Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM

O pesadelo de 40 menores

Condenado a 25 anos, Leonardo espera a morte na cadeia. Dez anos depois, vítimas ainda sofrem
19 de Junho de 2011 às 00:00
Leonardo Moreira quando foi detido. Recebeu a pena máxima
Leonardo Moreira quando foi detido. Recebeu a pena máxima FOTO: Direitos reservados

O quarto permanece intacto como se a vida tivesse parado no tempo. As fotografias de uma família outrora feliz continuam espalhadas pela casa e as roupas estão guardadas na cómoda, como se Leonardo Moreira tivesse estado ali ainda ontem. O olhar de Maria Inês está vazio, as lágrimas ainda caem nos momentos de solidão e o rosto continua manchado pela vergonha de ser mulher do primeiro grande violador português.

Há dez anos a polícia entrou de rompante na pequena ilha, em Vila Nova de Gaia, e prendeu Leonardo, hoje com 66 anos, por violar 40 crianças. Foi julgado e ficou para a história como o primeiro violador a ser condenado a 25 anos de cadeia. "O meu marido não me deixou dívidas, mas deixou-me a vergonha para toda a vida", conta Maria Inês Martins.

VIDA NA CADEIA

A vida na cadeia de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, foi madrasta para Leonardo. Já não é o homem da mota que roubou a inocência a tantas crianças e que as atormentava nos sonhos. Hoje é um homem envelhecido e debilitado por inúmeras doenças. Está fraco, já quase não tem dentes e permanece num estado de permanente apatia. Internado há vários anos na clínica da prisão, é medicado diariamente. Não convive com os outros reclusos e raramente profere uma palavra.

"Ele está a ter o castigo dele. Tem sofrido muito, está irreconhecível. Não fala com coerência e está todo o dia a olhar para o vazio. É muito maltratado, roubam-lhe o pouco que tem e atiram-lhe com pratos de comida à cara", disse a mulher do violador.

O antigo operário de construção civil vive praticamente à espera da morte. Já pediu por inúmeras vezes uma saída precária da cadeia, mas foi sempre negada.

"Mais valia Deus levá-lo. Ele está ali à espera de morrer. Já cumpriu dez anos, mas ainda lhe falta muito. Não vai sair dali com vida, não vai aguentar muito mais tempo", continua Maria Inês.

Leonardo nunca falou dos crimes que cometeu, parece querer levar a verdade consigo para o caixão. Maria Inês também nunca quis saber. Prefere ficar na ignorância do que ouvir o marido relatar todas as atrocidades que um dia cometeu. Juntamente com uma das filhas, a mais nova de quatro irmãos, a mulher visita de quinze em quinze dias o marido. Leva--lhe roupas limpas, comida e tabaco. Conta-lhe algumas das novidades que se passaram em casa, mas a conversa nunca se alonga muito. O coração está dividido entre ódio para com os actos de Leonardo e o dever que uma mulher tem eternamente para com o homem com quem um dia casou.

"É meu marido até morrer. Foi assim que escolhi. Tenho o dever de o ajudar, de o continuar a visitar. Não quero saber sequer o que ele fez, no dia em que soubesse toda a verdade provavelmente deixava de ir à cadeia. Só de pensar que ele fez mal a todas aquelas crianças tremo da cabeça aos pés. Prefiro ficar na ignorância", confessa.

Apenas a filha mais nova de Leonardo o visita. Já chegou a levar o filho Leandro à cadeia para conhecer o avô. A jovem quis dar ao menino o nome do pai, mas o marido não deixou. Na altura da detenção tinha apenas 19 anos. Sofreu muito, não conseguia sair à rua tamanha era a vergonha e esteve vários meses internada no Hospital Eduardo Santos Silva, em Gaia, devido a uma depressão. Não perdoa o pai pelo que ele fez a tantas crianças, mas também garante que nunca o irá abandonar.

"Foi o pai que Deus me deu. Tenho de aceitar. Para mim ele foi bom, deu-me carinho. O meu filho já conheceu o avô e ficou muito contente. Agora está sempre a perguntar por ele", conta à Domingo a filha de Leonardo.

A VERGONHA DA FAMÍLIA

Os meses que se seguiram à prisão de Leonardo, em Junho de 2001, foram aterradores para toda a família. Foram ignorados e humilhados pelos vizinhos. Viviam com vergonha e medo de sair à rua e uma dor intensa atingia-lhes o coração de cada vez que alguém perguntava por Leonardo.

"Andava sempre de cabeça baixa com vergonha. Os vizinhos mal me falavam e quando me dirigiam a palavra era para fazerem perguntas constrangedoras ou para me recriminarem e tentarem aconselhar. Só quando houve a polémica da Casa Pia é que tudo voltou ao normal. A pedofilia deixou de ser um termo estranho para as pessoas e finalmente perceberam que pode acontecer a toda a gente", conta Maria Inês.

Os anos passaram e Maria Inês aprendeu a lidar com a vergonha. Quando lhe perguntam pelo marido diz que morreu. Não por querer ocultar a sua existência, mas sim porque não quer que façam mais perguntas. Continua a ser recriminada pelos vizinhos por visitar o marido, mas garante que o continuará a fazer. O amor que um dia sentiu acabou, no entanto, de vez e Maria Inês garante que não quer ver Leonardo em casa. No dia em que ele entrar ela sai.

"Continuo ao lado dele, mas não quero que volte para casa, não consigo ter de novo uma vida ao seu lado. E depois ia voltar tudo ao mesmo, os vizinhos iam olhar-me novamente de lado e rejeitar-me", disse.

SOFRIMENTO DAS VÍTIMAS

Embora Leonardo esteja preso há já uma década, continua ainda a causar sofrimento nas quarenta crianças que violou. O modo violento como actuava deixou traumas nas vítimas para toda a vida. Em muitos dos casos usava pistolas e facas para obrigar as crianças a terem relações sexuais. Retirava-lhes a roupa à força e tentava a todo o custo consumar os seus intentos. Num dos casos mais violentos, Leonardo violou repetidamente uma menina de doze anos. A criança tentou reagir e acabou espancada ao murro.

O predador não tinha uma vítima tipo. Abusou de meninas e meninos entre os cinco e os 16 anos nas zonas de Santa Maria da Feira, Vila Nova de Gaia e no Porto. A única condição necessária para atacar era que os menores estivessem sozinhos. Antes de abusar, o violador dava um comprimido às crianças que tinha efeito relaxante. Às meninas dizia que o medicamento impedia-as de engravidar.

Joana, uma das vítimas, tem hoje 24 anos. Dentro de dois meses irá casar e ainda vive atormentada com a memória do terror. Conseguiu superar o trauma que viveu, mas de tempos a tempos a imagem de Leonardo assoma-lhe os pensamentos. Namorar foi um verdadeiro pesadelo para a rapariga que foi atacada junto a uma escola em Santa Maria da Feira.

"Ela não confiava em nenhum rapaz, pensava sempre que lhe iam fazer mal. Mas felizmente conseguiu ultrapassar o medo", explicou à Domingo uma vizinha da jovem.

A poucos metros da rapariga mora Maria (nome fictício), também ela vítima de Leonardo quando tinha oito anos. Ainda hoje não sai de casa sozinha com medo que o homem da mota volte a atacar. Para Maria o trauma foi ainda mais difícil de superar. Foi arrastada para uma mata e abusada por Leonardo. No final aquele ainda lhe deu 50 cêntimos. Nos meses que se seguiram mal dormiu. Sempre que fechava os olhos o violador aparecia. Deixou praticamente de falar, passava os dias a chorar e tinha uma imensa vergonha de voltar à escola.

"Nem gosto de me recordar desses tempos, foi um autêntico pesadelo. A minha filha mal comia, passava o dia a chorar e nunca conseguia estar sozinha. No fundo ela sentia que aquilo tinha acontecido por causa dela", conta a mãe da vítima, Maria Lúcia.

Leonardo foi apanhado por populares em Junho de 2001 após ter tentado violar uma menina em Rio Tinto, no Porto. Na altura o povo entregou-o às autoridades, mas foi libertado. Num dos dias seguintes violou mais uma menina. Acabou por ser preso quando as autoridades o conseguiram ligar às trinta queixas já existentes na altura. A pouco e pouco foram surgindo mais vítimas. Quarenta no total. A maioria delas reconheceu Leonardo, muitos abusos foram confirmados com exames de ADN aos vestígios que o predador sexual deixou nas roupas das crianças.

Seguiu-se o julgamento e o pesadelo das vítimas voltou. Amedrontadas, as crianças iam entrando na sala do tribunal de Santa Maria da Feira e uma a uma relatavam os abusos de que tinham sido alvo.

"Nunca me vou esquecer da primeira vítima. Era uma jovem que foi abusada quando tinha 14 anos e na altura do julgamento já andava na faculdade. Fez queixa contra o Leonardo após o ver a ser preso na televisão. Já se tinham passado alguns anos e ela ainda continuava a sofrer, chorava imenso", recorda o juiz António Coelho, que presidiu ao julgamento.

O caso de Leonardo foi o primeiro grande processo de abusos sexuais que o magistrado teve em mãos. Recorda um homem apático, totalmente alheio ao que se passava na sala de audiências. "Parecia que nada daquilo era com ele. As crianças estavam visivelmente traumatizadas, muitas delas nem conseguiram testemunhar na presença dele", recorda.

O dia em que António Coelho aplicou 25 anos de prisão a Leonardo ficou para a história da justiça portuguesa. Foi a primeira vez que um violador foi condenado à pena máxima. "Quando vimos todas aquelas crianças a aparecerem percebemos que a pena ia ser pesada. A certa altura sentimos que merecia a pena máxima", conclui o juiz.

Embora preso, Leonardo ainda continua a aterrorizar as vítimas. Aparece nos seus sonhos, relembrando-lhes a dor que um dia lhes causou.

NOTAS

84 CRIMES

Leonardo Moreira foi condenado por 84 crimes de violação, rapto, sequestro, ameaça e abuso sexual.

FILHOS

O violador tem quatro filhos, mas apenas a mais nova o visita com alguma frequência na cadeia.

APOIO

As quarenta vítimas de Leonardo tiveram que receber apoio psicológico durante muitos anos. Algumas nunca recuperaram.

MEDO

Durante o julgamento, as vítimas tinham muito medo de que Leonardo saísse em liberdade e que voltasse a persegui-las.

Ver comentários