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O reino dos telemóveis e a economia

“No fim da semana passada, o meu irmão Raul citou um número qualquer relacionado com o decréscimo da venda de telemóveis”
António Sousa Homem 20 de Maio de 2012 às 15:00
O Alto Minho em fotografias antigas

Um dos meus irmãos (somos cinco) é astrólogo. Enverga a carteira profissional com denodo e algum desconforto há algumas décadas, provando a qualidade das palavras de Churchill, para quem a política era a arte de fazer previsões sobre "os próximos anos" e de passar "os próximos anos" a explicar por que razão as coisas não se passaram como estava previsto. O leitor já adivinhou que, por detrás do tom jocoso da primeira frase se esconde outra profissão, afinal, não menos desconfortável – a de economista.

Raul foi um dos mais virtuosos navegadores dos últimos oito quilómetros do rio Minho, tanto como foi um excelente herdeiro da ciência praticada durante uma vida inteira pelo nosso avô, administrador de quintas do Douro. Parte da família (onde eu me encontrava) seguiu os passos do velho Doutor Homem, meu pai, escolhendo o pachorrento caminho do Direito; outra, aconselhada pelo ruído do tempo, preferiu o ramo da administração, um pouco à maneira da última geração dos "bons homens do Porto".

Neste particular, conheço dois exemplos: o meu avô foi contemporâneo de José Domingues dos Santos e, embora estivessem em trincheiras desavindas durante a Monarquia do Norte, partilharam afazeres no Instituto Superior do Comércio no Porto – Domingues dos Santos foi um extremista da República que passou pelo exílio depois da revolução de Braga; o meu avô quedou-se pela prática da epistolografia com ingleses do vinho do Douro, a acrescentar a devaneios peripatéticos com Guerra Junqueiro nos limites de Barca d’Alva e no horizonte da Quinta da Batoca, diante dos colossos da serra do Roboredo.

No fim da semana passada, o meu irmão Raul citou um número qualquer relacionado com o decréscimo na venda de telemóveis. Isso preocupava-o já não sei a que propósito (os economistas preocupam-se até ao fim da vida); ripostei que todos os portugueses, pelo menos, já tinham telemóveis e que não podiam estar, permanentemente, a trocar de aparelho.

Dona Elaine conserva um telefone que atroa os ares; eu possuo, por desfastio, um que me permite receber telefonemas e não ler mensagens; apenas os meus sobrinhos mudam periodicamente de telemóvel, procurando estar a par daquilo que suponho serem "inovações tecnológicas".

O meu irmão achava a notícia um sinal da crise – eu pensei nela como o indício de algum juízo. Mas estávamos em lugares opostos. Eu acredito que não se pode mudar de carro, de telemóvel e de máquina de aparar a relva todos os anos; ele acredita que o progresso da humanidade segue na direcção do infinito. E nisto estamos.

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