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Correio da Manhã

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O primeiro fotógrafo dos U2

Há 26 anos, um jovem fotógrafo inglês partiu para a Irlanda com uma missão: captar a alma dos U2, então desconhecidos de quase toda a gente. Nunca pensou que as imagens, como a banda, se pudessem tornar tão importantes.
14 de Agosto de 2005 às 00:00
Tinha 19 anos quando o editor do jornal inglês especializado em música ‘New Musical Express’ lhe ligou: “Olá, é só para dizer que vais à República da Irlanda com o Paul Morley, para fazerem um artigo sobre os U2.” David Corio nem pensou duas vezes. Fez a mala, pegou no material fotográfico e partiu, sem jamais imaginar que iria registar para a eternidade as imagens do início da carreira de quatro adolescentes de Dublin, desconhecidos de toda a gente, que iriam mudar a história do rock. Habituado a fotografar bandas punk, como os Clash ou os Birthday Party, deu de caras com um grupo muito mais calmo, desesperadamente à procura de um contrato discográfico, humilde, sincero, com garra.
Vinte e seis anos depois, David continua num quase anonimato do qual não quer abdicar. Em Nova Iorque, onde mora desde 1992, tem trabalhado com publicações de referência como o ‘New York Times’, a ‘Mojo’ ou o ‘The Times’, entre outras. E a fotografar monstros do reggae ou rockeiros em início de carreira, caso do Kings of Leon. Mas nunca esqueceu aqueles cinco dias entre a capital irlandesa e Cork, quando Bono, Edge, Adam e Larry andavam à procura de um rumo.
Lembra-se do dia em que o mandaram fotografar os U2?
Como se fosse hoje. Tinha 19 anos, estava na profissão há pouco tempo e mandaram-me acompanhar o Paul Morley, do ‘New Musical Express’, à República da Irlanda, para estarmos durante cinco dias com os U2.
Já tinha ouvido falar deles?
Vivia em Londres e, como quase toda a gente, não fazia ideia de quem eram, nem da música que tocavam. Assisti a quatro concertos numa altura em que eles não tinham contrato com uma companhia discográfica, só um ‘single’ gravado com o próprio dinheiro, numa edição de autor. Estavam a tentar tornar-se profissionais e havia um bom grupo de admiradores em Dublin e outro mais pequeno em Cork, mas creio que mesmo nas outras cidades irlandesas ninguém sabia quem eles eram.
Qual foi a primeira impressão com que ficou?
Eram todos muito humildes, bem comportados. Não bebiam, tinham uma atitude muito aberta, fresca, e aquela vontade muito forte de conseguir que alguém de uma editora os ouvisse. O Bono tinha muita energia, um espírito muito entusiástico, estava sempre atento e cheio de garra. Já era a estrela da companhia, o ‘show man’, aquele que todos empurravam para o estrelato.
Ele foi o elemento que mais o surpreendeu?
Creio que sim. Andava sempre a falar do David Bowie, de como ele era genial, da música que fazia, dos álbuns, e até tinha um corte de cabelo a imitá-lo. Parecia um pouco estranho porque em 1979 o punk estava na berra, havia uma série de grupos novos a ocuparem as primeiras páginas dos jornais e o Bowie já era considerado um tipo velho. Acho que a adoração do Bono por ele se prendia com o facto de o glam rock ter sido ouvido até tarde na Irlanda, através de bandas como os T Rex.
Não tinham, então, qualquer noção daquilo em que se iriam tornar, ou mesmo uma meta?
Os U2 mantinham uma certa ingenuidade, eram muito puros em relação ao que sentiam e ao que queriam fazer. A meu ver sentiam-se muito confortáveis com o lugar que ocupavam e não punham a meta de um dia virem a ser a maior banda do mundo. Nem era algo de que precisassem. Estavam apenas a tentar criar uma identidade própria, a construir carreira à volta de umas quantas cidades irlandesas onde pudessem ter um grupo de fãs e a oportunidade de fazerem música. Não acredito que algum deles tivesse sonhado com mais do que isso.
Viviam o espírito punk?
O Adam (Clayton) tinha esse lado descomprometido com tudo, irreverente, mas creio que era o único a entrar na onda. Quando tirei as fotografias lembro-me de que ele quis ficar com o fio de prata ao pescoço, a mostrar uma certa rebeldia, atitude que não era seguida pelos outros elementos. Até então eu tinha captado imagens de gente como os Clash, e havia ali uma distância enorme.
Provavelmente, o Adam sempre foi uma espécie de ‘mau rapaz’ do grupo…
Acho que sim, mas há muito tempo que não oiço falar de sarilhos para o lado dele. Deve estar mais tranquilo, embora em 1979 fosse como hoje: calado, introspectivo, sempre na dele.
Continua a segui-los?
Às vezes sei de umas notícias, vou lendo algumas coisas, mas virei-me muito para o reggae, para o hip hop. Nunca fui de passar longos períodos só com uma banda, e isso até é curioso porque algumas das imagens que fiz deles em 1979 ainda são inéditas.
Acha que perderam a alma, a sinceridade dos primeiros anos?
Não, e embora exista hoje uma enorme distância entre nós é muito provável que mantenham a mesma alma, o mesmo espírito que os tornou especiais. O problema é que hoje estão rodeados por uma máquina infernal, uma empresa que dá de comer a muita gente e os obriga a lidar com tudo e com todos de maneira diferente. De outra forma, mantendo o mesmo conceito inicial, seria impossível chegarem tão longe. Mas a alma, essa, acredito que continue presente, até porque actualmente não é o dinheiro que os move. Basta ver o papel de Bono na luta por melhores condições para o Terceiro Mundo para perceber que os U2 não são iguais às outras bandas.
Voltou a fotografá-los nos anos 90, por altura da ‘Zoo TV Tour’.
Sim, mas em condições completamente diferentes. Em 1979 pude fazer o que queria, fotografar os espectáculos do início ao fim, enquanto nos anos 90 já havia aqueles condicionalismos de só poder acompanhar as três primeiras músicas, de respeitar um protocolo assente nas regras de Paul McGuinness, ‘manager’ da banda. Tornei-me apenas em mais um entre as dezenas de fotógrafos que assistem ao início do concerto e nada mais. Acredito que eles já nem sequer me conheçam.
Por essa altura o Anton Corbijn já era o fotógrafo oficial da banda. É uma boa maneira de viver?!
Acredito que sim, mas tal ideia deixar-me-ia louco. Acompanhar uma banda durante décadas nunca fez parte dos meus planos, e acho que nunca me conseguiria adaptar a um esquema desses. Estar três ou quatro anos com uns quantos elementos até pode ser porreiro, mas mais do que isso torna-se aborrecido, monótono. Prefiro viajar para muitos sítios, fotografar pessoas diferentes, até porque a liberdade de um profissional como o Anton Corbijn é fictícia; há sempre pessoas da editora por perto, há sempre alguém que quer acompanhar as sessões fotográficas, a controlar isto ou aquilo.
Aceitava um novo convite dos U2 para os acompanhar durante uma digressão?
Seria com certeza uma ideia agradável, embora ao fim de alguns concertos pudesse sentir-me saturado. Não sei quanto tempo aguentaria, e tenho a certeza de que eles devem estar muito diferentes daquilo que eram quando os fotografei. Estive num projecto idêntico o ano passado com os Kings of Leon e gostei, até porque foram apenas alguns dias da digressão.
Veio-lhe à memória os dias passados na Irlanda?
Sim, mas com outro tipo de vivência. Os Kings são bons ao vivo mas muito diferentes dos U2, porque quando os conheci já tinham algum relevo aqui nos Estados Unidos, enquanto há 26 anos quase ninguém sabia quem eram aqueles quatro tipos irlandeses que estavam em cima do palco.
Por que é que em 1992 trocou Londres por Nova Iorque?
Havia pouco trabalho em Inglaterra, as coisas estavam mortas, precisava de sair. Como comecei a fotografar muita gente do reggae e do hip hop tive de mudar para Nova Iorque, dado que poucos intérpretes desses estilos musicais costumavam passar por Londres nessa altura. Tinha amigos aqui, a possibilidade de colaborar com o ‘New York Times’, e decidi mudar de ares. Hoje passo muito tempo de um lado para o outro, cruzo o Atlântico várias vezes por ano.
É essa liberdade que o empurra para continuar a ser ‘freelancer’?
Sem dúvida. Sempre quis ser livre, poder fazer um trabalho que me ocupa algum tempo mas que me dá liberdade para tirar duas semanas de férias, viajar, afastar-me algumas vezes dos músicos e de todo aquele mundo que os rodeia. Nos últimos tempos, por exemplo, tenho estado muito na Jamaica a fotografar alguns ‘monstros’ do reggae. É bom que o faça antes deles morrerem, até porque mantém uma pureza de sentimentos, de forma de estar na vida, que me cativa.
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