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Correio da Manhã

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O risco de amar

“Está apaixonada e assustada com a força desse sentimento, com o risco de ele a deixar”
Tiago Rebelo 20 de Maio de 2012 às 15:00
Despertado pela curiosidade

Ela não se queria apaixonar porque sabia que a paixão era uma armadilha, sabia que se fosse rejeitada mais tarde levaria meses, talvez anos, a esquecer. Já passara por isso e a perspectiva de repetir era perturbadora. Depois disso decidira ser livre, não se apaixonar. Tivera alguns casos esporádicos, mas não se prendera a ninguém. Mas agora voltou ao mesmo e está alarmada porque só percebeu o que lhe aconteceu demasiado tarde.

Trabalha num hotel, conheceu-o quando estava de serviço no bar. Achou-lhe graça, mas não deu importância. No entanto, ele apareceu no dia seguinte, e todos os dias dessa semana, à mesma hora.

Ele viaja muito em trabalho, vem a Lisboa regularmente. Na vez seguinte deu com ela logo à chegada, no balcão da recepção. O seu rosto iluminou-se quando a viu, disse que gostava muito de a reencontrar. E para ela aquele momento, aquela declaração, não foram indiferentes. Sorriu, respondeu educadamente que era um prazer recebê-lo novamente no hotel, tratou-o por senhor. Mas na verdade sentiu uma emoção que a surpreendeu.

Mais tarde, ele foi ao balcão, perguntou-lhe se não iria estar de serviço no bar. Como ela dissesse que não, pediu-lhe que fosse lá ter com ele depois de sair de serviço. Ela recusou, não poderia fazê-lo. Ele coçou a cabeça, atrapalhado, mas não desistiu, convidou-a para sair. Apanhada de surpresa, ela disse que não, inventou uma desculpa. Ele disse não faz mal, tenho a semana toda para a convencer.

Agora ela dá consigo a sofrer à espera do dia em que ele regresse ao hotel. Falam sempre ao telefone, mas receia que um dia ele mude de hotel e a esqueça. Por isso, decidiu que não podia continuar nessa angústia, telefonou-lhe, disse-lhe que era altura de se separarem. Ele respondeu-lhe que tinha uma semana para reconsiderar, até ao seu regresso. Ela fraquejou na sua determinação, disse está bem, uma semana, mas pediu-lhe que não telefonasse.

Os dias são lentos, a semana demora a passar. Ela está na recepção e pergunta-se porque não lhe liga ele, porque não ignora o seu pedido. Sente uma tentação de lhe telefonar, mas resiste. Está apaixonada e assustada com a força desse sentimento, com o risco de ele a deixar, com a possibilidade de ele não voltar no fim da semana. Mas ele volta. Chega com um ramo de flores e declara à frente dos colegas, de uma multidão de hóspedes, não podes desistir de mim porque te amo e quero casar contigo. Ela, emocionada, ri-se com lágrimas nos olhos.

Então, diz ele, vais responder-me ou deixar-me aqui nesta expectativa? Ela engole em seco, recompõe-se, responde-lhe sem pensar duas vezes: Sim! Ele debruça-se sobre o balcão, beija-a, e há uma salva de palmas geral na recepção...

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