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“O reflexo dos barcos denunciou-nos”

Na única vez que participei numa operação, fomos emboscados. O alferes levou um tiro, ficou com uma bala alojada junto do coração
2 de Outubro de 2011 às 00:00
Convívio entre militares num almoço feito numa panela que era metade de um bidão. Improvisava-se para se conseguir alguns momentos de lazer
Convívio entre militares num almoço feito numa panela que era metade de um bidão. Improvisava-se para se conseguir alguns momentos de lazer FOTO: Direitos reservados

Fiquei triste, primeiro, por deixar a família, a 28 de Março de 1968. E, depois, ao chegar a Luanda. Pairava a incerteza do que nos ia acontecer. Tive medo. Metade da minha comissão passei-a no Leste de Angola, na localidade de Luacano. Na segunda metade fui para a zona da Diamang, a companhia de diamantes.

O aquartelamento de Luacano era das coisas mais rudimentares. Toda a localidade estava cercada por arame farpado. E nós dormíamos em tendas, enquanto construíamos o nosso quartel: barracões de madeira.

Fui um felizardo. Sendo um soldado de transmissões e condutor-auto, fui instalado a cerca de um quilómetro deste aquartelamento, numa casa ‘normal’, onde estava o comandante, a secretaria e as transmissões.

A minha função principal era dar formação aos milicianos – eles não estavam preparados para a guerra, vinham das cubatas e eu ensinava-os a mexer numa arma, a reagir a emboscadas. Além disso, como eu tinha sido professor de Educação Física, em Lisboa, dava também aulas de ginástica aos filhos dos civis e a algumas crianças negras que vinham das sanzalas. Organizámos um sarau de ginástica inédito em Luacano, ao qual compareceu o bispo do Luso.

Tenho uma educação extrema. E talvez por isso eu tivesse também a missão de ser uma espécie de relações públicas entre o meu comandante de companhia e as autoridades administrativas locais.

Por esta altura ia escrevendo à família. Contava que me sentia bem. Eu não era um operacional, tinha tarefas diferentes dos meus camaradas. Entretanto, a namorada que tinha deixado em Portugal não quis esperar por mim. Casou-se.

CAMARADAS FERIDOS

Pedi ao comandante para ter a experiência de ir para o mato. E na única vez em que participei numa operação, fomos emboscados. Estávamos a atravessar o rio Cassai. O reflexo do alumínio dos barcos denunciou-nos. Fomos atacados.

Eu resguardei-me do tiroteio e quando quis transmitir ao comandante da companhia o que se estava a passar, engasguei--me. Estava tão nervoso que mal conseguia falar. Fiquei desorientado, mas os meus camaradas, como eram mais experientes, mantiveram-se calmos.

O alferes ficou gravemente ferido. Levou um tiro. Ficou com a bala alojada junto do coração. Houve um rapaz muito alto, o Paulo, que também levou um tiro, num pé.

Fomos também atacados no quartel de Luacano, duas ou três vezes. Só não fomos mais massacrados devido à inteligência e à coragem do comandante de companhia. Jamais esquecerei as suas palavras: "Quero levar para Portugal todos quantos trouxe para Angola".

Infelizmente, ele foi ferido pelo rebentamento de uma mina debaixo do carro onde seguia, em Chimbila. Ficou muito maltratado mas sobreviveu. Veio para Lisboa e outro capitão substituiu-o. Só que ficou também ferido com o rebentamento de uma mina. Repetiu-se a tragédia naquele local e com isto outro capitão o substituiu.

Em Luacano bebíamos uns copitos na única taberna que havia. Mas quando me mudei para a zona da Diamang, todas as noites, alguns de nós, já íamos ao café. Havia mais raparigas e rapazes lá. Não era difícil arranjar uma namorada. E para mim era mais fácil , por ser professor de ginástica. Mas nunca me apaixonei verdadeiramente.

Não tenho traumas, mas também não tenho saudades da tropa. Em 1970, quando regressei a Lisboa, comecei a namorar e casei. Em 1973 regressei a Angola, mas desta vez para trabalhar na Diamang. Fui mineiro. Fiquei lá até à independência.

PERFIL

Nome: João Carmo

Comissão: Angola (1968/1970)

Força: Companhia de Caçadores 2361

Actualidade: 69 anos, reformado da construção civil nos EUA, vive em Carregal do Sal

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