O regresso do velho inimigo

Os lobos estão de volta à Beira Interior. Ataques a rebanhos fazem renascer mitos e temores sobre um animal maldito.
31.03.13
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O regresso do velho inimigo
Carlos Alberto Cabral foi atacado por lobos há 20 anos Foto João Cortesão

Diz o criador de gado Manuel Cunha que "todos os animais têm direito à vida". Mas se acaso vir um lobo a rondar o seu gado, a resposta será imediata: "Chumbada nele". O pastor Luís Amândio, que perdeu quatro ovelhas nos dentes dos lobos, também não hesita: "Os lobos são a pior coisa que há". Outro colega de pastoreio, Luís Paulo, ainda de coração embargado pela perda de 20 animais, não percebe "Qual é o interesse de proteger um animal que só destrói". E a presidente da Junta de Freguesia do Azinhal, Maria Odete Caramelo dá voz à desconfiança sentida por muitos dos que vivem em Almeida: "Eles andam por aí em carrinhas a largar lobos nos campos", diz com convicção.

O INIMIGO MÍTICO

A bióloga Clara Espírito Santo está do lado do ‘Eles’. Integra o projeto ‘Life Med-Wolf’ a decorrer em Itália e Portugal em simultâneo. A equipa está em Almeida desde o último verão (e em mais seis concelhos dos distritos da Guarda e Castelo Branco) para estudar o regresso do lobo-ibérico a uma região que já não via estes animais há décadas. Além do conhecimento sobre a espécie, outro objetivo dos cientistas é avaliar o grau de conhecimento das populações acerca do lobo e ajudar a desmontar mitos e falsidades sobre o predador. Um trabalho nada fácil, porque o regresso do lobo teve o condão de despertar velhos temores.

"Surpreende-me como as pessoas têm uma ideia tão negativa do lobo, mesmo os mais novos, que era suposto estarem mais informados. O lobo é malvisto, seja pelos prejuízos que causa, seja pelo medo que desperta, apesar de não haver registos de qualquer ataque a humanos em Portugal", explica Clara Espírito Santo, que enfrenta diariamente convicções que raramente coincidem com a realidade. "As pessoas acham que o lobo não vive na mesma área do javali, mas a verdade é que o lobo come javalis juvenis. E há quem ignore que o lobo foge do ser humano, depois de séculos de perseguição. O lobo até passou a caçar de noite para evitar contactos", exemplifica a bióloga.

Crendices à parte, é inquestionável que, nos últimos meses, se sucedem os casos de ataques de lobos. Luís Paulo, pastor da aldeia de Senouras (assim mesmo, com ‘s’) perdeu 20 ovelhas numa única noite. Foi há três semanas. "As ovelhas estavam todas furadas, outras tinham a barriga esventrada. Foi uma coisa horrível, tinha-as deixado numa cerca ao pé da aldeia e dei com os animais mortos no dia seguinte. Tive um prejuízo de 1500 euros. Chamei cá as pessoas do parque, mas não sei se vou receber alguma coisa."

Luís Amândio, outro pastor da região que tem a seu cargo mais de 600 ovelhas, perdeu quatro animais no verão e atribui as culpas "aos lobos que andam aí a espalhar". Não é o único a pensar assim. Muitos pastores e criadores de gado acreditam que os lobos que têm sido vistos em Almeida foram trazidos por pessoas que os largaram nos campos, com o objetivo de restabelecer uma população selvagem.


PREDADORES EM VIAGEM

"A verdade é que ninguém sabe de onde vêm estes animais. O que está a acontecer em Almeida e nos concelhos vizinhos é uma reocupação natural do lobo de um território que já foi o seu há várias décadas. Os lobos ocupam terrenos vazios, onde não entrem em conflito com uns com os outros. Hoje, os campos estão vazios de pessoas e cresceram as populações de javali e de corso. O que os torna apetecíveis para os lobos. Se atacam rebanhos é porque os lobos são oportunistas. As pessoas perderam o hábito de guardar os animais à noite ou de deixar cães de guarda nos rebanhos. As ovelhas, cabras e vitelos são alvos fáceis para o lobo. Este predador chega a percorrer 40 km numa noite, pelo que é difícil perceber de onde vêm", explica Clara Espírito Santo, que anda a percorrer as aldeias de Almeida a fazer inquéritos sobre os conhecimentos que as pessoas têm do lobo-ibérico. Outros colegas andam no terreno a procurar pistas sobre quantos são e onde estão os lobos. Já foram fotografados animais com câmaras de infravermelhos, mas ainda há mais perguntas do que respostas.

Na aldeia do Azinhal, os lobos eram, até há bem pouco tempo, uma memória remota dos tempos de juventude da maioria dos habitantes. Carlos Cabral, de 50 anos, conta uma história com duas décadas: "Vinha com o meu rebanho de ovelhas pelo campo, já seria meia-noite. Comecei a ouvir os lobos a uivar ali perto. De repente vejo um lobo a morder uma borrega pelo pescoço. Bati-lhe com um cajado no pescoço e ele virou-se a mim. Rasgou-me a camisola com as unhas e se não fosse uma cadela minha a ter-se atirado ao lobo tinha morrido ali", conta. Durante anos, Carlos nunca mais ouviu os lobos, nem deu pela sua presença. Mas há três semanas perdeu três cabras que tinham ficado num lameiro. "Os lobos estão de volta."

A presidente da Junta de Freguesia, Maria Odete Caramelo, confirma que tem ouvido vários relatos de ataques de lobos. Episódios que a lembram do passado. "Quando eu era criança contavam-se histórias de ataques a pessoas. Tinha muito medo de ir ao campo à noite."

Os pastores e criadores de gado sabem que devem chamar os técnicos da Reserva da Malcata quando os seus animais forem atacados. Caso se confirme terem sido vítimas dos lobos, o Estado paga uma indemnização por cada cabeça perdida. Mas Manuel Cunha, de 54 anos e conhecido como ‘Jordão’, criador de gado da aldeia de Batoca, queixa-se dos valores pagos. "Há meses o meu rebanho de ovelhas foi atacado. Tinha 115 cabeças, fiquei com 56. Pagaram-me 70 euros por cada animal, mas valiam quase o dobro." Manuel não se opõe à presença de lobos, mas quer que o Estado "assuma os prejuízos que eles causam". E diz que não hesitará em abater um lobo se o vir perto dos seus animais. "Quem quer os bichos à solta tem de se responsabilizar por eles."

CAUTELAS ESQUECIDAS

Clara Espírito Santo avisa que é tempo de quem cuida do gado retomar cautelas de outros tempos. "Antigamente, as pessoas tinham bons cães de guarda, de raças como a Serra da Estrela, que protegiam os rebanhos. O nosso projeto pretende dar estes cães a quem os queira." Apesar da confessa hostilidade aos lobos, o pastor Luís Amândio, de 40 anos, apressa-se a dizer à bióloga que está interessado em receber um desses cães. "Ouvi o meu avô e o meu pai contar histórias do lobos, mas eu nunca vi nenhum." Agora, ainda que continue a não os ver, sabe que andam por ali. Se os homens partiram para longe, deixando os campos ao abandono, os lobos voltam para ocupar um lugar que já foi o seu.


PROJETO DE ESTUDO DOS LOBOS DURA ATÉ 2017

Os primeiros relatos do regresso do lobo-ibérico à Beira Interior apareceram há cerca de quatro anos. Em 2011, a Fundação Vox Populi, de Almeida, começou a patrocinar estudos científicos na região, que seriam depois continuados no projeto ‘Lobo na Raia’, patrocinado pela Zoo Logical e pelo Grupo Lobo. Este verão, arrancou o ‘Life Med-Wolf’, projeto co-financiado pela UE para estudar lobos em Portugal e na Itália. Por cá, a área de estudo abrange os concelhos de Figueira de Castelo Rodrigo, Almeida, Pinhel, Guarda, Sabugal, Penamacor e Idanha a Nova. Com a ajuda de câmaras de infravermelhos, os investigadores já conseguiram fotografar lobos no concelho de Almeida (foto à esquerda). Além do estudo do lobo, pretende-se sensibilizar as populações e ajudar pastores e criadores a protegerem-se com cães de guarda e cercas elétricas. O programa dura até 2017.

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