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O raro amor pela liberdade

A essência do totalitarismo é a conversão dos cidadãos em crianças obedientes, sob pena de um castigo exemplar
João Pereira Coutinho 6 de Outubro de 2019 às 08:00
O raro amor pela liberdade
O raro amor pela liberdade

A noção de que existe em todos os seres humanos uma paixão pela liberdade pode convencer os mais puros. Nunca me convenceu a mim. Entre a liberdade e a segurança, talvez a segurança seja mais importante para a maioria. Não é um juízo de valor. É apenas a conclusão melancólica de que Hobbes tinha mais razão do que Rousseau.

E se assim é em tempos normais, o que dizer em tempos de ditadura brutal, como na União Soviética? Nunca me passaria pela cabeça julgar, muito menos condenar, aqueles que "aceitaram" a servidão.

Até porque "aceitar" não é a palavra certa: quando estamos nas mãos de gangsters, a filosofia vale-nos de pouco. Mas também confesso que sinto uma admiração maior por aqueles que, mesmo em tempos sombrios, mantiveram esse amor (raro) pela liberdade. E que agiram em conformidade.

Rudolf Nureyev é um bom exemplo: em 1961, quando a companhia Kirov fazia a sua digressão por França, o bailarino decidiu pedir asilo político em pleno aeroporto, momentos antes de embarcar para Moscovo. O filme de Ralph Fiennes, com a habitual competência BBC, explica-nos esse gesto ao reconstruir a personalidade e o quotidiano de Nureyev.

A personalidade é marcada pela rebeldia intrínseca de quem não aceitava a tirania das regras: as regras da arte e as regras do Estado. Porque as regras do Estado intrometiam-se nos gestos mais anódinos do quotidiano – como poder ver Paris, visitar um museu, jantar até tarde com os amigos. Eis a essência do totalitarismo: a conversão dos cidadãos em crianças obedientes, sob pena de um castigo exemplar. 

Razão tinha Stendhal quando escrevia que a pior coisa de viver numa prisão era não poder trancar a porta. Curiosamente, o filme termina com portas: duas. De um lado, a porta da servidão; do outro, a porta da liberdade, mesmo que essa liberdade viesse com um preço altíssimo – o abandono do país e da família. É o melhor momento deste ‘Corvo Branco’ porque só aí entendemos como as coisas que damos por adquiridas – como   circular   livremente – podem ter contornos tão trágicos.

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