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O PAPA TAMBÉM É POETA

Aos 82 anos, Karol Wojtyla vai lançar mais um livro de poesia. Surpreendido com as ‘habilidades’ literárias do Papa? Pois fique a saber que, além de poemas, Sua Santidade foi um dedicado escriba de peças de teatro e ensaios filosóficos
31 de Janeiro de 2003 às 20:42
Foi antes de ser Papa que o polaco Karol Wojtyla se dedicou mais aos poemas, peças de teatro e estudos filosóficos. A actividade literária durou cerca de 40 anos, concretamente até à subida a líder máximo da Igreja Católica, em 1978. Agora, passados 25 anos, o Sumo Pontífice decidiu recuperar a veia artística e prepara a publicação de um novo e enorme poema, com um total de 14 páginas. Até à saída da edição polaca, marcada para Fevereiro, o texto continuará no segredo dos deuses.

Alguns dos seus poemas antigos, no entanto, podem ser lidos em português. As edições são quase desconhecidas, mas é possível encontrar vários exemplos reproduzidos em biografias traduzidas, como “João Paulo II”, de Joseph de Roeck (Editorial Aster), “João Paulo II – Biografia Ilustrada”, de Peter Hebblethwaithe e Ludwig Kaufmann (Centro do Livro Brasileiro) ou ”João Paulo II – Uma Homenagem”, de Robert Sullivan (ACJ/Visão).

Karol Wojtyla começou a estudar literatura aos 19 anos, na universidade em Cracóvia. Rapidamente descobriu que a poesia era o melhor meio para expressar os seus sentimentos, sobretudo a dor que o acompanhava desde a morte prematura da mãe. Nessa altura, os seus poemas eram marcados por muita mágoa. “Oh, quantos anos se passaram/Sem ti – quantos anos?…/No Teu túmulo branco/Oh, Mãe, minha amada falecida,/Para o pleno amor de um filho/Uma oração: /Repouso Eterno”, escreveu, passados onze anos sobre a tragédia.

TEMÁTICA HUMANA

Mas a imensa obra literária, filosófica e teológica do Papa, assim como toda a sua vida e acção, foi percorrida pela preocupação com o homem. Os seus poemas, logo nos verdes anos, acompanham e afagam a sua vida até se tornar cardeal, em 1967, ano em que iniciou o seu longo interregno na publicação de poesia.

De modo genérico, os temas dos seus versos iam ao encontro de aspectos da existência do autor. É o caso do trabalho (e da sua problemática), a que dedica o poema “A Pedreira”, onde fala da sua experiência na pedreira de Cracóvia (1966), exprimindo a dignidade e as humilhações da vida operária. “As mãos são a paisagem do coração. Às vezes dividem-se/como ravinas em que se abate uma força indefinida./As mesmas mãos que um homem apenas abre/ quando as palmas estiverem carregadas pelo trabalho./E então ele compreende: graças a ele, outras mãos estarão em paz”, diz um excerto.

Entre 1950 e 1966, Karol Wojtyla, o futuro Papa João Paulo II, publicou também numerosos artigos de fundo e poesias em dois periódicos de inspiração católica e patriótica, editados em Cracóvia. Numa primeira fase, com o pseudónimo Andrzej Jawien (Jawien significa “aquele que desvenda a verdade”) e, posteriormente, com o pseudónimo Stanilslaw Andrzej Gruda. Mais tarde, e durante 16 anos, passou a assinar apenas “K.W.”, as iniciais do seu nome. Este período correspondeu ao seu magistério de sacerdote e de bispo, durante o qual publicou 51 poemas curtos e dois ciclos de poemas longos.

Durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), em que participou como Cardeal eleitor, Karol Wojtyla escreveu o poema “Chão de Mármore”, tendo como tema a espiritualidade e solidez da Basílica de S. Pedro.

VIRGEM MARIA INSPIRADORA

A Virgem Maria foi sempre um dos seus temas de eleição, tendo-lhe o Papa dedicado uma série de poemas sob o título genérico de “A Mãe” – entre os quais o deslumbrante “O Assombro pelo Seu Único Filho”. Destaque ainda para poemas que reflectem a sua vida sacerdotal, como “Pensamentos de um Bispo ao Ministrar o Sacramento do Crisma numa Aldeia da Serra”.

Uma vez nomeado líder da Igreja Católica, João Paulo II afastou-se desta actividade, devido aos múltiplos compromissos enquanto Papa. Mas, aos 82 anos de idade, parece ter retomado a vontade de se dedicar à literatura. Com o nome de “Tríptico Romano — Meditações de João Paulo II”, a sua última obra, agora no prelo, foi escrita na residência de Verão do Sumo Pontífice, em Castel Gandolfo (Itália). Apenas alguns dos seus assessores e uns quantos amigos polacos sabiam do facto mas, entretanto, o Vaticano veio confirmar a existência do livro, a publicar primeiramente na Polónia.

Segundo fontes próximas de João Paulo II, o texto não foi escrito pela mão do próprio, dado que o Papa já se encontra muito debilitado, mas ditado a uma freira polaca amiga. A primeira parte do tríptico chama-se “O Veio” e é uma ode à natureza e à relação das pessoas com o Criador. A segunda parte é inspirada nos frescos de Miguel Ângelo sobre a criação e o juízo final e passa-se na Capela Sistina, onde João Paulo II foi eleito Líder da Igreja Católica. A terceira parte é uma meditação sobre Abraão, figura bíblica honrada pelas três maiores religiões monoteístas – cristianismo, islamismo e judaísmo.

A idade, o sofrimento e a ideia da morte parecem ter dado ao primeiro Papa não italiano desde 1523 inspiração para se reencontrar com a poesia. A edição em português ainda não está prevista.

ATLETA, PROFESSOR E ARTISTA OU UM PAPA DO SÉCULO XX

Karol Józef Wojtyla nasceu a 18 de Maio de 1920 em Wadowice, uma pequena cidade a 50 Km de Cracóvia (Polónia), no seio de uma família católica. O pai era o alfaiate Karol Wojtyla, oficial subalterno do Exército, e a mãe Emília Kaczorowska, uma professora primária de ascendência lituana. A família completava-se com Edmund, o irmão mais velho.

O pequeno “Lolek”, como o actual Papa então era chamado, teve uma infância normal, mas abruptamente cortada pela morte da mãe, quando ele ainda não tinha feito nove anos. Três anos depois, o seu único irmão, na altura médico em Bielsko, morre com escarlatina.

Karol vive então com o seu pai num pequeno apartamento junto da igreja de Wadowice. Nesses anos, revela-se não só um óptimo estudante, mas também um atleta consumado, que se dedicava tanto ao futebol – a guarda-redes – como ao esqui, ao montanhismo, à corrida de fundo, ao remo ou à natação.

Em 1938 os últimos dois Wojtyla mudam-se para Cracóvia, para que o jovem Karol inicie os seus estudos em literatura e filosofia na Universidade. Os seus interesses dirigem-se também ao teatro, levando-o a participar num grupo de teatro experimental e a participar em sessões de leitura de poesia, com enorme talento.

A invasão da Polónia pela Alemanha nazi, em 1939, obriga-o a interromper os estudos. Para ganhar a vida e evitar a deportação, Karol emprega-se então numa pedreira como cortador e, mais tarde, numa fábrica de produtos químicos.

Em 1941 a morte do seu pai terá representado um momento de viragem na sua vida. A vocação do sacerdócio faz-se sentir e, no ano seguinte, Karol Wojtyla inicia estudos no seminário clandestino de Cracóvia e inscreve-se no curso de Teologia da Universidade.

O SACERDOTE E O PAPA

Terminada a II Guerra Mundial, Karol Wojtyla continua os seus estudos religiosos no Seminário e na Faculdade de Teologia. Em 1 de Novembro de 1946 é ordenado sacerdote. Então, sucessivamente, torna-se capelão dos estudantes universitários, continua a sua acção pastoral em Cracóvia, funda e dirige um serviço de apoio às famílias, é nomeado professor de Ética na Universidade Católica e, em 1958, é nomeado pelo Papa Pio XII Bispo auxiliar de Cracóvia.

No começo dos anos sessenta Karol participa activamente no Concílio Vaticano II (1962-65), que irá revolucionar a Igreja Católica, tendo então demonstrado especial interesse pela liberdade religiosa. Em 1964 é nomeado Arcebispo de Cracóvia por Paulo VI, que o fará Cardeal em 1967. E é nessa qualidade que, em 1978, se dirige a Roma para participar no Conclave destinado a escolher o sucessor do papa João Paulo I.

Como Papa, João Paulo II marcou um estilo diferente dos seus antecessores, ao levar a Igreja mais perto dos fiéis, criando aquilo a que chamaram o “papado omnipresente”. As suas deslocações por todo o Mundo contribuíram para atrair multidões que estavam fora da Igreja e reforçar os laços entre os crentes.

Da mesma forma, a atenção dada aos direitos humanos levaram-no não só a criticar os regimes comunistas como também ditadores como Pinochet, do Chile, ou Marcos, das Filipinas. Os laços com outras Igrejas (cristãs e não-cristãs), o melhoramento das relações com os judeus e o estabelecimento de laços diplomáticos entre o Vaticano e Israel foram (e são) outros pontos importantes da face liberal da sua acção.

No seio da igreja, porém, João Paulo II afirma a imutabilidade da identidade Católica Romana, reforçando a disciplina e não transigindo em aspectos doutrinários. Nesse sentido, não hesita em condenar algumas das propostas da “teologia da libertação”, opondo-se à entrada das mulheres no sacerdócio, à pena de morte, à eutanásia, ao aborto, à contracepção ou mesmo à clonagem.
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