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O outro lado de Dacar

Fátima Lopes, a apresentadora da SIC, voltou ao Senegal para cumprir a promessa de entregar cobertores aos meninos de Niaga Paul. Em Dacar o importante, além de chegar, foi ajudar.
28 de Janeiro de 2007 às 00:00
O pequeno Elimane, órfão de 5 anos, coça o nariz, a nuca, os sovacos, e passa os olhos distraídos no homem de túnica e óculos Ray--Ban que discursa lá à frente, com gestos largos, num palanque de caixotes de fruta. O homem é Abdu Sibi, o governador da Cruz Vermelha em Dacar que naquele instante podia ser confundido com um cantor de rap ou R & B.
Elimane ainda não sabe, mas nessa tarde, os lápis de cor, as sebentas, o giz, as ardósias, os brinquedos e os cobertores que lhe chegarem à sala de aula, são o pretexto do discurso inflamado do senhor Sibi. “Isto não mata a fome, mas dá-lhes umas horas de alegria. (...) Isto parece uma gota de água no deserto, mas é um começo, e não se começa pelo fim (...). Isto é o que faz falta todos os dias, aqui ou em Pequim. (...) Até aqui achava que as mulheres eram a maior riqueza do Senegal, mas o melhor do meu país são as crianças”.
Vê-se que Sibi é herdeiro da melhor tradição de Leopold Sedar Senghor (corruptela de Senhor), o estadista, poeta e maçon, primeiro e único presidente africano a abandonar voluntariamente o poder, o homem que escreveu para o seu epitáfio: “Écoute dans ton sang les tambours de l’Afrique lointaine”.
Na plateia, contudo, não havia ninguém para convencer, nenhum votante indeciso, mas apenas uma centena de meninos e meninas carentes, e, sentadas em caixas de bananas, as verdadeiras responsáveis por tudo isto: a senhora Cristina Borges de Carvalho, directora de comunicação do Intermarché, e uma senhora de nome Fátima Lopes, apresentadora da SIC. Enquanto a caravana de bólides do Dacar se aproximava de Lac Rose, uma comitiva de portugueses mobilizava a acção humanitária do Senegal.
TUDO COMEÇOU NO DACAR
Tudo começou no Dacar de 2006, na aldeia de Niaga Paul, então uma das povoações mais carenciadas do país, após um Inverno de cheias devastadoras que deixaram a maioria dos habitantes ao relento. Cristina, atenta ao mundo e à Mãe África, mobilizou os operadores da rede Intermarché para cederem stock e desafiou Fátima Lopes a apresentar o seu programa de domingo directamente do campo de desalojados.
“A Fátima pareceu-me uma pessoa excelente para dar a cara por esta missão. É uma força da natureza, uma mulher com uma garra infinita, e além disso somos as duas africanas [de Moçambique]”, diz Cristina à Domingo. Na altura do último directo na missão do ano passado, Fátima apercebeu-se que as sebentas e as bolachas eram menos precisas do que uma resma de cobertores – a maioria dos desalojados dormia no chão das tendas –, e prometeu voltar.
“Não podia não cumprir com a promessa e depois de ter feito o que fiz no ano passado, compreendi que nenhuma missão humanitária é bem sucedida se não formos comprovar que as coisas são entregues, que há alguém que fica com um cobertor, uma caneta, um brinquedo. Há muitos desvios de donativos para o mercado negro, muitas ingerências indevidas”, conta Fátima. “E depois – conclui – concretizar uma missão não é só chegar aqui e dizer missão cumprida”.
PASSA DAS 3 DA MANHÃ
Passa das 3 da manhã quando aterramos no aeroporto Leopold Senghor no voo Lisboa-Dacar. As primeiras 26 caixas de um carregamento de sete toneladas rolam no tapete e vão sendo empilhadas e contabilizadas pelos membros da comitiva: dois jornalistas, uma radialista, a apresentadora, a incansável Cristina e Teresa Uva, das Aventuras no Mundo, a empresa encarregada dos transportes e logística.
“Logo aqui é preciso estar alerta para a contagem, não vá alguém ter tentações do lado de fora”, explica Cristina. Os senegaleses destacados para o carrego estão para lá de Bagdad e, no francês possível, tudo o que sabem dizer é “merci, merci”. Na rua empacotam-se os caixotes nos três Mitsubishis que vieram por terra de Lisboa e ruma-se a um hotel da cidade para uma noite curta.
Amanhã e depois serão dias intensos, a fintar avenidas apinhadas de carros, motas, vacas, cabras, mulas, porcos, estropiados... até chegar à grande estrada dos embondeiros, à aldeia de Niaga Paul, ao lugar prometido. “Cabe à Cruz Vermelha dizer quem é prioritário. O ano passado foi Niaga Paul. Este ano há uma dezena de aldeias necessitadas de ajuda imediata, uma delas com 200 desalojados por um fogo a dormirem ao relento”, explica Cristina.
Duzentos dormem ao relento, os outros, uns largos milhares, vivem com a roupa que têm no corpo, em tabancas de chão de areia de dez metros quadrados para três ou quatro famílias, comem (arroz com arroz ou, nos dias melhores, mandioca) uma vez ao dia, bebem água da chuva ou de rios encardidos, e, muitos tombam, esquálidos como os galhos mais altos dos baobabs, de fome e de sida.
É lá que terminará a missão Lopes/Intermarché, é lá que seremos engolidos por uma legião de mães e filhos em sobressalto. Muitas delas, mães adolescentes, já de três ou quatro filhos a sustento, trazem as crianças ao colo, nas costas, em cada braço. São estas que nos passam os filhos para os braços, na esperança ténue de que os levemos. Um gesto que uns vêem de amor, outros de desespero.
A VEIA DE SOLIDARIEDADE DE UMA ESTREIA
A OPRAH WINFREY DE CARNAXIDE
Não é a segunda vez que Fátima Lopes mete mãos à obra e vai até ao fim do mundo para “ver as coisas a acontecer”. Diz quem a conhece que Fátima é uma metáfora do dia em que nasceu [o dia de Nossa Senhora], que tem o sangue na guelra e a generosidade da Oprah Winfrey.
Na missão de 72 horas no Senegal, 60 delas passou--as sem ir à cama, descabelada e num frenesi de gravações, disputas com autarcas e grandes (e pequenos) chefes tribais.
Em Niaga Paul, ainda teve ânimo para jogar à barra do lenço e ao elástico de pé descalço com as meninas, ensinar uma anciã a passar blush nas bochechas, dizer cobras e lagartos das ingerências estrangeiras em África e melhorar o português do senhor Ibrahima Dia, um venerável artista plástico que viveu dois anos em Carvalhido, às portas do Porto, e que terminava as suas alocuções com um “ena, carago” seguido de um sonoro trilili.
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