Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
9

“O problema era quando íamos em coluna”

Sofríamos emboscadas durante o dia e éramos atacados durante a noite. Alguns camaradas ficaram mutilados, mas ninguém morreu
7 de Outubro de 2012 às 15:00
Uma das viaturas que eu conduzia numa ponte em Vila Cabral
Uma das viaturas que eu conduzia numa ponte em Vila Cabral FOTO: Direitos reservados

Já era casado e tinha uma filha de dois anos para criar. Tinha a 4ª classe completa e trabalhava como electricista quando aos 21 anos fui chamado para prestar o serviço militar. Assentei praça em Outubro de 1966 em Coimbra. Era condutor de auto-rodas. Depois fui para o Porto, para a especialidade de Cavalaria 6, mas ao fim de 15 dias fui logo mobilizado.

O meu pai, que era uma pessoa simples, falou com um primo de Salazar para escrever uma carta ao comandante da unidade do Porto a pedir para eu não ir à guerra. Antes de partir para Moçambique, fui chamado ao comandante, que me deu conta de ter recebido a carta, acabando por me dizer "... mas tens mesmo que ir".

Fui para substituir um camarada que tinha sofrido ferimentos e regressado à metrópole. Parti de Lisboa a bordo do navio ‘Pátria’, que não fazia transporte de tropas. Ia eu e mais alguns militares, juntamente com civis. Seguimos para a Madeira, S. Tomé, Luanda, Lobito, Moçâmedes, Lourenço Marques, Beira e Nacala. Aí, fomos de comboio até Nampula.

Foram 30 dias de viagem desde Lisboa até ao interior de Moçambique. Em Nampula, fiquei uns dois meses nos adidos. Depois, segui para Vila Cabral e aí é que começou a guerra para mim.

O nosso trabalho no terreno era abrir estradas, fazer pontes e abastecimentos às nossas tropas. Ao fim de algum tempo, reencontrei em Vila Cabral o camarada que tinha ido render. Ele recuperou dos ferimentos e teve de regressar a Moçambique para acabar a comissão.

EMBOSCADAS E ATAQUES

Uma vez, íamos numa coluna, com sete viaturas, atravessar uma ponte. À frente, ia o nosso comandante, um primeiro-sargento, que ia lançando pedras para detectar alguma mina. Passaram quase todas as viaturas, mas quando passou a última, onde eu ia, uma mina rebentou. A viatura ficou destruída, mas sofremos apenas ferimentos ligeiros. Fiz o resto do caminho na viatura da frente. Na Engenharia, tínhamos de tudo, não faltava nada. O grande problema era quando seguíamos em coluna.


Quando estávamos a fazer pontes, montávamos um acampamento junto às obras, mas o inimigo não nos deixava trabalhar. De dia, sofríamos emboscadas com minas. De noite, éramos atacados a tiro. Numa das vezes, estávamos a sete quilómetros de Nova Coimbra e, para nos protegermos, construíamos barreiras. Fomos atacados, e um camarada ficou com um corte grande num joelho. Também fazíamos abastecimentos. Mas na época de chuvas eram feitos de avião. Por uma teimosia entre comandantes, fomos nós abastecer um batalhão que ficava a 150 quilómetros. Levámos 15 dias para lá chegar, e com menos de metade do abastecimento, porque precisávamos de comer.

Nos últimos tempos, onde rebentavam minas, o inimigo deixava recados aos portugueses: "Vocês andam aqui a lutar e o Salazar e os ministros estão em Lisboa a beber cerveja." Uma vez, encontrámos um inimigo ferido e tratámos dele. Esteve até no hospital, em Vila Cabral. Em troca, ele disse onde estava a base do inimigo, junto a Nova Coimbra. Acabei a comissão sem que nenhum camarada tenha morrido. Fui trabalhar para Nampula e a família também. Regressámos em 1975, mas em 76 ainda voltei para trabalhar como electricista durante dez meses.

PERFIL

Nome: António Patrício

Comissão: Moçambique (1967-1969)

Força: Companhia de Engenharia 1531.

Actualidade: Reformado, 67 anos, casado. Tem uma filha e duas netas. Vive em Coimbra

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)