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O regresso do sarampo

Dada como erradicada, esta doença altamente contagiosa está a voltar. E em força.
Isabel Lacerda 22 de Fevereiro de 2015 às 12:00
Surto de sarampo obrigou a campanha. Até o presidente Obama apelou à vacinação
Surto de sarampo obrigou a campanha. Até o presidente Obama apelou à vacinação FOTO: D.R.

A rapariga esteve na Disneylândia até 28 de dezembro. O dia é importante, já se perceberá porquê. A 29 de dezembro, a jovem na casa dos 20 anos, viajou para Seattle, no estado de Washington. Passou o réveillon com familiares e regressou à Califórnia a 3 de janeiro. Começou a sentir-se mal. Cinco dias depois soube o que tinha: sarampo. Na véspera, as autoridades de saúde da Califórnia tinham anunciado o surto da doença que começara no fim de dezembro, precisamente na Disneylândia.

A 28 de dezembro, calcula-se, foi o dia em que esta doente entrou na fase de contágio, antes de circular por dois aeroportos e embarcar em dois voos. É praticamente certo que tenha sido ela a alastrar a doença para o estado de Washington.

No dia 7 de janeiro, quando foi anunciado o surto, havia sete casos conhecidos (incluindo dois bebés com menos de um ano). Todos tinham estado na Disney. No dia 23 de janeiro já havia 78 e uma semana depois mais de 100 (o número entretanto parece ter estabilizado abaixo dos 120) em 14 estados. Isto significa que num mês houve quase um sexto de todos os casos registados em 2014 (644). E o ano passado teve dez vezes mais casos do que a média desde o ano 2000 (60).

ANTIVACINAÇÃO

O que se passa é que o movimento antivacinação, em especial no que se refere ao sarampo, está a crescer. Isto depois de em 1998 uma investigação médica ter relacionado esta vacina e o autismo. O número de pais que passou a considerar menos arriscado sujeitar as crianças ao sarampo do que ao autismo disparou. Até porque no ano 2000 a doença foi dada como erradicada nos Estados Unidos – em Portugal é considerada extinta desde 2004 e a Organização Mundial de Saúde (OMS) refere uma taxa de vacinação de 98 por cento.

Tudo isto fez relançar o debate. Será um direito dos pais não vacinar os filhos, mesmo sabendo que isso coloca em risco os filhos dos outros? Os argumentos voltaram a ser debatidos. Mas há um pequeno pormenor que parece deitar por terra as principais justificações da comunidade "anti-vaxxer": o estudo que relacionava a vacina do sarampo e o autismo é uma fraude.

Anos depois de ter sido publicado soube-se que o principal investigador tinha sido pago por uma empresa que tencionava processar as farmacêuticas e que ele próprio patenteara outra vacina, supostamente mais segura, que pretenderia comercializar. Mais: o estudo baseara-se em apenas 12 casos e todos tinham sido adulterados ou enviesados. Os coautores retiraram os nomes do trabalho. O líder da investigação, Andrew Wakefield, perdeu a licença médica. Só que as dúvidas que lançou permaneceram. Mesmo que haja dezenas de outras investigações a provar que não há relação alguma entre vacinação e autismo.

A vacina do sarampo (administrada em conjunto com a da papeira e a da rubéola, aplicada desde 1963 nos EUA e em Portugal desde 1973) é administrada entre os 12 e os 15 meses. A primeira dose confere entre 87 por cento e 95 por cento de proteção. A segunda toma, entre os 5 e os 6 anos, aumenta para 99 por cento a imunidade.

De acordo com o Centro de Controlo de Doenças dos EUA, na década de 1960, antes da introdução da vacina, havia entre três e quatro milhões de casos de sarampo por ano no país, que resultavam em cerca 500 mortes.

O sarampo é um vírus altamente resistente – mantém-se vivo até duas horas –, e extremamente contagioso – transmite-se pelo ar e infeta nove em cada 10 pessoas não imunizadas com quem se cruza: é mais contagioso do que a gripe das aves, o HIV e dez vezes mais do que ébola. Não admira que até o presidente americano, Barack Obama, tenha aparecido a apelar à vacinação.

Este vírus, com um período de incubação de 10 a 12 dias, provoca febres altas, tosse, garganta irritada, olhos inflamados, diarreia, vómitos e erupção cutânea por todo o corpo. Os sintomas podem manter-se por semanas. Como na gripe, não há nada que se possa fazer a não ser manter a hidratação e atenuar o mal-estar com analgésicos e antipiréticos.

CONSEQUÊNCIAS

Mas, pior do que a doença, são as possíveis consequências. O sarampo pode causar pneumonia, surdez, cegueira, encefalite e lesões cerebrais permanentes: um em cada três doentes desenvolve uma destas complicações. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, é uma das doenças infantis mais mortais. Em 2013 matou mais de 145 mil pessoas em todo o Mundo, a maioria crianças com menos de 5 anos, o que dá uma média de 400 por dia, 16 por hora. Antes da generalização da vacina, matava 2,6 milhões de pessoas por ano (300 por hora).

Não é de admirar que desde o dia 7 de dezembro o recente surto se mantenha assunto nacional nos Estados Unidos, das rádios às televisões, dos jornais à internet. É que não há cura para o sarampo. Apenas prevenção: chama-se vacina.

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