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Correio da Manhã

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O stress combina com infertilidade

A ansiedade altera o funcionamento natural do organismo. Pode ser, por isso, um grande entrave quando se quer gerar um filho.
5 de Novembro de 2006 às 00:00
Rute e Fernando sonhavam há muito com a ideia de ter um filho. Um não, sete, o número que injecta vigor nos pontapés de Luís Figo e bafeja de sorte a história de amor deste jovem casal. “Começámos a namorar no dia 7, do mês sete, de 1997...”, enumeram. Logo após o casamento – no dia sete do mês sete –, concordaram, por isso, em começar desde logo a investir no primeiro golo.
Ao fim do terceiro mês de tentativas, a janela de leitura do teste de gravidez manteve-se, contudo, sem alterações. Para não desanimar Rute e Fernando foram buscar forças ao pensamento: “Há-de ser ao sétimo mês”. Mas, neste caso, a superstição do número sete não foi ao encontro da felicidade de outros tempos. Inevitavelmente, os meses que se seguiram foram assombrados por dúvidas, stress, ansiedade. A cada dia, o casal via mais longínquo o sonho de ser visitado pela cegonha. “Não tínhamos motivação para trabalhar, para estar com os amigos, para nada”, conta Rute. “Até a nossa relação, que julgávamos inabalável, começou a degradar--se”, acrescenta Fernando.
A história de Rute e Fernando não é nova. É apenas mais um drama entre os vários com que se depara cerca de 15 por cento de população portuguesa em idade fértil, que se estima sofrerem de problemas de infertilidade. Para eles, serve, por isso, a mesma chamada de atenção que para todos os outros: “A preocupação excessiva aumenta a ansiedade, o que tem um impacto negativo na função reprodutiva, a nível fisiológico e relacional. Tudo isto dificulta uma gravidez espontânea”. Quem o diz é a voz da experiência, Filipa Santos, psicóloga da IVI, clínica especializada em reprodução humana.
A incapacidade de conceber de forma natural abala fortemente a vida de um casal. Os tratamentos de reprodução medicamente assistida têm a capacidade de fazê-la cair do precipício. “A infertilidade é um acontecimento que ameaça o projecto de vida a dois, gerador de grande sofrimento. Os casais que se submetem a técnicas de procriação passam por um processo longo e difícil que causa grande desgaste físico e emocional“, garante Filipa Santos. Na maioria dos casos, esta fase traz a reboque preocupações acrescidas, medos, inseguranças, alterações comportamentais. A depressão é o limite.
Daí a importância do diálogo entre marido e mulher e, se necessário, a ajuda de um profissional que ensine o casal a canalizar as energias para uma relação saudável e que saiba detectar a tempo o risco de a relação se desmoronar. Foi precisamente para ajudar a lidar com os problemas e dúvidas que possam surgir nesta fase que a clínica IVI disponibilizou recentemente um programa de Apoio Psicológico. Sob o lema ‘Uma atitude positiva pode facilitar a possibilidade de gravidez’, dirige-se a casais com problemas orgânicos claramente definidos, casais que não apresentam causas orgânicas detectáveis e casais que, tendo solucionado os problemas orgânicos continuam a ter problemas em engravidar. O objectivo é ajudar os casais a manter a balança mental, que tantas vezes teima em vacilar, equilibrada.
São vários os estudos que comprovam os benefícios deste tipo de terapia. Uma pesquisa da Universidade de Harvard, por exemplo, garante que o apoio psicológico em casais sujeitos a tratamentos de gravidez medicamente assistida colhe frutos. Os cientistas concluíram que o stress provoca desequilíbrios hormonais, potenciando a ausência da menstruação ou ciclos irregulares e a contracção das trompas de falópio e do útero, o que inibe o deslocamento dos óvulos. E para perceber até que ponto é que os casais conseguem, através de auxílio psicológico, diminuir esse stress, bem como elevar as taxas de gravidez, acompanharam um grupo de 184 mulheres que durante um ano tentou engravidar sem sucesso.
O grupo de candidatas a mães foi dividido em três: um recebeu orientações sobre como lidar com o problema; outro teve ajuda de um grupo de apoio; enquanto o terceiro recebeu apenas o tratamento normal para a infertilidade. Em 12 meses, 55 por cento das mulheres do primeiro grupo engravidaram, contra 54 por cento das que participaram do grupo de apoio. Quase dois terços das mulheres do grupo de controle desistiram do tratamento porque ficaram deprimidas. Engravidaram 20 por cento das que permaneceram.
O stress anda sempre associado à infertilidade. Neste caso concreto, o estudo foi feito em mulheres, mas podia ser com homens, cujo organismo também sofre as consequências de uma má gestão de stress. Se na mulher conduz a alterações hormonais, afectando a sua função ovulatória, no homem afecta a produção normal de esperma.
Quanto à Rute e ao Fernando, ao fim de muitas investidas, e de muitas discussões, deixaram de tentar apurar culpas, voltaram a unir-se e procuraram ajuda médica. Seguiram à risca uma série de exames e o resultado trouxe a boa-nova: nenhum dos dois sofria de infertilidade – não fosse o diagnóstico conhecido no dia 7. A notícia serviu para o casal acalmar os ânimos e redescobrir a palavra esperança. Um mês depois estavam grávidos. Actualmente, já contam com mais dois golos, desta, bem marcados, ao nível de Luís Figo.
MAIS IDADE NÃO TRAZ MAIS STRESS
As mulheres que engravidam depois dos 50 anos são tão boas mães quanto as mais jovens. A conclusão é de um estudo de cientistas norte-americanos da Universidade da Califórnia, que se dedicaram a acompanhar de perto a gravidez em mulheres maduras, comparando-a com a de jovens. Ao longo da pesquisa, os cientistas observaram 150 mães com idades entre os 30, 40 e 50 anos, que fizeram tratamento para engravidar entre 1992 e 2004, tendo recebido óvulos doados. Os resultados finais indicaram que não há justificação para haver restrições à idade das mães, afinal mais idade não significa mais stress ou riscos de saúde.
- 1 ano de tentativas sem sucesso é o tempo que sugere que um casal possa ser infértil
- 40% dos problemas reprodutivos dizem respeito às mulheres, outros 40% aos homens e os restantes 20% radicam no organismo de ambos
- 12 mil novos casais inférteis surgem anualmente em Portugal
- 80 milhões de pessoas em todo o Mundo são inférteis, segundo a Organização Mundial de Saúde
ATITUDE POSITIVA
Quando um casal decide engravidar tem que partir consciente de que, demore o tempo que demorar, a esperança é a chave do sucesso. Sempre.
A: DAR TEMPO AO TEMPO
Quando um homem e uma mulher decidem ter um filho têm que partir do princípio que nem todas as pessoas têm a mesma capacidade de gestação. Antes de um ano de tentativas não é necessariamente obrigatório que o casal seja infértil. Até lá, o importante é não desanimar. E continuar a tentar.
B: PROCURAR AJUDA
Se, de facto, ao fim de um ano, as várias tentativas de gravidez não surtirem efeito, o casal não deve perder tempo a apurar culpas. Deve procurar desde logo ajuda médica. Só um diagnóstico específico vai permitir saber com exactidão quais os procedimentos a seguir. Cada caso é um caso.
C: CABEÇA SÃ
A dificuldade em engravidar de forma natural gera ansiedade. Por conseguinte, o casal vai buscar medos, inseguranças, dúvidas. Tudo é posto em causa, até mesmo o próprio casamento. Por vezes as forças falham, mas há que saber gerir sentimentos. Cabeça sã pode significar ventre são.
D: APOIO PSICOLÁGICO
Quando o apoio mútuo do casal por si só não é suficiente para manter de pé a saúde psicológica, não desista. Leia, vá ao cinema, ao ginásio. Se, ainda assim, manter a cabeça ocupada não é uma ajuda, então o caso é mais grave. Para não cair em depressão procure um psicólogo. Sem preconceitos.
A OPINIÃO DA JORNALISTA DULCE GARCIA
A CEGONHA
As tias mais velhas é que sabem: os bebés não nascem quando a gente quer, mas quando eles querem. Se existe uma divina providência, essas tias são doutoradas na matéria. E o mais engraçado é que quase todas falam de cor porque nunca tiveram filhos. Calcula-se que 10 a 15 por cento de casais em todo o mundo tenha problemas de fertilidade. Mas não se sabe quantos passam meses de angústia à espera da cegonha, sem que exista alguma razão científica que impeça o pássaro de chegar.
A esses, recomendam as tias muita paciência, porque o nascimento tem sempre o seu quê de milagre e essas coisas, como toda a gente sabe, ainda não estão ao alcance do Homem.
Conheço muitos casais que planeiam os filhos cirurgicamente. Esperam pela promoção do pai e pelo doutoramento da mãe, mudam de casa, trocam de carro, pintam o quarto de branco e amarelo e então sim, pensam no assunto bebé – diria quase que em exclusivo.
A partir do momento em que se livram dos últimos receios e avançam para a cama, começam a contar os minutos com sofreguidão. Coitados dos espermatozóides e dos óvulos até se devem assustar com tanta pressão.
Nessa altura começa a caça ao calendário: feriado colado ao fim-de-semana e… nada. Semana do Natal em casa e… nada. Férias da Páscoa, os dois sozinhos no Algarve e… coisa nenhuma. Na rua, amigos, vizinhos e pais apertam o nó à volta do pescoço: “Então e bebés, quando é que mandam vir?”
Começa calvário. O sexo até se encolhe perante tanta expectativa.
De repente, parece que aquela relação deixou de fazer sentido, que ela só existia com uma finalidade: ter filhos. E na impossibilidade de tal acontecer, todas as promessas, todos os planos, a promoção, o doutoramento e o quarto branco e amarelo, fica tudo deslocado na fotografia do casal feliz.
Alguns desistem. Outros desistem e separam-se. Outros seguem a máxima de Confúcio, sem que alguma vez tenha ouvido falar de um pensador chinês com milhares de anos: “Há várias maneiras de conseguir uma coisa, uma é desistir dela”. E aí o bebé decide nascer.
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