O QUE É A CASA PIA?

Considerada desde sempre uma instituição exemplar, a Casa Pia de Lisboa vive o período mais negro da sua história desde a fundação, em 1780. Aquilo que era para ser um refúgio acabou como cenário infernal para muitas crianças, vítimas de um pedófilo que por lá andou 30 anos.
28.11.02
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Quase 250 anos depois de Lisboa ter sido atingida por um violento sismo, que provocou milhares de órfãos e levou a rainha D. Maria I a abrir uma instituição de apoio a menores, as alegações de pedofilia que envolvem um funcionário da Casa Pia de Lisboa e centenas de crianças ameaçam tranformar-se no segundo 'tremor de terra' da história de um dos colégios mais conhecidos de Portugal. Considerada desde sempre uma instituição modelar, a Casa Pia de Lisboa conta actualmente com 4600 alunos, dos quais 700 em regime de internato.

Depois de décadas de um regime obsoleto, em que meia centena de crianças partilhavam uma camarata, a Casa Pia dispõe hoje de pequenas unidades no interior dos colégios, lares, cada um com cerca de 20 crianças e sem uniformidade de sexo nem idade. Três monitores acompanham os jovens 24 horas por dia. Além de jardins infantis, pré--primário e ensino básico, a maioria dos estudantes frequenta cursos técnico-profissionais, em áreas tão variadas como a agricultura, animação social, panificação ou metalomecânica. Nos dez estabelecimentos da instituição, todos na zona da Grande Lisboa, funciona ainda o ensino especial, o apoio a surdos e cegos adultos e a formação profissional especial.

Uma variedade que começou a nascer ainda no século XIX, quando a Casa Pia enveredou pela recuperação de surdos-mudos. Até então, a sua principal missão tinha sido o trabalho junto dos jovens necessitados.

Por causa do terramoto

Fundada a 3 de Julho de 1780, no reinado de D. Maria I, pelo intendente de polícia Pina Manique, começou por funcionar no Castelo de S. Jorge, procurando dar resposta à instabilidade social decorrente do terramoto de 1755 – que provocou milhares de órfãos. As invasões francesas representam um período de pausa na actividade da Casa Pia, que, contudo, seria retomada em 1811, já no Convento de Nossa Senhora do Desterro. No século XX, em 1942, a Casa Pia passa a integrar um conjunto de colégios e espalha-se um pouco por toda a cidade de Lisboa. Pina Manique, Maria Pia, Nun'Álvares, Jacob Rodrigues Pereira e Nossa Senhora da Conceição são nomes de estabelecimentos de ensino ligados à Casa Pia.

Com a tarefa de garantir o ensino dos jovens, a instituição conta com mais de mil funcionáros, entre professores, administrativos e auxiliares. Definida como um Instituto Público sob tutela do Ministério da Segurança Social e do Trabalho, a Casa Pia de Lisboa garante 75 por cento do seu orçamento através da Segurança Social. A restante verba resulta da prestação de serviços e da exploração das instalações de que é proprietária, contando-se, entre outras, a Praça de Touros do Campo Pequeno e o bingo das Amoreiras.

‘Casapianos’ famosos: Martins Correia e Hélder Baptista

O termo exacto é ‘casapiano’ e aplica-se a todos os que, no decurso da vida, frequentaram a Casa Pia de Lisboa. Numa lista com milhares de nomes, não é difícil encontrar figuras de relevo, mais ou menos conhecidas, ou ilustres desconhecidos que deixaram obra, como os jovens empreendedores que deitaram mãos ao trabalho e criaram o clube com mais adeptos em Portugal. Cosme Damião, António Zeferino, Francisco Calisto e Vergílio Cunha — os fundadores do Sport Lisboa e Benfica — formavam um grupo ‘casapiano’ que costumava 'parar' nas pastelarias de Belém.

Cosme Damião, de resto, acabou por tornar-se o primeiro capitão da equipa encarnada. A galeria de antigos alunos famosos da Casa Pia de Lisboa inclui ainda um ex-ministro, Maldonado Godelha, um gestor, João Soares Louro, pintores como Domingos Sequeira e Vieira Portuense e os escultores Hélder Baptista e Martins Correia.

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