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O taxista que odeia táxis

Vítor Lourenço é taxista e todos os dias faz o Trajecto Centro de Vilamoura - Quarteira. Detesta a profissão e considera que o salário não compensa.
15 de Janeiro de 2006 às 00:00
O taxista que odeia táxis
O taxista que odeia táxis
Se eu soubesse teria colado os lábios. Em troco à minha pergunta fora de horas, sai-lhe uma repetição espontânea com um compasso sentido: “não gosto, não gosto.” Não gosta da profissão que tem: taxista. Aquela que me faz jeito para atenuar os meus imperdoáveis e tradicionais atrasos.
Podem juntar o céu com a terra, pôr o mar no copo, não nasceu ninguém que o convença do contrário. Nem o pai que também conhece a estrada. Quando lhe calha o horário nocturno, o verbo gostar trespassa o superlativo da gramática e fica impresso no seu olhar: detesta. Odeia. Abomina.
Está convicto. A voz amolece. As mãos quase pisam a alavanca da caixa de velocidades. Desabafa. As noites não foram feitas para esta prisão. Não foram. Noites que o deixam aprisionado ao volante. Ele atracado ao táxi tendo um bebé de sete meses e meio e um rapaz, quase um homem, de sete anos, à sua espera. Noites naquele banco da frente com a esposa, em casa, a adoçar, pacientemente, a sua ausência. Depois, sim, porque o depois também conta, não é nenhum rodapé, o salário não compensa. É com esse depois e esse sim que se vive. A repetição não fica tímida; não compensa.
“Veja, perceba, sinta”, doze horas ininterruptas agarrado à insipidez das luzes noctívagas com os olhos carregados do vermelho da responsabilidade, da estafa e de uma solidão imerecida, para no final do mês receber raspas. Raspas. Vejo. É meia-noite. Percebo. As palavras que diz não saem da boca. Sinto. Sinto-o velho. Gasto. Sofrido. Os 32 anos não encaixam com a frequência da mágoa.
Tirou o curso de Contabilidade, mas, mas, os cálculos são outros. As contas da vida não vêm nos compêndios, e os professores prevêem tudo, menos quem fica do lado de fora. No início da licenciatura, ainda estudante, a coisa era risonha. À coisa chamo de sonho. Sim, ilusões prometedoras. A senhora acertou. Mas, mal veio o diploma, a correria para o futuro, aterrou o pesadelo. Procurar o primeiro emprego com responsabilidades às costas deu-lhe, não, chutou-lhe uma pressa sem escolhas: Taxista. Guiar um automóvel. Conduzir os outros. Duplica o desgosto. Não gosta. Não gosta.
Digo-lhe o que me apetece, o que adivinho, vai e está a tempo. Tem, definitivamente, o meridiano acertado. A vida pela frente. A contabilidade pela frente. Mil e uma noites esperam por ele.
Ri, paulatinamente. Duvida com as sobrancelhas. Chama a este parágrafo de filme. “O Algarve é pequeno, está tudo preenchido.” Pequeno, mas há sempre um lugar.
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