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O pecado chinês

‘A Grande Muralha e o Legado de Tiananmen: a China e os Direitos Humanos’ é um poderoso ensaio sobre um país de grandes contrastes
João Pereira Coutinho 5 de Dezembro de 2010 às 00:00
O pecado chinês
O pecado chinês

A China anda nas bocas do mundo. Nem podia ser de outra forma: com um crescimento económico assinalável, a potência asiática tem sido apontada como um modelo, ou como uma ameaça, para o nosso Ocidente indolente.

O problema é que, por baixo do êxito económico, raramente falamos do lado lunar de Beijing. E o lado lunar está na forma como a China trata os seus cidadãos: como os desrespeita de forma a manter o incontestável "centralismo democrático" do seu Partido Comunista.

LADO LUNAR

É precisamente esse lado lunar que ocupa o primeiro livro de Raquel Vaz-Pinto. Intitula-se ‘A Grande Muralha e o Legado de Tiananmen: A China e os Direitos Humanos’. Trata-se de um livro notável. E notável por dois motivos. Em primeiro lugar, porque a autora mergulha num tema complexo e partilha a sua investigação numa linguagem límpida e poderosa. E, em segundo, pela qualidade da própria investigação.

Raquel Vaz-Pinto não nega o mérito económico do regime chinês. Mas o que interessa sublinhar é que esse mérito não retirou a China da lista dos países menos livres do mundo. Como explicar esta esquizofrenia política?

Com a história. Melhor dizendo: com os ensinamentos da história. Depois da queda do Muro de Berlim (1989) e da desagregação do império soviético (1991), o PCC aprendeu a lição fundamental: evitar um destino semelhante ao do irmão gémeo moscovita implicava não falhar economicamente; não seguir uma política externa agressiva; e, sobretudo, relegitimar o PCC através de um "pacto" com a sociedade e com os intelectuais.

Esse "pacto" estabelece a possibilidade de algumas críticas ao regime; mas não a de pôr em causa a própria natureza do regime. Felizmente, nem todos aceitaram o ‘pacto’ e o livro de Raquel Vaz-Pinto procura dar rosto a quem não o tem. O caso de Liu Xiaobo, Prémio Nobel da Paz, merece as atenções da autora. Mas Liu vem no seguimento de pioneiros como Wei Jingsheng, preso e torturado por exigir de Beijing a ‘quinta modernização’ em falta: depois das modernizações tecnológica, agrícola, industrial e militar, faltava cumprir a democrática.

Faltava, não; falta. E, no livro de Vaz-Pinto, entendemos como o caminho será longo. Das ‘prisões negras’ aos ‘campos de reeducação’; do uso endémico da tortura à aplicação furtiva da pena de morte; sem esquecer a negação da liberdade religiosa (ou, melhor dizendo, da manifestação da fé religiosa), o catálogo é generoso e, atrevo-me a dizer, horripilante. Como horripilante é saber qual será o destino da China no século XXI. Porque os impactos globais não serão apenas económicos; uma superpotência projecta também uma dimensão moral que pode servir de escudo protector para outras ditaduras do género: regimes que procuram o sucesso económico ao mesmo tempo que se furtam à liberdade política. 

RESUMO

Ensaio sobre o desrespeito dos direitos humanos por uma potência económica : China.

AUTOR

Raquel Vaz-Pinto

EDITORA

Tinta da China (239 páginas)

DVD: ‘O ESCRITOR FANTASMA’

Roman Polanski melhora com a idade. O seu ‘Escritor Fantasma’ é primoroso na criação de tensões e cumplicidades entre o escritor e o seu biografado; mas a história ganha contornos cada vez mais negros à medida que o trabalho biográfico se transforma numa pura investigação policial e suicidária.

Resumo: Um "escritor fantasma" escreve as memórias do ex-primeiro-ministro inglês.

Título original: ‘The Ghost Writer’

Realizador: Roman Polanski

LIVRO: ‘UMA TRAGÉDIA PORTUGUESA’

Que o país vive uma crise financeira e económica de proporções históricas, não é novidade. A novidade está na clareza e inteligência de um livro onde António Nogueira Leite identifica as causas da "tragédia", propondo soluções que envolvem actores políticos e uma alteração de mentalidades.

Resumo: O jornalista Paulo Ferreira pergunta, o economista Nogueira Leite responde.

Autores: António Nogueira Leite com Paulo Ferreira

Editora: Lua de papel (260 páginas)

CINEMA: ‘O AMERICANO’

O cinema sempre gostou de samurais. Lembro-me de ‘Yakuza’, de Sydney Pollack; ou, mais recentemente, ‘Os Limites do Controlo’, de Jarmush. Em ‘O Americano’, o samurai de serviço é George Clooney, um assassino em busca de redenção. Tudo no filme é deliciosamente démodé.

Resumo Um assassino profissional refugia-se num vilarejo em Itália, onde procura escapar aos seus perseguidores. Sem sucesso: o passado acabará por encontrá-lo.

Título original: ‘The American'

Realizador: Anton Corbijn (em exibição)

FUGIR DE...

‘A REDE SOCIAL’

Quando Aaron Sorkin apareceu no mercado, confesso que gostei: os seus diálogos, disparados com velocidade de metralhadora, conferiam às séries televisivas do homem vitalidade narrativa. Essa vitalidade está ausente de ‘A Rede Social’, retrato do criador do Facebook. Tudo é autocentrado. E os diálogos, que fizeram a fama de Sorkin, são cansativos. A desilusão do ano.

Realizador: David Fincher (em exibição)

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