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O resto da vida

“Se nos amarmos, queres maior segurança do que isso? Sim, preciso de ter a certeza absoluta”
Tiago Rebelo 27 de Junho de 2010 às 00:00
O resto da vida
O resto da vida

Ela queria saber o futuro, queria ter a certeza de que não se enganava com ele. Perguntou-lhe, se eu ficasse contigo seria feliz o resto da vida? Ele sentiu-se tentado a dizer-lhe que sim, porque estava convencido que sim, mas não disse, pois não tinha forma de lhe provar o futuro. Disse-lhe só, não sei, não podemos ter a certeza de uma resposta definitiva, o futuro somos nós que o fazemos, que o construímos, está na nossa determinação, no nosso arbítrio. Para que queres saber o futuro com certeza absoluta? Perguntou-lhe. E ela, sem hesitar: para ter segurança. E que farias tu com essa segurança? Quis ele saber. Ora, seria feliz, afirmou ela, sem precisar de pensar duas vezes.

Ele, estupefacto, olhou-a nos olhos e viu neles um brilho cheio de esperança. Não podes determinar a felicidade pela segurança, disse. Não o faço, retorquiu ela, chama-lhe só uma garantia extra. Se nos amamos, queres maior segurança do que isso? Sim, preciso de ter a certeza absoluta para o resto da vida. A certeza absoluta, disse ele, vais tê-la no fim da vida, a menos que queiras construir a vida ao contrário. Ela encolheu os ombros. Se for preciso, disse. Tu não percebes? Acrescentou, exasperada, não posso enganar-me duas vezes! A segurança não é garantia de felicidade, insistiu ele, é precisamente o contrário, o que nos faz caminhar é a insegurança, sem ela não estamos a construir nada, estamos sentados à espera que o tempo passe, a definhar. É como o medo, ajuda a não nos magoarmos. É isso que eu não quero, disse ela, agarrando-se à frase dele. Magoar-te? Não te queres magoar? Sim. Eu não te vou magoar, exclamou ele, quase indignado por ela levantar essa possibilidade. Tens a certeza? Perguntou ela.

Tenho a certeza de que não o desejo. Só quero amar-te, que me deixes amar-te. Olha, disse-lhe ainda, podes ter a certeza da segurança, se ficares sozinha, mas não podes ter a certeza da felicidade até ao fim. Preferes ficar sozinha? Não, claro que não, mas posso ter sempre alguém, sem correr o risco de amar. É seguro, não? De qualquer maneira, não acredito no amor eterno, acrescentou, irredutível, acabamos sempre por magoar-nos. Mas assim, disse ele, voltas ao princípio. Que é? Perguntou ela. Não serás feliz. Eu sei... Reconheceu, e, depois de uma pausa: Terei de confiar em ti, não é? É, disse ele, se confiares em mim vais ter segurança e serás feliz.

Confias em mim? Perguntou ela. Sim, respondeu ele, confio muito em ti e não tenho dúvidas de que não me vou enganar contigo. Não te abandonarei e acredito que também não me farás isso. E aí, o rosto dela abriu-se num sorriso de alívio e depois disse: então, não me vou enganar contigo, poderei ser feliz o resto da vida.

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