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Correio da Manhã

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O terror das vidas dependentes do sexo

Desejo, muito desejo, e uma ansiedade por satisfazer o desejo. Há quem viva o terror de ser refém da insatisfação e de atemorizar os outros.
17 de Dezembro de 2006 às 00:00
Já não aguento mais ter que mudar permanentemente de casa. Toda a gente me aponta o dedo.” O desespero de Leonel (nome fictício) por não conseguir evitar o exibicionismo do seu corpo nu, na rua, cravou estas palavras na memória do médico que o acompanhava. Santinho Martins dá como exemplo este caso por ter desfecho idêntico em muitos outros viciados em sexo: “Sentem vergonha por percebe-rem que tomam estas atitudes para se acalmar.”
Para os médicos, um viciado em sexo identifica-se pelo desejo sexual compulsivo, adição sexual ou por dependência sexual. Expressões demasiado pesadas para o comum dos mortais. Mais fácil: comportamento sexual tipo Casanova, que na verdade era um Don Juan (apesar deste ser apenas uma lenda) dedicado à sedução feminina. Giacomo Casanova, que morreu na República Checa em 1788, escreveu na sua autobiografia que dormiu com 122 mulheres.
Pior será quando um viciado em sexo é casado. “Se tiver mulher, incomoda-a por querer ter relações sexuais duas ou três vezes por dia”, acrescenta o sexólogo. “Caso a mulher não consiga corresponder, procura a prostituição, o que é preferível, já que se não tiver dinheiro anda aí a chatear meio mundo.” Claro que o inverso também sucede, só que com maior prejuízo para a mulher, mais penalizada pela sociedade.
UM VICIADO EM SEXO
Um viciado em sexo está sob pressão da sua ansiedade e agressividade. Para compensar, masturba-se, tem relações sexuais com parceiros ou terceiros. Só que depois, a ansiedade volta e o comportamento repete-se. O sexo e os desejos não saem da cabeça. Inventam-se situações para ter relações. Muitas vezes assedia-se sexualmente colegas de trabalho, amigos, conhecidos. A sociedade volta as costas, o trabalho torna-se insuportável, a justiça aperta e o dinheiro falta. A vida: fica terrível.
Alguns doentes chegaram mesmo a relatar a Santinho Martins que se masturbavam bastante ou tinham relações sexuais com frequência. Nada que tenha preocupado o sexólogo. “Respondi-lhes: ah, se não tivesse nenhuma relação era pior.” Mas nos casos em que a intervenção se torna imperativa, não basta tomar medicamentos que baixem o desejo e controlem a ansiedade. Para que, no imediato, haja uma recuperação segura é necessário apoio psicoterapêutico. O mesmo que quando se deixar a medicação, ajudará a compensar as emoções e a retomar a razão.
“As pessoas pensam que [os viciados em sexo] agem propositadamente. Mas não, são estruturas cerebrais que os levam a praticar aqueles actos.” E a vida de um viciado em sexo transforma-se num inferno. Sentem culpa, remorsos, o temor de atacar alguém, na maioria dos casos. Sentem-se frágeis e descontrolados. A única maneira de os travar é através das sanções sociais e penais. Só que, até na justiça, muitas vezes são considerados inimputáveis.
PEDÓFILIA, VOYERISMO, NECROFILIA
Para Santinho Martins, tarado sexual é bem diferente. Poderá aplicar-se à pedofilia, voyeurismo, ou, por exemplo, necrofilia. Os comportamentos associados, segundo a associação norte-americana – já que em Portugal não há nenhuma – Dependentes de Sexo Anónimos, a grande maioria das pessoas que a frequentam explica como tudo começou: a sua predisposição sexual pouco saudável começou progressivamente; poderá ter-se iniciado com o aumento da masturbação, pornografia (quer em revistas ou na internet), ou em relacionamentos. Com o tempo, esta forma de estar torna-se perigosa, compulsiva, e sai fora do controlo pessoal. Muitas vezes sem reconhecimento próprio.
MICHAEL DOUGLAS TRATADO EM CLÍNICA
Contracenou com Sharon Stone em ‘Instinto Fatal’ (1992). Michael Douglas é o mais famoso viciado em sexo que, nos anos 90, chegou mesmo a ser internado numa clínica especializada. Segundo a imprensa brasileira, também o cantor Fábio Jr. confessou, há seis anos, pensar em sexo 24 horas por dia.
Mais recentemente, o tablóide inglês ‘The Sun’ publicou uma entrevista ao rapper norte-americano Kanye West, vencedor de três Grammy, que afirmava pensar durante todo o dia em sexo, o que o levava a suspeitar que tivesse algum problema sexual. E se há famosos que dão a cara por um problema que continua escondido na sociedade, os realizadores de cinema chegaram à conclusão que quanto mais sexo um filme tiver, melhor. Pelo menos esta foi a conclusão a que chegou, em 2004, o jornal ‘New York Post’: ‘Instinto Fatal’
foi um dos contribuintes, mas também títulos como ‘Atracção Fatal’ (1987), ‘Nove Semanas e Meia’ (1986), ou ‘O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes’ (1981). Responsáveis por muitas receitas, estes filmes também contribuíram para a banalização do sexo (não explícito) nas telas de cinema. Em Portugal, está em exibição na SIC, a telenovela ‘Jura’. O actor Pêpe Rapazote protagoniza um excêntrico marido que em cenas de sexo, em qualquer lugar, com qualquer mulher além daquela com quem é casado, e fala de sexo como a pedra-de-toque da sua própria vida. Será a maior aproximação com um viciado em sexo a que agora se pode assistir.
DETECTOR DE VICIADOS
ASSINALE COM UMA CRUZ AS RESPOSTAS AFIRMATIVAS
- Guarda segredos sobre a sua vida sexual, ou romântica, do seu parceiro habitual?
- Tem relações sexuais em locais ou com pessoas que habitualmente não escolheria?
- Já deu consigo a ler artigos de jornal, revista, ou em outros media, que o excitem?
- Acredita que as suas fantasias sexuais ou românticas interferem na sua relação ou estão a fazê-lo evitar problemas?
- Sente vontade frequente de se afastar do seu parceiro sexual após uma relação? Sente remorsos frequentes, vergonha, ou culpa depois de um acto sexual?
- Sente vergonha do seu corpo ou da sua performance sexual, a ponto de evitar tocar o seu corpo ou encetar uma relação sexual? Teme que não tenha desejo sexual?
- Em cada relação que inicia continua a ter os mesmos problemas destrutivos que o fizeram terminar a anterior relação?
- Varia ou a aumenta de frequência as suas actividades sexuais ou românticas para atingir os mesmos níveis de prazer?
- Alguma vez foi preso, ou está em vias disso, pelas suas práticas de voyeurismo, exibicionismo, prostituição, pedofilia, telefonemas indecentes, etc.?
- A sua fixação por sexo ou romantismo interfere nas suas crenças ou na sua vida?
- As suas relações sexuais comportam o risco, ameaça, ou a possibilidade de doença, gravidez, coerção, ou violência?
- Alguma vez o levou a sentir desapego pela vida, solidão, ou tendências suicidas?
Resultado: Se respondeu sim a mais do que duas questões, é aconselhável que procure um especialistas em problemas comportamentais associados ao sexo.
Fonte: Sex Addicts Anonymous (em www.sexaa.org)
SAIR DO CAOS
Qualquer vício é problemático, mesmo os associados ao sexo. E muitos até são punidos por lei e pouco saudáveis. Siga alguns conselhos para se sentir bem.
A: ADMITIR É AUTO-AJUDA
Pensar compulsivamente em sexo – e em ter relações sexuais a qualquer altura – rouba muita energia, cria rituais, provoca arrependimento e frustração. O tratamento faz-se através de medicação que corte a ansiedade e o desejo, conjungando com as técnicas da psicoterapia.
B: USAR BEM O TEMPO
Planeie a sua vida, diariamente, com objectivos concretos a atingir. E depois empenhe-se no seu cumprimento. Uma pessoa dependente do sexo tem um elevado nível de desejo e de fantasias sexuais, e é incapaz de controlar as suas pulsões, o que perturba as actividades do quotidiano.
C: VIDA SEXUAL SAUDÁVEL
Como qualquer vício, os sexuais são difíceis de controlar. A busca de uma vida sexual saudável deverá, muitas vezes, carecer da ajuda de um especialista (por exemplo sexólogo, psiquiatra). Também é importante contar com a pessoa que ama, sempre que disposta a ajudar.
D: DOENÇAS TRANSMISSÍVEIS
O perigo de contrair doenças sexualmente transmissíveis é mais alto em pessoas com mais de um parceiro sexual, ou que troque frequentemente. O uso do preservativo e um controlo da sua saúde previnem dissabores. Mais: fale abertamente com o seu parceiro sobre a sua sexualidade.
A PASTA DO SEXO (Opinião da jornalista Dulce Garcia)
Sexo e trabalho têm mais em comum do que parece. Ambos se digladiam para ocupar a mente humana o maior número de horas possível. À vez, são os motores da organização social. Quando os ventos são de racionalidade, trabalha-se mais. Fica bem a sociedade de fato e gravata, sentada à secretária com as molduras das crianças lambuzadas de chupa-chupa à frente. Mas eis que o zoom da máquina de filmar apanha o ecrã do computador onde, pasme-se, em vez de folhas de cálculo ou gráficos de consumo estão páginas de mulheres nuas a cirandar pelo ecrã. Quem diria?!
Trabalha-se demais, pois é. E por isso consome-se mais pornografia na internet, porque já que não se faz sexo, ao menos pensa-se nele.
Outra consequência desta aparente transformação dos instintos animais em forças do capital é o aumento do número de romances nos locais de trabalho. Surpreendidos? Quando se passa 14 horas por dia num escritório, até a mais insignificante criatura ganha qualquer coisa de sexy no andar, quando faz a travessia entre a máquina do café e a sala de reuniões.
Só em matéria de excessos, os dois conceitos se afastam um pouco, na curva do vício: viciados em sexo largam tudo por uma promessa de orgasmo. Creio mesmo que o prazer máximo está nessa equação entre a promessa e a perspectiva de ela se cumprir. Viciados em trabalho – os praticantes que me perdoem a blasfémia – só mantêm essa obsessão porque ainda não descobriram outras formas de gastar energia. Mas uns e outros caíram numa armadilha.
José Pacheco, reputado sexólogo português, teve, uma vez, uma frase óptima para explicar a inevitabilidade do fim da paixão e do desejo: o que é que acontece quando comemos todos os dias a mesma coisa, ao almoço e ao jantar? Enjoamos, não é? Porque se torna uma obrigação, uma rotina, um fardo. Duvido que os viciados em sexo tenham nele o mesmo prazer que os que o consomem em doses um pouco mais moderadas. Já os viciados em trabalho, resta-lhes sempre a esperança de um dia descobrir que o corpo serve para algo mais do que carregar a pasta.
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