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O sexo nas Arábias

Tal como à mulher de César, às mulheres árabes não basta serem sérias, têm também de parecê-lo. O que no Iémen equivale a prisão domiciliária. Mas, por entre as maravilhas e os horrores de uma cultura milenar, descubro que, “afinal, havia outra!”
26 de Outubro de 2008 às 00:00
O sexo nas Arábias
O sexo nas Arábias

As injustiças revoltam-me. Por causa disso, uma vez fugi da escola primária e fui esconder-me num bosque de mimosas, o que me valeu reguadas, mas também a descoberta de uma revista pornográfica escondida no tronco oco de uma árvore. Nessa altura, ao folhear a revista, a primeira coisa que me ocorreu foi que as lições de educação sexual da minha mãe eram incompletas. Olhando agora as mulheres tapadas por um luto perpétuo, penso que, aqui, os ensinamentos da minha mãe de há 30 anos atrás seriam pornográficos.

Acho injusto que as mulheres estejam trancadas em casa em nome da virtude, enquanto os maridos se entregam, sem censura, aos seus vícios. Em Sana, tal como no resto do Iémen, a partir da hora de almoço os homens pouco mais fazem do que mascar ‘qat’. É nesta droga que a maioria gasta boa parte do ordenado. Outros, consoante as posses, têm várias mulheres. E elas? Podem votar, sair para os mercados, ir à mesquita, tomar chá em casa de amigas ou familiares e passear na rua com os seus amos. Pouco mais. As novas gerações também vão à escola, viajam de autocarro e têm telemóvel. Li numa revista que os namoros são através dos chats da internet. Nem os meus bisavós namoravam de tão longe. E quando se casam os rapazes só conhecem os olhos das raparigas.

A tolerância que tenho para com outras culturas acaba onde começa o meu respeito pelo ser humano. Em protesto contra a condição das mulheres árabes, e sufocada de calor, tiro para sempre o lenço da cabeça e dirijo-me ao guarda da Embaixada do Sultanato de Omã, onde vou pedir um visto. Só daqui a dez dias. Estamos no fim do Ramadão e todos os serviços da capital estão fechados, o que me obriga a rever planos. Depois da polícia turística me recusar a autorização para seguir por terra para norte devido a 'instabilidade política', decido passar uns dias em Hodeida, na costa do Mar Vermelho, e ir de avião para Mascate.

A viagem pelas montanhas de Djebel Haraz até Hodeida é um calvário. Nunca antes tinha sentido este tipo de medo, misto de vertigem e de angústia. Mas também nunca antes tinha passado tangentes a desfiladeiros tão altos que deixo de ouvir, guiada por dois motoristas suficientemente doidos para trocarem de lugar com o autocarro em andamento.

As ondas do Mar Vermelho não me consolam. Ao segundo dia, arrisco ir até Zabid, onde o italiano Pier Paolo Pasolini filmou as suas ‘Mil e Uma Noites’, nos anos 70. A cidade faz parte da lista do Património Mundial da UNESCO, mas está degradada e em ruínas, o que, quanto a mim, não retira beleza às casas e monumentos, arquitecturas inesperadas encafuadas em ruelas poeirentas. De entre as preciosidades, o estrelato vai para a casa onde se passa o filme de Pasolini, salas assombradas por uma luz que se desfragmenta nos vitrais coloridos.

Ao sair, sou arrastada por um grupo de raparigas que me querem levar a conhecer a noiva. O Ramadão acabou há dois dias, chegou a época dos casórios. Num barracão com música em altos berros, onde os homens não podem entrar, vejo, pela primeira vez, o rosto destapado de mulheres com olhos e bocas pintados, vestidos vaporosos, sandálias de salto alto. Com a boca aberta de espanto e as mãos cheias de pevides, penso: afinal, havia outra! E vou-me embora aliviada no que respeita à vida sexual das iemenitas.

Em relação ao medo – de regresso a Sana – não sinto qualquer espécie de alívio, a não ser o de saber que esta é a minha última viagem de autocarro no Iémen. A cidade passou de noctívaga a diurna, movimenta-se, é real. Houve momentos em que me senti numa capital--fantasma. Olho por uma última vez para Bab al Yemen, as portas da Sana antiga, Veneza sobre areia, segundo Pasolini. Na mala levo perfumes e tecidos exóticos, souvenirs de ocasião. Os meus desejos? Acabar com a discriminação sexual, perder vários medos e, já que é para pedir… um queijo de Azeitão com broa de milho e vinho tinto alentejano.

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