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O telefone dos avós

Projeto português de teleassistência ganha prémio internacional da ONU
22 de Setembro de 2013 às 15:00
O telefone dos avós
O telefone dos avós

Os estudos comprovam que os serviços de teleassistência para idosos permitem "reduzir 45% o número de mortes, 20% as visitas às urgências e 14% os internamentos". E foi a pensar nestes números e "num mercado de tecnologias que esquece os mais velhos" que o informático português Carlos Azevedo, de 46 anos, idealizou o True-Kare, um serviço associado a um telemóvel especificamente para ser usado por idosos. A ideia, revolucionária neste setor, valeu-lhe um prémio das Nações Unidas na última edição do concurso internacional World Summit Award.

O True-Kare parece um telemóvel normal (embora mais leve, mais macio, com um visor e teclas grandes), mas incorpora uma série de funcionalidades que os outros não têm. "O True-Kare é, além de um telefone, um serviço que permite, através de um portal na internet, apoiar remotamente as pessoas idosas. Através do portal pode gerir o dia a dia do idoso, enviando-lhe alertas consoante as suas necessidades específicas", explica.

O que mais salta à vista é o botão de emergência: "Que, depois de acionado pelo idoso, não pode ser desligado acidentalmente e que faz imediatamente uma chamada para o seu cuidador direto, que pode ser uma pessoa ou uma instituição", explica. A localização da pessoa é dada através do sistema de GPS, igualmente incorporado no aparelho que, obviamente, também serve para fazer chamadas.

Mas não só. O True-Kare pode ter dispositivos externos como medidor de tensão arterial e de glicose, que incorporam os resultados automaticamente no telemóvel e no portal do serviço a que este está ligado. Se os níveis ultrapassarem o normal, também é dado um alerta para o cuidador. Este cuidador pode então, através do computador e à distância, visualizar os resultados, mas também enviar (ou deixar memorizados) alertas (sonoros) para medicação, consultas ou outras terapêuticas. "A tarefa dos cuidadores fica mais facilitada, inclusivamente porque os ajuda com as rotinas e a questão da medicação, e os idosos gostam, pois sentem-se mais vigiados e protegidos." Uma senhora, por exemplo, contou um dia a Carlos Azevedo: "A minha Noélia (cuidadora) agora anda tão atenciosa. Nunca se esquece e está sempre a ligar-me!"

Por causa do lado afetivo, existe ainda um botão com o desenho do coração, que guarda os números de familiares e informação relativa à saúde. O sistema está ainda preparado para avisar o cuidador de que o telemóvel está a ficar sem bateria, que foi desligado ou que o utente saiu de uma determinada área geográfica.

MERCADO INTERNACIONAL

Em Portugal, o serviço é comercializado pela TMN (embora possam ser usados cartões de outras operadores no telemóvel para chamadas), por 12,50 € mensais. Para o mercado institucional é ainda distribuído por uma empresa especializada: a Hopecare. Estima-se que cinco mil utilizadores nacionais já o utilizam.

Mas a True-Kare vende também para Brasil, Suíça, França, Holanda e Áustria, onde é muito mais conhecida. "Apesar de nestes países os serviços de teleassistência estarem muito implantados, funcionam por botões (de emergência) e caixinhas e nenhum por telemóvel. Além disso, o nosso foi desenhado para este fim", garante o ‘pai’ do True-Kare. Por isso é tão sofisticado como um iPhone mas tão simples como um dos velhinhos Nokia. Isto é algo "fora do baralho neste universo", frisa.

O projeto começou a ser criado há quatro anos, recorrendo a idosos portugueses como ‘testers’. O caminho, no entanto, não foi fácil. "Começámos por trabalhar num iPhone, mas como era mais complicado para os idosos acabámos por chegar a isto que, no fundo, é um smartphone com a aparência de um Nokia. Pusemos tudo o que eles queriam. E também tudo o que eles necessitavam", conta.

Mesmo assim, o prémio da ONU (ao qual se candidataram 168 países) apanhou Carlos completamente "desprevenido". De tal forma que o e-mail que anunciava a vitória ficou vários dias esquecido na pasta de ‘spam’ – o chamado lixo eletrónico do e-mail do seu criador. "O projeto foi selecionado pela APDC - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Telecomunicações para representar Portugal nos ditos prémios. Nem sequer partiu de nós. A TMN propôs-nos para a candidatura nacional e nós preenchermos a informação necessária e... ganhámos."

Agora é preciso ir receber o prémio ao Sri Lanka, mas também continuar a trabalhar no sentido de chegar a mais idosos, para quem um telemóvel pode fazer toda a diferença. D

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