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O último brinquedo

“Resultado: a nave espacial foi comprada meio às escondidas, num misto de desejo e vergonha, e jamais falei dela aos meus amigos – seria uma brecha infantil no muro do ‘já não sou uma criança’”
22 de Agosto de 2010 às 00:00
O último brinquedo
O último brinquedo FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Lembro-me perfeitamente do último brinquedo que os meus pais me compraram: uma enorme nave espacial do então popularíssimo He-Man, herói loiro e musculado que ao lado da bombástica She-Ra (sua irmã gémea) combatia as forças do malvado Skeletor. Eu já tinha uma vasta parafernália de bonecos, incluindo o castelo Grayskull e o tigre verde que He-Man cavalgava nas batalhas, mas a nave espacial era a cereja em cima do bolo, longamente desejada.

Namorei-a durante tanto tempo que quando chegou a altura de a comprar devia ter uns 14 ou 15 anos, e portanto já estava na idade em que era suposto gostar mais das minhas colegas de carne e osso do que de brinquedos de plástico (apesar das curvas voluptuosas de She-Ra). Resultado: a nave espacial foi comprada meio às escondidas, num misto de desejo e vergonha, e jamais falei dela aos meus amigos – seria uma brecha infantil no muro do "já não sou criança" que naquela altura tanto trabalho dava a pôr de pé.

Durante anos e anos, os brinquedos haviam sido uma fonte de perpétua felicidade. Achava impensável que um dia pudesse deixar de gostar deles: eu não iria ser como os outros, viveria até ser velho rodeado de fortes e naves espaciais, em batalhas épicas onde os maus tinham sempre mortes de curta duração – logo voltavam, mais malévolos e terríveis, disponíveis para vender cara a pele na próxima (e inevitável) derrota.

Todas estas memórias regressaram há 15 dias quando fui ao cinema com os meus filhos ver o maravilhoso ‘Toy Story 3’, um filme que parece que é para eles mas que é em primeiro lugar para nós, os adultos, eternos nostálgicos da nossa infância. Adivinhem quem estava a limpar os olhos no final? Não eram eles, não – o momento em que Andy entrega os seus melhores brinquedos a uma nova criança é uma das cenas mais comoventes de toda a história do cinema de animação.

E é comovente porque nós nos revemos nela, porque quando temos filhos essa cena acontece em cada uma das nossas casas. O Tomás hoje em dia dá nova vida aos meus índios e cowboys, aos gladiadores já sem tinta e aos carros com que fiz notáveis corridas entre as pernas das cadeiras da minha sala. Nas suas pequenas mãos, os meus velhos brinquedos ganham uma nova vida. Por isso, na próxima visita a Portalegre acho que vou mergulhar no sótão à procura da nave espacial do He-Man. Conheço a pessoa certa para a pôr a voar outra vez.

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