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Correio da Manhã

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O tradutor da Santa

Carlos Evaristo, o tradutor oficial de inglês da irmã Lúcia descreve a pastorinha como “a porta-voz de Nossa Senhora”. Do contacto com a santa guardou a imagem de normalidade, simplicidade e boa disposição. Agora considera que se perdeu “uma embaixatriz da paz e da boa vontade”.
20 de Fevereiro de 2005 às 18:00
Muito poucas pessoas tiveram a oportunidade de privar com a irmã Lúcia, dado os votos de clausura no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra. Mas como a vidente de Fátima não sabia falar inglês era necessário recorrer a um intérprete. A sorte calhou a Carlos Evaristo, a 11 de Outubro de 1992, quando o cardeal patriarca da Índia, António Padiyara, o escolheu para traduzir o encontro com a religiosa.
No ano seguinte, bateu-lhe novamente à porta outro visitante: o cardeal das Filipinas Ricardo Vidal. Os contactos nunca mais pararam. Eclesiásticos, mas também estrelas, como Mel Gibson ou Madonna, entraram em contacto com Carlos Evaristo para tentar falar com a irmã Lúcia ou serem recebidos, em Fátima. Algumas das entrevistas foram, inclusive, publicadas em livros e em sites, na Internet, mas “sempre com a autorização da irmã”. A opção de tornar públicas algumas dessas conversas nunca foi bem vista junto da comunidade religiosa e, sobretudo, dos que transformavam a fé em fanatismo. “Os primeiros achavam que era um abuso fazer algo sobre a irmã Lúcia, enquanto ela ainda estivesse viva. Os tradicionalistas de extrema-direita defendiam que aquilo que ela disse e que eu transmitia era um total disparate. Que não era ela, mas uma sósia ou uma mulher drogada a falar. E acusavam-me de ser um aldrabão”, conta. Na altura, as injúrias sobre ele afectavam-no de tal maneira que chegava a desabafar sempre que se encontrava com a irmã. “Estabeleceu-se uma empatia muito grande entre nós. Ela tinha uma atenção quase humorística comigo. Sabia que eu sofria com essas mentiras, mas levava sempre tudo a brincar. Um dia, disse-me umas palavras muito sensatas: ‘Deixa-os escrever, pois de tanto escreverem há-de acabar-lhes a tinta.” Outras vezes, brincava com a situação: “Oh Carlos, ainda está vivo?” Este ar bem disposto arrancava gargalhadas entre as outras irmãs. “Ao contrário do que alguns americanos pensavam, que ela era uma monja, em total clausura, penitência e oração, sempre que havia algum encontro, ela dizia algo e toda a gente ria, humor que é muito típico do povo de Aljustrel, onde nasceu. Curiosamente, a irmã Lúcia usava termos muito populares e expressões que caíram em desuso, como ‘vossemecê’ ou ‘eu cuido que’. Era, realmente, uma pessoa do povo”, descreve.
O proprietário de uma estação de televisão católica norte-americana, a catholicfamilyland TV, reconhecida pelo Papa, foi uma das personalidades a obter luz verde da Congregação da Santa Fé para ver a irmã Lúcia. Jerrey Conicker visitou-a, em 2002, a última vez em que Carlos Evaristo mediou uma entrevista, para lá das grades do Carmelo de Santa Teresa. “Ele ficou impressionado com ela. Gostou muito da sua simplicidade e tranquilidade.”
Agora que a vidente partiu, Carlos Evaristo considera a sua morte “uma perda trágica para a humanidade. Era uma grande alma, uma embaixatriz da paz e da boa vontade”. Perde-se – sublinha – “uma das três grandes figuras da Igreja do século XX, só comparável à Madre Teresa de Calcutá e ao Papa”. Os que a criticavam não compreendiam, defende o tradutor, “o verdadeiro significado da mensagem de Fátima”. “Quando obtinham autorização para serem recebidos pela irmã Lúcia, sobretudo os americanos, colocavam sempre perguntas apocalípticas, como se o mundo iria acabar ou se haveria guerras. Ela comparava a mensagem de Fátima a um texto bíblico do nascimento de Cristo, quando os anjos, em Belém, apareceram aos pastores. Os anjos não disseram paz na terra a todos homens, mas sim aos de boa vontade, o que indica que nunca vai haver paz total na Terra, pois nem todos os seres humanos são de boa vontade. Alguns americanos acreditavam que iria acontecer algo milagroso que converteria todo o mundo, nomeadamente a ex-União Soviética, ao catolicismo. Como isso não sucedeu, diziam que quem falava era uma sósia impostora”.
A CLAUSURA POR OPÇÃO
Carlos Evaristo garante que a irmã Lúcia se entregou à clausura do Convento de Santa Teresa de livre vontade. Segundo o também especialista em relicários, “ela estava cansada de ouvir, durante anos, as mesmas perguntas. Era massacrada pelas pessoas”. E recorda os incidentes que, por vezes, enfrentava quando ela, uma eleitora assídua, saía para votar. “As pessoas faziam coisas inacreditáveis, desde querer levá-la para o carro ou para casa, a arrancarem cabelos para terem uma relíquia; homens que a beijavam. Imagine-se o que é conviver com isto desde pequena. Ela não gostava, por isso, pediu para ir para o carmelo.”
Antes de tomar a decisão de se afastar do mundo, a irmã Lúcia esteve em Espanha, na ordem das Doroteias. Longe de Fátima, a religiosa continuava a não ter o sossego desejado. Um dos episódios contados pela vidente a Carlos Evaristo remonta a estes dias: “Nos anos 40, antes de ir para Coimbra, a irmã Lúcia e outra doroteia cruzaram-se com uma multidão de portugueses, na ponte entre Valença do Minho e Tui. Ao verem que eram irmãs daquela comunidade perguntaram-lhes se a vidente de Fátima estaria no convento. Então ela respondeu: ‘Cuido que não e que não irá estar durante todo o dia’. Os crentes, decepcionados, e sem saber que tinham falado com a própria voltaram para trás. Este era o dia-a-dia da irmã Lúcia antes de ter entrado no Carmelo de Coimbra. Todos tinham acesso a ela, desde que pedissem a autorização do bispo de Leiria.
Cansada da inquietação dos crentes e dos constantes turbilhões de perguntas – sempre as mesmas ‘como é a Nossa Senhora?’ ou ‘como é o céu? –, a crente enviou, segundo Carlos Evaristo, “um pedido de autorização ao Papa Pio XII, em Junho 1946, para entrar para uma comunidade de clausura contra a vontade da maioria dos membros da Igreja”. Só que o Convento de Santa Teresa estava desactivado e o mais próximo seria o de Fátima. “Ela não queria ir para lá porque achava que ficava muito próxima do lugar das aparições e iria ser novamente melindrada. No entanto, também queria ficar em Portugal”, recorda.
Na tentativa de trazer a irmã Lúcia para Portugal, a madre superiora das carmelitas enviou uma carta a pedir directamente a Salazar que lhes restituísse o Convento de Santa Teresa, confiscado, em 1844, no regulamento que decretou a expulsão das ordens, e que, na altura, servia de quartel militar. “Ela e um grupo pequeno de irmãs espanholas regressaram e alugaram uma casa, em Coimbra, que servia de convento. Como a residência não reunia condições para a irmã Lúcia lá estar, ela escreve uma carta ao Salazar que começa assim: ‘Meu querido Salazar’. Diz-se que, quando ele leu a carta – formalmente, não eram maneiras de tratar o presidente do conselho –, desatou a rir. Mas em resposta à pureza do pedido, telefona para o general e manda que desocupem o carmelo e entreguem as chaves à madre superiora, no 21 da rua Filipe Simões, onde elas estavam instaladas. A tropa ficou a dormir ao relento para que a irmã Lúcia pudesse ficar em Portugal.” Salazar obteve autorização para visitá-la 19 anos depois da vidente entrar para o convento.
Mais de metade da vida foi passada neste espaço, numa clausura apenas interrompida em muito poucas ocasiões. A terceira visita a Fátima do Papa João Paulo II, em Maio de 2000, foi a última vez que ela apareceu em público. Apesar das grades que se interpunham entre a vidente e quem a procurava com permissão do Vaticano, Carlos Evaristo garante que ela era das pessoas mais acessíveis que conhecia: “Era quem mais correspondência recebia neste país; vinham centenas de cartas de todo o mundo. Quando falávamos com ela, olhava-nos nos olhos muito pertinho e de mão dada. Caso tivéssemos criado qualquer barreira psicológica, essa distância caía por terra”.
A facilidade em lidar com computadores era outra das curiosidades da irmã Lúcia. “Era uma pioneira na informática dentro das ordens religiosas. Há muito tempo que tinha aprendido a trabalhar com microprocessador de texto. Começou por ter uma máquina de escrever com ecrã e acabou por digitar em computador.”
A mesma máquina que lhe servia para responder a sacerdotes e a algumas das centenas de cartas que recebia. Uma fotógrafa americana, que se encontra a fazer retratos das personalidades católicas mais importantes para um calendário, já tinha obtido a autorização do Vaticano para a ver, assim como o editor da publicação religiosa ‘Inside the Vaticane’. O encontro estava marcado para 22 de Março, o dia em que a irmã Lúcia completaria 98 anos. Mas o coração parou inesperadamente a 13 – coincidência ou não, o dia dedicado a Nossa Senhora –, sem que estes e muitos outros devotos tivessem a oportunidade de conhecer a mulher que muitos consideram santa.
O ENCONTRO COM MEL GIBSON
Mel Gibson, seguidor fervoroso da mensagem de Fátima e membro dos sedevacantistas (uma corrente católica tradicionalista), tentou obter, várias vezes, a autorização do Vaticano para visitar a irmã Lúcia e, em Setembro de 2004, chegou a vir a Fátima, mas sem sucesso. No ano de estreia mundial do filme ‘A Paixão de Cristo’, o realizador enviou um pedido ao cardeal Josef Ratezinger, responsável por responder a este tipo de solicitações. Como não conseguiu, relata Carlos Evaristo, “enviou uma funcionária para Fátima, a fim de se integrar na sociedade para conseguir que a irmã Lúcia o recebesse”. Durante este tempo, o intérprete da irmã foi contactado por inúmeras vezes. Em Junho de 2004, ela conseguiu, com o apoio de um sacerdote de Fátima, a oportunidade para que o actor pudesse visitar a religiosa. Como explica Carlos Evaristo, “a irmã Lúcia estava sob uma regra de clausura que a impossibilitava de ter contacto com o mundo. Além da família, dos médicos e dos confessores, quem quisesse ver uma carmelita, ainda mais a irmã Lúcia, tinha de pedir autorização à Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. Em algumas entrevistas, podia-se falar, noutras apenas tinham autorização para recolher imagens, mas sem voz. Dependia”.
Antes da estreia do filme, Gibson chegou a enviar o protagonista, James Caviezel, para tentar visitar a irmã no convento. A 28 Julho de 2004, o intérprete de ‘Braveheart’, de férias na Irlanda, teve indicação por parte da funcionária de que haveria oportunidade de se encontrar com a vidente. Por falta de autorização, a visita do realizador não foi privada; era uma audiência à comunidade. “Havia excepções à regra. Uma delas era quando houvesse algo que pudesse contribuir para o enriquecimento da espiritualidade das irmãs. Mel Gibson deslocou-se ao carmelo nesta condição. Apresentou um DVD de ‘A Paixão de Cristo ‘ e deu uma palestra sobre o assunto. Nunca perguntou nada sobre Fátima, limitando-se apenas a esclarecer as dúvidas das irmãs e pediu que elas rezassem pela sua família.”
Carlos Evaristo teve depois conhecimento de qual foi a opinião da irmã Lúcia: “Achou o filme comovente e que correspondia ao sofrimento de Cristo. Não real, mas espiritual, de ter sofrido por acréscimo pelos pecados do mundo”.
A VERDADEIRA DATA DE NASCIMENTO
Nas biografias que irão ser publicadas sobre a irmã Lúcia, 22 de Março vai aparecer como o dia do seu nascimento. No entanto, assegura o tradutor, a mais venerada carmelita nasceu a 28 de Março, como ela própria lhe confidenciou: “O pai dela queria baptizá-la no sábado de Aleluia e, na altura, existia uma regra que para serem baptizados tinham de ter não sei quantos dias de vida. O pai da irmã Lúcia mentiu ao registá-la a 22 de Março”.
ESPECIALISTA DA FÉ
Nascido no Canadá há 35 anos, Carlos Evaristo é formado em História. Vive em Portugal desde 1990, onde se tornou especialista em assuntos religiosos. Além de tradutor oficial da irmã Lúcia, tem contribuído para a canonização de Dom Beato Nuno, o fundador da Ordem do Carmo, em Portugal. Estudioso das aparições e dos fenómenos de Fátima, este luso-canadiano é patrono dos Museus do Vaticano e responsável por uma das maiores colecções portuguesas de relicários, em Ourém. Os últimos dias têm sido dedicados ao programa sobre fenómenos sobrenaturais ‘Mistérios da Fé’, que deverá ser exibido no Canal História. Autor de vários livros, o intérprete da vidente mantém-se em contacto permanente com americanos, que o procuram sempre que visitam Fátima.
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