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O tempo contado

Sentem-se felizes enquanto estão juntos, mas despedem-se ao fim de meia hora
Tiago Rebelo 11 de Julho de 2010 às 00:00
O tempo contado
O tempo contado

A cidade move-se num rodopio sem fim. Faz um calor abafado, um céu cinzento, pesado, uma promessa de chuva frágil. É um tempo sempre a correr, com pressa, com paixão. Ele vai de carro, metido no fluxo natural do trânsito, e passa por ela sem a ver. Ela vai a pé e vê-o, antes de atravessar a avenida frente a uma barreira de automóveis. Sorri, a pensar nele que já lá vai. Ele vai a pensar nela, sem dar conta de que se cruzaram há segundos.

Logo a seguir, mete por uma rua estreita na esperança de encontrar um lugar impossível onde estacionar. Em contrapartida, ela segue o seu caminho sem dificuldades, esgueirando-se por entre dois carros, alcançando o passeio e continuando em frente. Ele tem sorte e descobre o lugar que procura. Sai do carro quando ela entra na mesma rua e atravessa-a sem se verem. Cruzam-se em passeios contrários, ela em direcção ao seu destino, ele de costas, colocando moedas na máquina donde saca o bilhete que lhe permite meia hora de estacionamento. Volta ao carro, coloca o bilhete no tablier, fecha a porta, tranca-a com um toque no botão da chave e vai-se embora.

Ela pensa em telefonar-lhe, mas distrai-se com uma montra e a intenção fica adiada por momentos. Ele lembra-se de lhe ligar, mas quando o faz ela não atende porque tem o telemóvel no silêncio e não o sente a vibrar no fundo da carteira. Ele entra num café e senta--se a uma mesa da esplanada, rodeado de outras ocupadas por estudantes barulhentos. Pede um café e deixa-se estar a perguntar-se onde andará ela. Nisto, ela entra na esplanada. Ele vê-a, levanta-se, abraçam-se com saudade. Ela senta-se e diz passaste por mim há pouco e nem me viste. Comentam o dia com o tempo contado, porque ela tem pressa de continuar as obrigações do resto da tarde e ele também tem de voltar à sua vida. Vêem-se nos intervalos do trabalho.

Sentem-se felizes enquanto estão juntos, mas despedem-se ao fim de meia hora. Ela sobe a rua a pé, ele dirige-se para o carro. Ela volta a atravessar a avenida e ele faz o mesmo, vendo-a ao longe, por entre os intervalos do trânsito que vem ao contrário. Ela leva as mãos enfiadas nos bolsos do casaco e o pensamento nele, mas não o vê. Ele sorri, a pensar nela que fica para trás, a pensar que estão sempre desencontrados na correria da vida, mas que há sempre um momento único, uma meia hora, que lhes fica como uma memória feliz e dura muito mais do que o tempo exíguo que lhes escapa e que, no futuro, talvez não seja mais do que isto, uma paixão antiga para recordarem com a nostalgia das promessas desfeitas, da confiança traída, dos sonhos perdidos.

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