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O PECADO MORA AO LADO

‘O Crime do Padre Amaro’ vem do México com o rótulo de ‘fenómeno’. A Igreja local ficou chocada. O público adorou. O filme estreia na próxima sexta-feira e é pré-candidato aos Óscares
8 de Novembro de 2002 às 20:55
O México teve um dos Verões mais quentes dos últimos anos. A culpa foi de um filme que conta a história de um padre que se apaixona por uma menor. Chama-se “O Crime do Padre Amaro” e inspira-se no romance homónimo que Eça de Queiroz escreveu no século XIX. A Igreja classificou a obra de “herege” e tentou boicotar a sua exibição nas 400 salas de cinema. Mas apesar do México ser o país com maior número de católicos do mundo, logo a seguir ao Brasil, a longa-metragem acabou por se tornar num êxito de bilheteiras, sendo vista por mais de cinco milhões de pessoas. Afinal, o fruto proibido ainda é o mais apetecido.

Entre o livro de Eça de 1875 e o filme de Carlos Carrera, cineasta que tem nas prateleiras de sua casa uma Palma de Ouro de “Cannes”, há um abismo com mais de cem anos e um majestoso oceano a separar duas realidades distintas (ver caixa). A longa-metragem conta a história de Amaro, um jovem de 24 anos, recém-ordenado sacerdote que chega à paróquia de uma pequena aldeia mexicana (Los Reyes). É então que conhece Amélia, uma bela rapariga de 16 anos, bastante religiosa. Os dois acabam por se apaixonar e Amaro quebra o seu voto de celibato. Paralelamente, vai-se apercebendo da realidade que o rodeia na paróquia. Há padres que recebem dinheiro do narcotráfico e outros que são suspeitos de ajudar guerrilheiros de extrema-esquerda.

“Nos últimos tempos, surgiu na Imprensa mun-dial denúncias de preva-ricação e abuso sexual dos padres. Mas não estamos a aproveitar a boleia destes escândalos para fazer uma obra sensacionalista”, explicou o produtor, Daniel Birman, ao jornal “Estado de São Paulo”. No filme, as críticas estendem-se a todos os sectores da sociedade mexicana: “As famílias não prestam, a religião é castradora, os valores burgueses hipócritas.” Em “O Crime do Padre Amaro” não faltam cenas polémicas, como as de um sacerdote que faz sexo com uma mulher debaixo de um manto da Virgem Maria, ou de um homem que dá uma hóstia para o gato comer.

A grande estrela chama-se Gael García Bernal, que interpreta o papel de Amaro. O actor de 23 anos, ídolo da juventude mexicana, participou em “Amor Cão” e “E a Tua Mãe Também”, dois dos maiores êxitos de bilheteira naquele país e está envolvido num filme produzido por Robert Redford e realizado por Walter Sales, em que encarnará o revolucionário Che Guevara.

O LIVRO PROIBIDO

“O Crime do Padre Amaro” foi escrito por Eça de Queiroz em 1875, altura em que estagiava como funcionário público em Leiria. Eça tinha então 29 anos e era considerado um romancista promissor. Havia escrito “O Mistério da Estrada de Sintra”, a meias com Ramalho Ortigão, e participado nas famosas Conferências do Casino. O livro teve um grande sucesso mas a sua leitura foi proibida durante muitos anos por ser considerado altamente anticlerical. A trama passa-se na zona da Cidade do Liz, onde o Padre Amaro Vieira, um indivíduo “fraco”, “provinciano” e “sem vocação”, se envolve sexualmente com Amélia, a atraente filha da senhora Joaneira, a dona da casa onde se hospedara. Amaro conhece o cinismo dos seus colegas, que em nada estranham a sua relação proibida com a jovem que entretanto engravida, complicando a sua vida sacerdotal. Após o parto, Amélia morre e o pai acabará por matar o seu próprio filho. O padre, “um cínico descarado” e uma “pessoa sem remorsos” continua a carreira de conquistador, envolvendo-se apenas com mulheres casadas.
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