernos. António Mega Ferreira tenta compreendê-lo – deixando-nos sem respostas a preto e branco, mas indicando a luz desse talento incontornável e vulcânico. Uma obra-prima da biografia. 

Autor: António Mega Ferreira

Editora: Sextante (366 páginas)

MÚSICA: FESTIVAL DE MÚSICA DE COIMBRA

No Festival de Música de Coimbra lugar à harpa (Beatrix Schmidt e Salomé Matos) no dia 30, com Liszt, Bach, Debussy e Satie, entre outros – é na belíssima Biblioteca Joanina, na Universidade. No dia 1, no mesmo local, Alexandre Borges diz poesia de Pessoa e Vinicius de Moraes (piano de João Vasco, canto de Sofia Vitória).

+ info www.fesmuc.com/

MÚSICA: SETE LÁGRIMAS

Já mencionei o Sete Lágrimas, grupo de música antiga (e contemporânea), mas é sempre bom voltar a escutá-los. Dia 3, sábado, no CCB, em Lisboa, o agrupamento recebe vários convidados (entre eles Mayra Andrade e António Zambujo) para viajar em torno do tema ‘Terra’. Do século XII à bossa nova e à morna, ou de como a fusão é uma arte rara.

+ info www.ccb.pt

MÚSICA: ORQUESTRA BARROCA DE VENEZA

Em alternativa, a proposta é ir à Gulbenkian para, à mesma hora, ouvir Händel, Stradella, Scarlatti e Vivaldi com a Orquestra Barroca de Veneza (experimente a voz de Patricia Petibon). O combate com o tempo e a história atravessa este repertório notável, que tanto comove como nos reenvia às peças mais incontornáveis da época – e do género.

+ info www.gulbenkian.pt

FUGIR DE...

DO TÉDIO, DO BANAL E DA TELEVISÃO

Aproveitemos os últimos dias de Outono e fujamos da televisão enquanto é tempo. Fugir da repetição, do tédio, da banalização e da vulgaridade. É um dever de todos os que encontram na música, no refúgio dos livros, na contemplação das árvores (por exemplo) uma razão de viver. Tão intensa que nos obriga a fugir. Fugir, às vezes, sem destino.

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