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O ‘time’ português

O Vasco da Gama, um clube do Rio de Janeiro, foi fundado por portugueses há 118 anos
Sara Tainha 28 de Agosto de 2016 às 12:50

Um traço de união entre o Brasil e Portugal". Este é um   excerto   do hino   do   clube Vasco da Gama, que resume a ligação entre os dois países no futebol.   Recuamos   a   1898 para   recordar   esta   história. Um grupo de 60 emigrantes portugueses, no Rio de Janeiro, resolveu fundar um clube de remo. Rapidamente se estendeu a outras modalidades, nomeadamente ao futebol.

Passado um século, no estádio de São Januário respira-se Portugal em todos os cantos. "O Vasco da Gama é uma das principais criações de Portugal no Mundo", sublinha Luís Fernandes, presidente do Conselho deliberativo   do   clube   -   ou   ‘time’, como dizem no Brasil. Atualmente,   tem   quase   20   milhões   de   adeptos,   praticamente o dobro da população portuguesa.   Os   torcedores, como   se   diz   no   Brasil,   são conhecidos como os ‘bacalhaus’. Foram os adversários que deram esta alcunha, mas o   clube   gostou   da   ideia   e transformou-a na mascote.

Luiz Ceará é um dos jornalistas   desportivos   mais   conhecidos   do   Brasil.   Há   45 anos   que   trabalha   de   perto com o futebol e garante que não há ligação mais forte a Portugal na cidade maravilhosa. "O Vasco da Gama é Portugal dentro do Brasil. Representa não só a comunidade portuguesa, como toda a cultura do país. É um filho lusitano muito amado. No Rio de Janeiro, o clube tem adversários: o Flamengo, o Fluminense... mas, no resto do país, é amado por essa forte ligação a Portugal. Olhamos para este clube e vemos de onde viemos", refere.

Negros e pobres

Comemoravam-se   os   400 anos da descoberta do caminho   marítimo   para   a   Índia, quando o grupo de emigrantes   portugueses   resolveu fundar o clube. Escolher um nome   foi   fácil:   Vasco   da Gama, em memória do navegador português.

O preto do equipamento e o emblema carioca não foram escolhidos   ao acaso:   a   cor simboliza os mares obscuros que os navegadores percorreram.   E   a   cruz   de   cristo   é uma   referência   ao   símbolo utilizado   para   abençoar   as caravelas   portuguesas   na altura   dos   descobrimentos. "Orgulhamo-nos   muito   da contribuição dos emigrantes portugueses no século XIX. Foram eles que tornaram esta história possível. E foram eles que levaram a figura de Vasco da Gama a um outro patamar - democratizaram a prática do   futebol   no   Brasil",   diz   o presidente Luís Fernandes.

Foi   o   Vasco   da   Gama   que abriu o futebol aos jogadores negros e pobres. Até aí, o futebol era um desporto de elites. Em resposta a esta tentativa de quebrar barreiras da discriminação social e racial, os   outros   clubes   cariocas reuniram-se para expulsar o emblema da liga.

Juntar brancos e negros no plantel valeu a expulsão da competição. Para regressar aos   campeonatos,   o   Vasco da   Gama   precisaria   de   ter um estádio próprio. Em resposta, e com o dinheiro dos emigrantes portugueses, foi construído o estádio de São Januário, em 1927. O arquiteto português Ricardo Severo foi nomeado responsável pelo projeto. ‘O Imparcial’ deu conta do início das obras: "O stadium do Club de Regatas Vasco da Gama – Será   hoje   lançada   a   pedra fundamental".

"Com   negros   e   pobres,   o Vasco da Gama trouxe o futebol para o povo. E nada era possível sem o dinheiro dos portugueses. Mas esses emigrantes também puseram as mãos à obra: pegaram nos tijolos,   amassaram   o   cimento...   Tudo   isto   construído pelas mãos portuguesas", recorda o jornalista Luíz Ceará, a   propósito   da   empreitada que   construiu   o   estádio   de São Januário, que se tornou no maior da América do Sul e, também, palco de manifestações   cívicas   depois   da revolução   de   1930.   Na   casa do   Vasco   foram   realizados eventos   políticos,   como   o comício   de   1º   de   maio,   no qual   o   presidente   Getúlio Vargas anunciou a consolidação das Leis do Trabalho.

Até à construção do Maracanã, em 1950, o estádio dos portugueses foi o maior do Rio de Janeiro, capital da República na altura.

As ligações entre os ‘vascaínos’ e Portugal estão um pouco por toda a parte, até no comando técnico. O atual treinador,   Jorginho,   é   neto de portugueses. "Treinar o Vasco da Gama faz-me sentir em casa. Para a minha família é um enorme orgulho, sempre quiseram que escolhesse este clube pelas suas raízes. Agora até estou a tentar tirar o passaporte português. E por aqui tudo respira Portugal. Até quando temos que   almoçar,   vamos   a   um restaurante português aqui perto do estádio. Comemos sempre bacalhau e há sempre   os   docinhos,   como   o pastel de belém, para a sobremesa. É um orgulho poder   treinar   um   clube   com tanta   história",   confessa   o treinador de 52 anos.

A Portuguesa

Nas   bancadas,   em   dias   de jogo, há sempre muitos emigrantes a torcer pelo clube. "A maioria dos portugueses que vivem no Rio de Janeiro são adeptos do Vasco da Gama e o clube também tem dirigentes luso-descendentes. Nas reuniões do Conselho Deliberativo, ouve-se muito o sotaque português", sublinha o presidente do Conselho Deliberativo, Luís Fernandes.  

E o pontapé de saída dessas reuniões é sempre dado com A Portuguesa, canção composta em 1890, com letra de Henrique Lopes de Mendonça e música de Alfredo Keil, adotada depois como hino nacional de Portugal. Só depois se ouve o hino do Brasil e, após isso, o do clube. Tradições que se mantêm acesas para não esquecer as origens.

Portugal   deu   a   conhecer   o Brasil ao Mundo. E no futebol brasileiro, um dos mais competitivos do planeta, dá-se a conhecer um pouco da história   de   Portugal.   Um   remate certeiro   dos   emigrantes   no Rio   de   Janeiro,   que   levou   à conquista de 4 campeonatos brasileiros,   24   títulos   do campeonato   carioca,   3   de campeão   sul   americano   e ainda 1 copa do Brasil.

O brasileiro João Havelange - recentemente desaparecido já com 100 anos, que esteve à frente   da   FIFA   durante   24 anos, de 1974 a 1998, quando deu lugar a Joseph Blatter - iniciou a carreira como dirigente precisamente no clube dos portugueses, o Vasco da Gama,   assumindo   depois   o cargo de presidente da Federação Paulista de Natação, no final da década de 40.

No dia 20 de maio 2007, o ponta   de   lança   Romário marcou no estádio o seu milésimo golo, na partida entre Vasco da Gama e Sport Recife. Uma estátua, dentro de São   Januário,   foi   erguida para homenagear o jogador brasileiro.

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