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O PROFESSOR DE AVEIRO

Nas praias de Aveiro há uma figura incontornável que é um misto de mestre e de ‘bon vivant’, mas que no fundo assume um papel que há 50 anos estava muito em voga e que hoje se extinguiu – o de banheiro. Eduardo Raposo de Sousa, que é apenas conhecido pelo carinhoso nome de Atita, tem 71 anos, 36 vidas salvas, no mar e na Ria de Aveiro, e dois continentes de experiência.
1 de Agosto de 2004 às 00:00
Agora que os nadadores-salvadores substituíram os banheiros - indivíduos que davam banho às crianças (a quem ensinavam a nadar) e ajudavam as senhoras a “molhar o pézinho” - Atita assegura todos os dias parte dessa imagem de há meio século atrás, ou seja, reserva um pedacinho de areal e mar para ensinar os miúdos a nadar e a “mergulhar à tubarão”.
Durante uma a duas horas, de manhã ou de tarde, conforme a disponibilidade, Atita aparece na Praia Velha da Barra, junto à Meia-Laranja, e dispõe-se a ser professor da criançada, dando-lhes ordens de comando na borda da água ou entrando mar dentro para “mostrar como se faz”.
“Já me passaram pelas mãos três gerações de aveirenses, que ensinei a nadar na Ria, no mar e em piscinas, onde ainda hoje dou aulas a uma turma de miúdos e a outra de ‘meninas’ de 70 anos”, salienta. Mesmo assim, e depois de tanto tempo, Atita continua a ter uma máxima que é a sua imagem de marca: “Julgo que tenho 20 anos e por isso ando sempre a cantar e rir.”
Quando se recorda da praia dos anos 50, altura em que era um miúdo enérgico e que “não perdia uma oportunidade para estar metido dentro de água”, Atita sorri e diz: “Era uma alegria. Havia tempo para tudo e o Verão era mais longo, começava logo em Março e só terminava em fins de Setembro, já depois dos lavradores se terem desembaraçado das vindimas”.
Mas naquele tempo havia outra personagem curiosa, para além do banheiro, a percorrer o areal – o que Atita relembra com ar de riso. “Vinham rapazolas de todo o lado, às 6 horas da manhã, para ver as sopeiras, que às primeiras horas da manhã apareciam a molhar os pés, vestidas ainda com a camisa de noite.”
Nos anos 50, as praias da Barra e Costa Nova estavam cheias de famílias - “as senhoras faziam renda, os homens jogavam às cartas e os putos chapinhavam na água” - que vinham a pé e de bicicleta da cidade e das vilas em redor. “As vestimentas daquele tempo já incluíam o calção pelo meio da perna para o homem, mas as senhoras vinham na sua maioria vestidas com fatos de banho até ao joelho”, lembra. Quanto ao farnel, não faltava “a sopinha, o toucinho e chouriço e para beber o garrafão de vinho e os pirulitos (gasosa)”.
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