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Correio da Manhã

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O que faz falta é agitar a malta

Recusam o capitalismo e a globalização. São anti-racistas. São pelos direitos das mulheres e dos imigrantes. São jovens. Estudantes. Actores sem palco. Docentes às vezes. Recusam os partidos. Outros militam. Entendem-se algures, para além da esquerda bem comportada.
6 de Maio de 2007 às 00:00
Parada MayDay, pela primeira vez em Lisboa
Parada MayDay, pela primeira vez em Lisboa FOTO: João Miguel Rodrigues
Diferentes nos modos de acção, partilham as causas do anticapitalismo e do anti-racismo. Enfrentam, nas ruas e nas escolas, a extrema-direita. Quase sempre sem violência. Mas nunca fiando. É bom que os mais aguerridos de um lado e do outro não cheguem a cruzar-se. Ou haverá peleja.
Manuel Baptista é professor de Ciências do Ensino Secundário, tem 52 aos e define-se como anarquista. Só não lhe chamem militante da extrema-esquerda. Porque não é de extrema nem de esquerda, nem de direita e ainda menos do centro. “Os movimentos anarquistas colocaram-se sempre fora do sistema partidário”, explica aos menos atentos.
Filho de um resistente antifascista ligado ao PCP, na adolescência Manuel admirou Lenine, alma da revolução russa e fundador da URSS. Foi sol de pouca dura. “Rapidamente compreendi que esse comunismo não era o meu ideal.” Deu-se a ruptura. Fez trabalho sindical. Desiludiu-se ao constatar que “as pessoas, quando se tornam hierarcas, perdem o sentido político da solidariedade.”
Para o colaborador do jornal anarquista ‘A Batalha’, opor-se à exploração do homem pelo homem implica recusar a autoridade de uns homens sobre os outros e, em consequência, o Estado. É por isso que se considera comunista. E entende que não o são os que se dizem marxistas-leninistas.
Casado e pai, paga os seus impostos, embora gostasse de poder fugir-lhes. Resiste a qualquer forma de Estado – seja “suporte do capitalismo” ou dito “dos trabalhadores” –, mas cumpre as leis que dele emanam. Tem bagagem teórica e experiência de vida suficientes para reconhecer que ser anarquista hoje é “viver em contradição”.
Mesmo insatisfeito, é um libertário cortês e elegante. Tem o sorriso fácil. Não se veste de preto. Não usa gorro passa-montanhas. Não exibe qualquer pin ou bandeira com a primeira letra do alfabeto rasgada dentro de um círculo. Mas partilha com os que assim se apresentam as causas do anticapitalismo e a defesa dos imigrantes. Diz que fazem parte da mesma “galáxia antiautoritária”.
Uma galáxia que integra também astros habitualmente na órbita do Bloco de Esquerda – para Manuel Baptista, “não compreenderam ainda que há um fosso entre marxismo autoritário e marxismo libertário”.
Os astros antiautoritários tornaram-se por estes dias mais luminosos em reacção aos sinais de recrudescimento da extrema-direita em Portugal. Desde a morte, no Bairro Alto, de Alcino Monteiro, às mãos de sete skinheads, a 10 de Junho de 1995, que não se falava e escrevia tanto sobre pessoas que perfilham ideias neo-nazis, entre as quais a supremacia da raça branca. Ter-se considerado, mesmo se no âmbito de um programa de televisão, Oliveira Salazar o maior português de sempre também contribuiu para acicatar os ânimos daqueles cujo coração bate à esquerda. Ou para lá dela.
Tem uma peruca roxa, óculos escuros e piercings nos lábios. De estatura franzina, aparenta cerca de 20 anos. Não fala para a Imprensa, que – acusa – “deturpa a mensagem”. Distribui comunicados. “Todos conhecemos casos de miséria, de injustiça social, de terrorismo policial, estatal ou patronal (...) Mas esses pouco ou nada são divulgados nos media. No entanto, a grupúsculos de extrema-direita que propagam ideias racistas e xenófobas, que defendem ideologias como o fascismo e o nazismo, responsáveis por dezenas de milhões de mortos, é dada publicidade desmedida”. É o que diz o comunicado. Não assinado.
Diz ainda: “Defender a sacrossanta propriedade privada contra os que voluntária ou involuntariamente são colocados à margem do sistema” é a “necessidade histórica do capitalismo”. Para concluir que “a existência de grupos nazis e fascistas e a sua sobrevalorização pelos media distrai-nos dos que são os nossos verdadeiros inimigos: o Estado e o Capital.”
Junto da peruca roxa segue um rapaz com o capuz da camisola cinzenta sobre a cabeça, uma rapariga com rastas e outros dois rapazes. Não integram o cortejo ‘MayDay’ – significa Dia 1 de Maio e ao mesmo tempo um pedido de socorro usado pelos aviadores, que se supõe derivar da expressão francesa “m’aidez”, em português “ajudem-me”.
O grupo mantém a distância em relação à cauda da comitiva dos trabalhadores precários e intermitentes do espectáculo que, após o pic-nic vegetariano, abandona a Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa, em direcção ao Estádio 1.º de Maio, onde vai juntar-se à manifestação da GCPT-IN, sob o olhar vigilante da Polícia, que não intervém.
Não foi assim no 25 de Abril, quando se celebrou o 33.º aniversário do “dia inicial, inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio” – como deixou escrito Sophia de Mello Breyner.
"ENCURRALARAM-NOS"
“Eles encurralaram-nos!” Eles são os agentes do Corpo de Intervenção da PSP e quem os acusa de terem recorrido a uma táctica usada contra os estudantes que se manifestavam contra o regime de Salazar e depois de Caetano é ‘Mário’, 30 anos, intermitente do espectáculo - às vezes trabalha, às vezes não.
‘Mário’ foi objector de consciência quando o serviço militar era obrigatório. Nunca votou. Habitou casas ocupadas em Portugal e passou por outras no estrangeiro, mas não lhe faltou o apoio do pai, académico, em períodos difíceis. Diz não ter partido nada. Não ter agredido ninguém na zona da Baixa/Chiado. Está assustado. “Eles encurralaram-nos!” Nem mais uma palavra. Nenhum comentário ou explicação sobre três ‘cockaitls molotov’ que a PSP diz ter apreendido. Nem sobre os mastros de metal, a substituir a madeira, das bandeiras negras.
Foi uma “manifestação antiautoritária, anticapitalista e antifascista”, não autorizada, que, a seguir às comemorações populares do 25 de Abril, partiu da Praça da Figueira em direcção ao Largo do Camões. Havia gente de cara tapada e vestida de preto, com o visual e comportamento associados ao ‘black block’ (ver caixa). Havia cães sem trela – alguns entre os anarcas são simpatizantes da Animal Liberation Front, organizada em células para o resgate, se necessário violento, de animais sujeitos a experiências científicas.
O relato de alguém que se intitula sub camarada Campos – o culto da clandestinidade entre os anarquista é evidente – encontra-se em blogues ligados à causa anticapitalista. “Ao longo do percurso foram pintadas frases na parede e atiradas algumas lâmpadas com tinta a vidros de lojas e bancos. Ninguém partiu montras.”
As frases ainda lá estão: “Eras um homem, agora és um polícia”; “O 25 de Abril passou mas a lei do bastão continua.” Os agentes do Corpo de Intervenção carregaram sobre quem se arriscou a voltar para trás, endireitando à sede, na rua da Prata, do Partido Nacional Renovador (PNR), de extrema-direita.
Sofia Roque, 24 anos, aluna de Filosofia combateu os neonazis com todas as suas forças de mulher delicada. O cenário da peleja foi a Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, disputada por uma lista com elementos da extrema-direita. Não foram além dos 81 votos. Ganhou, com 818, a lista U, supostamente afecta à JCP. Nem por isso Sofia, com um caracol louro de cada lado do rosto, mais compridos do que o restante cabelo, descansa: “Desta vez tiveram o dobro dos votos.”
Não aparenta 24 anos. Desde os 16 que se empenha na defesa das ideias tradicionalmente associadas à esquerda: direitos das mulheres e dos imigrantes, anticapitalismo e antiglobalização.
Neste momento milita no Bloco. Reparte-se entre os estudos, o trabalho, “precário”, numa livraria e o activismo. Reside na casa dos pais. “Pertenço à geração dos 500 euros.” Refere-se a uma geração qualificada, diplomada, pós-graduada, que salta de emprego em emprego, normalmente assinando recibos verdes. Em Espanha chamam-lhes mileuristas. Em Portugal não ganham nem metade.
Sofia participou no desfile ‘MayDay – o Precariado Rebela-se’ e, dias antes, na manifestação do 25 de Abril ao longo da Avenida da Liberdade. Deu pelos tomates deixados ao pé do cartaz do PNR, protegido pela Polícia, em que se apela ao regresso dos imigrantes. Mas não teve tempo de pegar num e lançá-lo. O anticapitalismo e o anti-racismo que preconiza são “festivos”. Não violentos. “Isso são generalizações permitidas pelos media.”
"ESPERO QUE PASSE"
“Espero que a moda passe” Vítor Ferreira, 20 anos, refere-se à “moda” de adoptar ideais e posturas da extrema-direita. Sinal de que a maré está a mudar é – assegura – o resultado do referendo sobre a despenalização do aborto. Fala calmamente. Não tem a resposta na ponta da língua. Franze a testa como se isso o ajudasse a reflectir ou então é por causa do sol, descoberto pelo movimento de uma nuvem. Traz uma t-shirt verde onde pode ler-se ‘sun block’ – significa protector solar mas, à letra, lê -se ‘bloco solar’. Indirecta para os ‘black block’? Vítor não se identifica com os anarquistas, mas partilha as causas do anticapitalismo e do anti-racismo. Não perde tempo a falar sobre os nacionalistas. “Tem-se dado demasiada visibilidade a essas pessoas.”
Veio do Porto para estudar Medicina. No futuro espera não tratar só os endinheirados. “Não acabam com o Serviço Nacional de Saúde!” Mesmo então não se zanga. É o rosto da esquerda tranquila.
PRECÁRIOS DO MUNDO...
“Mayday, mayday” é um pedido de socorro usado pelos aviadores aflitos. Os trabalhadores precários não pilotam aviões desgovernados, mas sentem-se quase tão ansiosos acerca do futuro como aqueles. MayDay significa também Dia 1 de Maio e, no caso, reporta-se a uma parada de trabalhadores sem vínculo laboral simultânea em vários países do Mundo. Iniciou-se em Milão em 2002 e este ano realizou-se pela primeira vez em Lisboa. Operadores de call center, bolseiros de investigação científica, artistas e estudantes universitários rebelaram-se contra “a promessa de um futuro de exploração selvagem, sem direitos ou qualquer espaço para os exigir”. Um dos manifestantes contava que se os asmáticos são um milhão, os precários são muito mais e “o pior é que há precários asmáticos”. Mas não lhes falta criatividade.
"POLÍTICA É MAIS DO QUE IR VOTAR"
Os pais de Sofia Roque, 24 anos, militante do Bloco de Esquerda, “são politizados na medida em que a maioria dos portugueses é politizada, ou seja, votam quando há eleições”. Para esta estudante de Filosofia, não é suficiente. Sofia começou aos 16 anos a empenhar-se na denúncia do capitalismo, da discriminação das mulheres e dos imigrantes. “Foi o resultado de uma reflexão própria de que a política havia de ser mais do que votar nas eleições.” Na altura estudante do Ensino Secundário, tinha, além disso, “algo a dizer sobre a maneira como funcionava a escola”. Desenvolveu consciência política e dirigiu-a para a acção, depois também na Universidade.
Nasceu nove anos depois do 25 de Abril. Não sentiu a ditadura na pele, mas entristece-a o “branqueamento” da sua figura maior – Oliveira Salazar.
FRASES ANARCAS
- Ruim por ruim, votem em mim [no Galo de Barcelos]
- O MRPP é a vanguarda da classe operária. Está tão à frente que a classe operária não consegue apanhá-lo.
- Eu trabalho. Tu suas. Ele engorda.
- O nosso trabalho é o negócio (sobre a Polícia)
- em 1976 era... A terra a quem a trabalha, mortos fora dos cemitérios já!
TÁCTICA 'BLACK BLOCK' TAMBÉM EM LISBOA
Chamam-lhe ‘black block’ (bloco negro). É um pequeno grupo de activistas, entre três e 20, que se reúne em acções de protesto e manifestações anticapitalistas ou antiglobalização. Os elementos vestem-se de preto e tapam a cara – assim aparentam coesão, remetem para iconografia da acção revolucionária e evitam que a polícia os identifique. Confundido muitas vezes com uma organização internacional, o ‘black block’ é de facto uma táctica usada por alguns manifestantes.
Quando há destruição de propriedade, os ataques dirigem-se a bancos, edifícios do Estado, lojas de multinacionais, estações de abastecimento de gasolina e instalações de videovigilância. Em Portugal, os movimentos antiglobalização e anarquistas não representaram, em 2006, preocupação para o Serviço de Informações de Segurança (SIS), mais inquieto com os grupos neonazis. “São um risco efectivo para a segurança interna no tocante ao incitamento e promoção da violência política e racial.”
O ‘black blocK’ não é uma organização internacional, mas isso não significa que os activistas mais radicais não colaborem. Na manifestação contra o fascismo e o capitalismo de 25 de Abril estiveram presentes belgas, espanhóis e irlandeses.
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