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O Second Life dos Pequeninos

Tens moedas?' Não, Mary5782 acaba de entrar na comunidade on-line, misto de chat, jogo e realidade virtual, mais popular entre os adolescentes e tem o porta-moedas vazio. Está na recepção do Hotel Habbo.
20 de Julho de 2008 às 00:00
O Second Life dos Pequeninos
O Second Life dos Pequeninos

É uma unidade hoteleira sobrelotadíssima – tem cem milhões de hóspedes, os habbos, 670 mil dos quais são portugueses. Mary movimenta-se de quadradinho em quadradinho. Parece um boneco da PlayMobil inspirado na cena punk londrina dos anos 70. Escolheu o estilo mohawk, crista no meio da cabeça rapada. E não consegue arranjar moedas. Trinta custam cinco euros. Uma nota azul. Real. Do porta-moedas dos pais. À conta disso e dos anúncios, a empresa Sulake já facturou 300 milhões de euros. Mas como pelo menos os pais de Maria não estão para financiar-lhe a existência virtual, os três habbos – uma betinha, um rasta e outro com orelhas de coelho – de quem Mary5782 sucessivamente se aproxima e a quem, questionada a propósito, confessa a total insolvência financeira logo se afastam dela.

Nem só de pão vive o Homem e nem só de moedas hão-de virtualmente viver os habbos. Há espaços públicos de acesso livre no hotel. Movimentando o rato do computador, Maria dá corda a Mary5782. Quando a mohawk entra na discoteca, um habbo com um fio de grande medalhão ao pescoço passa por ela e pergunta: 'Oi gatinha!Vc tem namorado? Que idade vc tem?' Mary5782 responde:'14 e vc?' O balão que se ergue sobre a miniatura de 50 Cents traz dentro o número 15 e as palavras 'ker dançar' seguidas de ponto de interrogação. Basta que Maria e o (suposto) rapazinho, algures num lar brasileiro, cliquem num ícone à direita para que os dois habbos comecem a abanar-se ao som da batida electrónica. 'E se a gente fosse para o meu quarto?', sugere ele.

Os habbos têm quartos no hotel e mobilam-nos à sua vontade, se, claro, tiverem moedas para comprar móveis – mobis. (Um rapaz holandês foi realmente detido por roubar mobília virtual.) Há sofás, cadeiras, plantas, televisores... e há mobis raros, que ficam durante pouco tempo no catálogo. Mary5782nãoconvidao rapper para o seu quarto pois não dispõe se não de uma cadeira e de uma mesa, gentilmente oferecidas.

Mary5782 e o rapper nunca se encontrarão – não é permitido trocar qualquer informação que facilite o contacto fora do hotel, designadamente endereços de mail. Oúnico relacionamento possível é entre avatares. E mesmo esse parece não interessar à mohawk. 'Onde é que é a piscina?' pergunta a uma habbo de biquini, que lhe responde com outra pergunta:'Tens moedas?' Ai!...

QUEM SÃO E O QUE QUEREM OS HABBOS? 

São ambiciosos. Sabem o que querem. São materialistas. O sucesso material – ou não estivessem tão empenhados em obter mobis – é o mais importante para eles e, embora tenham muitos amigos, não valorizam tanto os sentimentos alheios como outros da mesma idade e condição. Querem ser ricos e famosos sem comprometer a diversão no caminho para chegar lá. Consideram-se honestos e educados. Este é o perfil do habbo, traçado com base num inquérito a 58 486 utilizadores do Habbo Hotel, com idades entre os 11 e os 18 anos, oriundos de 31 países.

O HOTEL EM NÚMEROS

2 MILHÕES

Na versão em português do Habbo estão inscritos mais de dois milhões de utilizadores. 670 mil são portugueses.

3,6 MIL

Com cerca de um ano e meio de existência, a versão portuguesa do Habbo conta com cerca de 3,6 mil novos utilizadores a cada dia.

75 MIL

Todos os dias surgem 75 mil novos avatares no Hotel Habbo. 70 por cento dos utilizadores tem entre 13 e 16 anos.

2

O banimento oscila entre duas horas – quando alguém diz palavrões – e permanente. Não é permitido fornecer qualquer dado pessoal.

MESES

Os habbos X são utilizadores experientes que ajudam os mais novos. Estão no hotel há seis meses e não tiveram mais de três banimentos.

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