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O tempo para brincar na praia

Qualquer biografia é ficção. Mesmo que o autor não minta, os acontecimentos implicam interpretação. Sobretudo os que se reportam ao próprio. Acresce a inevitável traição da memória. A que nos molda. Por fim, a autobiografia é uma fantasia de luz e sombra, do que se enfatiza e relativiza, expõe ou reserva.
Joana Amaral Dias 16 de Agosto de 2009 às 00:00
O tempo para brincar na praia
O tempo para brincar na praia

As Praias de Agnés V., o filme autobiográfico de Agnés Varda, alcança esses equilíbrios. A realizadora não explica. Mas deixa tudo claro. Não descreve o tormento do cineasta Jacques Démy (seu companheiro) com sida. Mas fala dos sentimentos. De tal forma, que fica tudo dito. Aliás, esses momentos são dos mais enternecedores deste filme nostálgico, divertido, sábio. Dum filme que é uma praia e uma manta de retalhos (como todas as vidas) ou uma feira de velharias e pequenos tesouros, entre os quais Agnés V. deambula. No cinema (convencional) há algo impossível: o reflexo do espectador em tempo real. E algo provável (mas de evitar): o reflexo da equipa do filme. Porém, a realizadora começa esta história com uma instalação de espelhos. Quebrando regras e procurando uma liberdade descomplexada. Como uma criança que brinca na areia.

As praias... relembra o seu destaque na Nova Vaga (não apenas como única mulher), os seus filmes e fotos. Percebe-se, acima de tudo, que a sua vida foi a maior obra de arte. Afinal, aos 81 anos, habita ainda a casa que reconstruiu nos anos 50 e que, depois, transformou com Démy num lar, num local de trabalho. Tudo junto porque para a cineasta criar não é um acto isolado ou de inspiração 'divina'. É parte integrante do dia-a--dia. As praias... não dá uma lição. Oferece uma comemoração. De uma viagem ou aventura. Talvez por isso, para a realizadora a infância não é uma referência. Afinal, passou o tempo a brincar e a imaginar. E daí que, ao longo desta autobiografia, Agnés V. ande a recuar (literalmente), revivendo memórias. Sem tropeçar.

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