Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
3

"O stress de guerra ainda hoje me atormenta"

Fui louvado pelo meu comandante, mas não fui herói, apenas cumpri uma missão que me foi dada numa guerra inútil.
Marta Martins Silva 18 de Agosto de 2019 às 14:00
FOTO: Direitos Reservados

Em agosto de 1958, tinha terminado o segundo ano de Medicina na Universidade de Coimbra, fui chamado para frequentar o curso de Oficiais Milicianos em Mafra. Em setembro de 1959 passei à disponibilidade e retomei os meus estudos, mas em 1961 rebentou a guerra em Angola. Viria a embarcar no navio ‘Vera Cruz’ e, onze dias depois, sem paragem, desembarcámos no cais de Luanda.

No embarque assisti a uma despedida arrepiante, com choros, desmaios e altifalantes a entoarem em alto som o hino ‘Angola é Nossa’, mas ao desembarcarmos no cais de Luanda fomos recebidos de uma forma apoteótica, indescritível, com aquela massa humana numa verdadeira loucura para nos beijar, abraçar, lançar flores... Chegaram os nossos salvadores, era o seu pensamento. Para nós, militares, foi um incentivo para cumprir uma missão patriótica que nos foi imposta, que era a de restabelecer a ordem e proteger a população angolana, sem distinção da cor da pele, e combater o terrorismo.

Desgaste físico
Ao meu batalhão foi atribuída uma área no distrito de Uíge (Carmona), que estava a ser atacada pelos turras sanguinários que, vindos do Congo, estavam a provocar o terror naqueles habitantes. A minha companhia de Comando e Serviços – eu era o comandante do pelotão de reconhecimento e informações – ficou instalada em Sanza Pombo. A nossa maior dificuldade foi chegar ao destino. E a ração de combate, sede, falta de notícias, pontes destruídas, árvores e buracos nas estradas.

No início usávamos armamento antigo, a velha Mauser, pistolas metralhadoras FN, morteiros ligeiros, viaturas a pedir reforma, serrotes e machados sem cortar. Protegidas as populações e estabelecida a ordem, demos início à ação psicossocial e o regresso do povo às suas sanzalas permitia-nos controlar a situação. Os informadores que tínhamos iam dando conta de estranhos com facilidade e com facilidade os capturávamos e obtínhamos informações por vezes muito úteis. Foi uma fase mais de desgaste físico e psicológico do que bélico. Foi a fase da catana e do canhangulo. Em meados de 1962, depois de 13 meses naquela zona, fomos rendidos por um batalhão que vinha do continente e deixámos no cemitério de Sanza Pombo alguns camaradas por morte natural e acidental; apenas um furriel foi morto com um canhangulo na viagem de ida.

A nossa mudança seria de regresso a Luanda ou para uma zona mais a sul, sem tantos problemas, mas foi puro engano. Passado um mês recebemos nova ordem para avançar para o norte. Nesta altura surgiram as minas anticarro, ainda artesanais, que uma viatura carregada com sacos de areia fazia detonar sem consequências. As nossas viaturas operacionais estavam blindadas com chapas de ferro que protegiam eficazmente das balas. A minha companhia ficou instalada em Ambriz: foi a primeira tropa a ocupar a zona, por isso, tivemos alguns problemas. Felizmente, apenas o capitão da companhia foi atingido, em Ambrizete, por uma bala num cotovelo.

Procedemos a algumas operações militares de grande envergadura, com deslocações motorizadas durante a noite cujos resultados foram um fracasso, dado o barulho dos motores e a luz dos faróis que alertavam o inimigo. Os melhores resultados foram obtidos patrulhando constantemente as vias de acesso aos esconderijos e, sempre que possível, atirando granadas para as matas mais fechadas, onde eles se acoitavam, para sentirem a nossa pressão.

Desejo prestar homenagem a todos os que perderam a vida naquela guerra inútil. Também não esqueço os deficientes e aqueles que ficaram para sempre marcados pelo stress de guerra, é o meu caso: ainda hoje me atormenta.

Testemunho de José Gomes Basto
Angola 1961-1963

Angola Oficiais Milicianos Mafra Vera Cruz
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)