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O rap joga às damas

Betos, dreads, freaks. Ricos, pobres e remediados. Casas com piscina e bairros sociais. Bete nunca teve preconceitos na eleição dos amigos. A lição ajudou a vencer barreiras num mundo de homens, que parece mais feito para wrestling do que para jogos de paciência. Rapariga a cantar temas de amor? Coisa de menina, sentenciavam. Artista debaixo da alçada de uma editora grande? Vendida, acusavam. Bete, que cresceu e virou ‘Dama’, dispensou os prefixos ‘Lady’ ou ‘Miss’ para responder à letra e à rima quando o hip hop se agarra ao microfone para arrebatar a plateia.
20 de Julho de 2008 às 00:00
O rap joga às damas
O rap joga às damas FOTO: Tiago Sousa Dias

A primeira rapper portuguesa a assinar por uma major, a Universal, que apresentou ‘De Igual para Igual’, o seu primeiro álbum na quarta-feira (ver caixa) engana. Fora do palco, a voz de Elizabete Oliveira, 23 anos, é tão franzina como o corpo. Na hora H, o pulmão incha e a garganta explica porque é que a menina tem tudo para virar caso sério da música. 'Sou mais artista de palco. Sempre achei o estúdio cansativo. Ali é o que sai no momento, soltamos todo o stress'. Antes, nem falem com ela, fica 'na lua', lua cheia de silêncio e introspecção. Depois, desaparece o nervoso com o alinhamento, que a MC, ou Mestre de Cerimónias, é perita nestas lides.

Começou a cantar aos 12/13 anos, nas Blacksystem, 'cinco raparigas que chegaram para arrasar', grupo que até hoje a acompanha. 'Gravávamos músicas do Top e fazíamos covers, como das All Saints'. No tempo que a MTV era uma miragem, encetaram os ensaios, mas cedo chegou o fastio. 'Não tinha piada cantar as coisas dos outros', justifica.

Bete nasceu em Moçambique, de onde saiu para Portugal com dois anos. Cresceu na Parede, onde ainda vive. Nunca voltou a África, apesar dos olhos se perderem no desejo da visita. 'Gostava de lá ir'. Tem seis irmãos. O rapper Hélder, ou ‘Macaco Simão’ foi influência certa para a mana mais nova. 'Eu roubava a instrumental dele. Gravava na aparelhagem em casa. Depois apareceram os computadores'. Tudo mudou quando o Pentium 133 deu um ar de sua graça tecnológica.

Aos 15 anos a música cresce em seriedade e urgência. 'Foi quando comecei a pisar o palco'. Os estudos guiaram-na para Ciências mas a desistência estava anunciada. 'Sempre andei muito perdida. Fui para esta área por influência do psicólogo da escola'. Na faculdade percebeu que há defeitos virtuosos. 'Fui mais teimosa'. Trilhou Cinema mas saiu a meio do filme. 'Um amigo falou-me então do curso de Gestão do Lazer e Animação Turística'. Seguiu certinha até ao fim mas não tardou a trocar o rappel e a escalada pela prioridade da música e pela produção de eventos, como as festas ‘Hip Hop Ladies’, pioneiras em Portugal.

A vida, como o seu rap, que vai descruzando os braços entediados das plateias mais amorfas, é feita de ciclos. 'Já não estou numa fase de revolta, como na ‘Cala-te’ (uma das faixas), mas se calhar vai voltar.'

'SÓ HÁ UMAS CINCO RAPPERS. SE CALHAR VOU ABRIR PORTAS A OUTRAS RAPARIGAS'

A ‘Dama’ ouve de tudo. De Royksop a Lauren Hill, de Telepopmusic a Michael Jackson. E veste de tudo. Sem o imperativo de responder ao dress code da cultura Hip Hop. 'Sigo as tendências'. Também escreve de tudo. 'Às vezes passo os dias a escrever, em outras fases não consigo. A inspiração vem de conhecer músicas novas. É mais fácil escrever sobre mim'. Acusaram-na de copiar Lady Sovereign mas hoje 'já não dizem isso'. Fã dos portugueses Sam the Kid, de Valete ou SP & Wilson, Bete tem ‘Definição de Amor’ ou ‘Cala-te’ como temas de avanço do disco ‘De Igual para Igual’, com o selo da Universal, que conta com as participações de Melo D, Lindu Mona ou Terrakota. Bete, que também integra a equipa de produção de um festival de música lusófona, espera desbravar terreno para futuras aventureiras. 'Neste momento, que cheguem até mim com um trabalho contínuo, só há umas cinco rappers. Se calhar, ao assinar por uma editora grande, vou abrir portas a outras raparigas'. O irmão, Hélder, ajudou a produzir o álbum, juntamente com Adam Pendse, co-produtor de Sovereign. Em palco, com alma soul, estão as inseparáveis Blacksystem. Na bateria, Zeze Ngandi, no baixo Nandocas, na guitarra Luís Fagulha e no sampler, na última quarta-feira, a 'disparar', esteve a irmã, Ana.

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